Neste mês de agosto, a Lei Maria da Penha completa 19 anos. Considerada um marco histórico no combate à violência contra a mulher, a legislação é reconhecida internacionalmente por seu avanço jurídico. Ainda assim, quase duas décadas depois, uma pergunta inquietante continua ecoando: por que ainda é tão difícil identificar um agressor?
No imaginário coletivo, o agressor é muitas vezes representado como um estranho, um monstro escondido na escuridão de uma rua qualquer. Mas a realidade é bem diferente.
“O agressor é muitas vezes aquele colega de trabalho que chega no horário, é gentil com todos, leva bolo para a equipe e parece irrepreensível”, alerta Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em visita a Campo Grande para um seminário, ela reforçou a importância de desconstruir o estereótipo do agressor como o “marginal clássico”. “Essa visão distorcida contribui para a impunidade”, completa.
Segundo Samira, a violência está enraizada em padrões culturais, muitas vezes naturalizados ao longo de gerações. Romper com essas narrativas exige mais do que leis: exige coragem para mudar comportamentos e valores sociais.
Feminicídio no Mato Grosso do Sul: o retrato da urgência
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública colocam o Mato Grosso do Sul como o segundo estado com a maior taxa proporcional de feminicídios do país — atrás apenas do Mato Grosso. E o dado mais alarmante: mais de 90% das vítimas nunca tiveram medida protetiva. O silêncio, nesse contexto, continua sendo o maior aliado do agressor.
“A agressão física quase sempre é o último estágio de uma escalada de violências invisíveis: psicológica, moral, emocional”, afirma o delegado André Matsushita, em entrevista à coluna “Fala, Delegado”.
O delegado reforça que a violência contra a mulher não pode ser tratada apenas como “caso de polícia”, mas como uma questão estrutural. Para ele, a prevenção precisa começar ainda na infância, nas escolas, com meninos aprendendo desde cedo o que é respeito, empatia e igualdade de gênero.
Confira :
“Uma coisa é tentar mudar um homem adulto já violento. Outra, muito mais eficaz, é impedir que ele se torne violento”, defende.
Violências que não deixam marcas no corpo
A Lei Maria da Penha tipifica cinco formas de violência: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. E muitas vezes, os sinais são sutis e silenciosos.
Psicológica: o controle emocional e o isolamento da vítima.
Moral: injúrias, difamações e calúnias.
Sexual: estupros, inclusive dentro do casamento, ainda são comuns — e muitas vezes naturalizados.
Patrimonial: desde o controle de cartões de crédito até a destruição de objetos da mulher, como celulares e documentos, para impedir sua autonomia.
“A quebra de um celular, por exemplo, pode não ser apenas dano ao patrimônio, mas uma forma de isolar a vítima e impedi-la de pedir ajuda”, alerta o delegado.
O papel de toda a sociedade
A responsabilidade pelo combate à violência doméstica não é apenas do Estado. Samira Bueno ressalta a importância do envolvimento da sociedade civil, setor privado, movimentos sociais e escolas.
Ela destaca segmentos tradicionalmente masculinos, como a construção civil, como espaços que também precisam abrir diálogo sobre o tema. “Como um encarregado de obra pode falar sobre violência com seus funcionários? Como a empresa pode apoiar mulheres vítimas?”, questiona.
Feminicídio após o divórcio: o perigo continua
Engana-se quem acredita que o fim do relacionamento encerra o ciclo de violência. Para muitas mulheres, o momento de maior perigo é justamente após a separação. O ex-companheiro, ao perceber que “perdeu o controle”, pode reagir com ainda mais violência.
Casos de feminicídio cometidos por ex-parceiros são cada vez mais frequentes, e especialistas alertam para um período de luto emocional que pode durar até um ano, tempo em que a vítima está mais vulnerável à recaída ou novas agressões.
Hibristofilia: o amor pelo agressor
Um dado perturbador mencionado durante a entrevista foi o caso de Igor Cabral, flagrado agredindo brutalmente sua companheira em um elevador. Mesmo após a repercussão negativa, ele recebeu mais de 1.500 mensagens de mulheres interessadas.
Esse comportamento, segundo o delegado Matsushita, tem nome: hibristofilia — uma parafilia que envolve atração por criminosos violentos. “É um sintoma de um adoecimento social. Precisamos falar sobre isso”, reforça.
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