Por Alexandre Gonzaga
Acredito que existam poucas coincidências na vida… tão raras quanto a posição exata de planetas e galáxias que permite a existência de mundos inteiros, girando em perfeita harmonia, mesmo quando tudo parece um grande caos.
Em 1982, fui morar no Rio de Janeiro, na Praia Vermelha, apenas eu e meu pai, recém-viúvo. Ali se localiza o Monumento aos Heróis da Laguna e Dourados, que homenageia os militares brasileiros que lutaram na Guerra do Paraguai. A praça também leva o nome do General Tibúrcio, outro herói daquele conflito. O militar também era cearense, assim como meu pai.
Acredito que nem eu nem meu pai imaginávamos que, dois anos depois, com toda a família novamente reunida — eu, minhas irmãs e ele — iríamos morar justamente em Dourados, em Mato Grosso do Sul. Uma coincidência que acabou influindo no rumo da vida de todos nós.
Filhos campineiros, um pai cearense e uma “mãedrasta” carioca, chegamos a um dos palcos mais marcantes dos primeiros confrontos da Guerra do Paraguai. Foi ali, em Dourados, que ocorreu o Combate da Colônia Militar, a chamada Epopeia dos Dourados, em 29 de dezembro de 1864.
Por uma dessas ironias do destino, eu nasceria 100 anos depois daquele episódio histórico, num dia 29 de novembro.
Foi em Dourados que nasceu meu primeiro sobrinho, Victor César. Anos mais tarde, nasceria Rafael, desta vez na nossa cidade natal de Campinas, e por último Ana Cecília, em Campo Grande. Meus sobrinhos são tataranetos de um dos colonizadores de Dourados, Marcelino Pires.
Em 1986, outro braço da família também escreveria história em terras pantaneiras. Minha prima Silvia Helena Engler viveria sua própria travessia, ligada aos parentes do esposo de sua irmã, Maria Fernanda, o cunhado Pedro Prudêncio, com elos familiares com os proprietários da Fazenda San Francisco, um dos símbolos do Pantanal sul-mato-grossense. Era como se nossas histórias, vindas de tantos cantos diferentes, encontrassem no Pantanal um ponto comum de destino.
“A irmã do Pedro, Beth Prudêncio Coelho, é casada com Roberto Coelho, e são eles os proprietários da fazenda. Viajamos acompanhados da sogra de Maria Fernanda, Sueli Prudêncio, mãe de Pedro, que acabou sendo nossa grande cúpida nessa história”, relembra Silvia Helena.
Foi nessa viagem de almas que Silvia Helena conheceu seu futuro esposo, Otto, músico austríaco que estava no Brasil fazendo mestrado sobre o movimento da Bossa Nova. O encontro não foi obra do acaso. Sueli Prudêncio, mãe de Pedro, percebeu antes deles a sintonia que ali nascia e acabou se tornando a grande incentivadora daquela história.
No trem rumo ao Pantanal, Otto convidou minha prima a acompanhá-lo na canção “Eu Sei Que Vou Te Amar”. Entre notas suaves, janelas abertas para o horizonte e a vibração metálica dos trilhos, nascia um amor que já atravessa quarenta anos.
Silvia Helena e Otto Coberg interpretam “Eu Sei que Vou Te Amar” (Vinícius de Moraes (letra), Tom Jobim (melodia). OUÇA:
Silvia Helena mora nos Estados Unidos há algumas décadas, em Los Angeles. Seus filhos só conheceram a terra que encantou seus pais em julho de 2018, quando finalmente puderam ver de perto a beleza do Pantanal sul-mato-grossense, o cenário que moldou o encontro que lhes deu origem.
“Maria Fernanda ficou em Campinas com minha mãe, e seguimos eu, Otto, o cunhado Pedro, suas filhas e minhas sobrinhas Natália e Amanda, e meus filhos Luana e Alan rumo ao Pantanal. Queríamos mostrar o lugar onde eu e Otto nos conhecemos, a antiga sede da Fazenda San Francisco, que ficava, na época, ao lado de um grande refeitório”, conta Silvia Helena.
Minha prima explica que, ao longo dos anos, eles viram a fazenda se transformar. “Reformaram tudo, criaram um modelo de ecossistema, implantaram estudos para preservar a onça-pintada, que hoje vive livre ali.
A casa onde eu e Otto nos conhecemos continua lá, intacta. Para a Luana e o Alan, foi emocionante ver o cenário exato onde nossa história começou. Guardo até hoje catálogos e lembranças dessa fazenda que, de um jeito ou de outro, acompanhou toda a nossa vida”, recorda.
A Fazenda San Francisco
A história da Fazenda San Francisco começa em 1973, com o pecuarista Laucídio Coelho, que nasceu no dia 29 de agosto de 1886 e se tornou o rei do gado ao longo de várias décadas.
Ele comprou, neste ano, 100 mil hectares e os distribuiu entre os 12 filhos, um deles Hélio Coelho, médico que se especializou em San Francisco, na Califórnia, onde conheceu Cynthia, enfermeira de origem americana.
Hélio e Cynthia se casaram e vieram morar em Campo Grande. Ao avistar a Serra da Bodoquena, Hélio lembrou-se das colinas da cidade natal de Cynthia e resolveu homenagear sua esposa batizando-a de Fazenda San Francisco.
O casal teve seis filhos. Roberto, o primogênito, casou-se em 1975 e decidiu desenvolver a fazenda com tecnologia de ponta parcialmente adaptada para o gado, enquanto outras áreas foram destinadas ao cultivo do arroz.
As áreas alagadas da fazenda enriqueceram as fontes de alimento. Observando a rica cadeia alimentar dos canais de irrigação e do preparo do solo, o que atraiu aves e animais do Pantanal, Roberto e Beth abriram a fazenda para uma terceira atividade: o turismo.
Luana e Alan, filhos da prima Silvia Helena, reviveram os primeiros destinos dos pais. Viajaram pelas mesmas paisagens encantadoras, entre fauna e flora exuberantes, mas, lamentavelmente, não tiveram a sorte de avistar a onça-pintada, a soberana do Pantanal, que acabou aparecendo pelas redondezas no dia seguinte, quando já haviam deixado a Fazenda San Francisco.
Talvez seja assim que a vida opere seus mistérios: enquanto acreditamos caminhar por escolhas próprias, ela costura pontos invisíveis entre lugares, datas e pessoas. Foi assim comigo, levado a Dourados por caminhos que começaram muito antes de mim. E foi assim com Silvia Helena, que encontrou no trem para o Pantanal o amor afinado numa canção que prometia durar — e cumpriu.
Duas histórias nascidas de acasos que se repetem como rimas: um monumento que antecipa um futuro, um trem que conduz a um encontro, um dia 29 que atravessa séculos, uma fazenda que une trajetórias tão distantes.
No fim, compreendo que coincidências não são desvios. São mapas secretos que a vida desenha quando quer nos levar exatamente onde precisamos estar.
A Fazenda San Francisco está localizada a 236 km da capital de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, e a 36 km da sede do município de Miranda. Durante a viagem, tem-se a vista da Serra de Maracaju, um dos mais belos cenários do estado e do mundo.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
Fotos: fazendasanfrancisco.tur.br
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