Em um mesmo ambiente, algumas pessoas parecem atrair muito mais mosquitos do que outras. A impressão tem fundamento científico. Os insetos não escolhem suas vítimas ao acaso. Eles combinam diferentes sinais produzidos pelo corpo humano para localizar quem parece mais atraente.
Existem mais de 3.700 espécies de mosquitos conhecidas no mundo. A boa notícia é que a grande maioria delas nunca pica pessoas. Muitas se alimentam apenas de néctar ou preferem outros animais. Entre as milhares de espécies existentes, apenas uma pequena parcela costuma atacar seres humanos e um número ainda menor é capaz de transmitir doenças. Os principais grupos de importância para a saúde são os gêneros Aedes, Anopheles e Culex, responsáveis pela transmissão de algumas das enfermidades mais conhecidas do planeta.
Entre as principais doenças transmitidas por mosquitos estão dengue, zika, chikungunya, febre amarela, malária, vírus do Nilo Ocidental, encefalite japonesa e filariose linfática. Juntas, essas doenças afetam centenas de milhões de pessoas todos os anos. A malária continua sendo uma das infecções mais letais do mundo, enquanto a dengue é hoje a doença viral transmitida por mosquitos mais disseminada globalmente.
Nas espécies que se alimentam de sangue, apenas as fêmeas picam. Elas precisam das proteínas presentes no sangue para produzir os ovos. Os machos se alimentam exclusivamente de néctar e outros açúcares das plantas. Para encontrar uma pessoa, as fêmeas usam principalmente o olfato, mas também percebem calor, umidade e sinais visuais. O gás carbônico liberado pela respiração funciona como um dos primeiros alertas de que há um possível hospedeiro por perto. Depois, à medida que se aproximam, os mosquitos passam a seguir o cheiro da pele.
Esse cheiro não depende apenas do suor. A pele libera centenas de substâncias, que são transformadas pelas bactérias que vivem naturalmente sobre ela. O resultado é uma assinatura química particular para cada pessoa. Compostos como ácido lático, amônia e ácidos carboxílicos podem aumentar a atração, dependendo da espécie do mosquito.
Um estudo publicado na revista Cell mostrou que pessoas consideradas “ímãs de mosquitos” apresentavam níveis mais elevados de ácidos carboxílicos na pele. A diferença não foi pequena: alguns voluntários atraíram muitas vezes mais mosquitos do que outros. O padrão também permaneceu relativamente estável durante anos, sugerindo que a tendência de ser mais picado pode ser uma característica duradoura do organismo.
A genética provavelmente ajuda a determinar parte dessa composição química, mas não age sozinha. A microbiota da pele, a alimentação, o uso de cosméticos, o suor, a temperatura corporal e o metabolismo também podem modificar os odores liberados. Ainda não existe, porém, uma fórmula capaz de prever exatamente quem será mais picado.
Pessoas que liberam mais gás carbônico também podem ser encontradas com maior facilidade. Isso pode ocorrer, por exemplo, durante exercícios físicos ou em indivíduos com maior porte físico. O esforço ainda eleva a temperatura e a transpiração, reforçando outros sinais utilizados pelos insetos.
O calor é particularmente importante a curta distância. Depois de perceber o cheiro e o gás carbônico, o mosquito usa a temperatura e a umidade para localizar áreas expostas da pele e escolher onde pousar.
A cor da roupa também pode influenciar. Depois de ser ativado pelo odor, o mosquito usa o contraste visual para se orientar. Roupas escuras e objetos que se destacam do ambiente podem facilitar a aproximação de algumas espécies. Mas esse fator costuma ter peso menor do que o cheiro corporal.
E o tipo sanguíneo? Alguns estudos encontraram preferência por determinados grupos, especialmente o tipo O. No entanto, os resultados variam conforme a espécie analisada e ainda não há consenso científico de que o tipo sanguíneo seja um dos principais fatores. As evidências mais fortes continuam apontando para a composição química da pele.
Outro ponto importante é que nem todas as pessoas reagem da mesma forma às picadas. Duas pessoas podem receber a mesma quantidade de picadas, mas uma desenvolver grandes áreas de vermelhidão e coceira, enquanto a outra quase não percebe. Isso acontece porque a reação depende da resposta do sistema imunológico às proteínas presentes na saliva do mosquito.
Assim, quem diz ser “preferido” pelos mosquitos pode realmente ser mais atraente para eles, mas também pode simplesmente apresentar uma reação mais intensa e visível. Na maioria dos casos, os dois fatores se somam.
O avanço das pesquisas sobre esses odores pode ajudar a criar repelentes e armadilhas mais eficientes. Cientistas estudam substâncias capazes de bloquear os receptores olfativos dos mosquitos ou de reproduzir cheiros humanos para desviá-los das pessoas.
Enquanto essas soluções não chegam, a prevenção continua sendo a mesma: usar repelentes registrados, vestir roupas que cubram a maior parte do corpo quando necessário, instalar telas em portas e janelas e eliminar recipientes com água parada. Essas medidas são especialmente importantes em regiões onde há circulação de doenças transmitidas por mosquitos.
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