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O Assunto é Cinema – Revisitando Eu, Christiane F.

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

Imagine uma adolescente de hoje que não encontra acolhimento em sua vida. Essa jovem vai procurá-lo e o encontra na internet. Então, a menina interage com pessoas em grupos de WhatsApp e os amigos a levam para a dark web. Nesse ambiente, outros jovens apresentam sutis e perigosas trilhas para vícios mentais. A garota se deteriora com recompensas traiçoeiras conquistadas com tarefas indignas. Sua vida se resume a contatos com esse submundo e sair dele se torna quase impossível. A jovem caminha para a autodestruição. Agora, substitua a dark web por uma estação de transportes urbanos, os amigos virtuais por viciados que se drogam no lugar, os vícios eletrônicos por seringas com heroína e as tarefas por prostituição para sustentar a dependência. Se você conseguir enxergar essa analogia de “Eu, Christiane F.” com os caminhos trilhados por muitos adolescentes conectados da atualidade, fique perturbado. Porque a história real da então garota alemã de 13 anos encontra ecos nos dias atuais.

Lançado em 1981, o drama biográfico “Eu, Christiane F.”, que no Brasil ganhou o subtítulo de “13 Anos, Drogada e Prostituída”, narra a saga de Christiane Felscherinow durante a pré-adolescência na capital da então Alemanha Ocidental do fim dos anos 1970. Ela morava com a mãe separada e a irmã em um apartamento em Berlim, e tinha uma amiga chamada Kessi, que a levava para baladas e a um show de David Bowie. Aos poucos, Christiane acumula perdas afetivas rapidamente. Primeiro, a mãe de Kessi a proíbe de se encontrarem. Depois, a irmã resolve morar com o pai. A mãe se divide entre o trabalho e o namorado. Então, Christiane se apaixona pelo jovem Detlev e ele vira seu alicerce afetivo. Porém, o menino é viciado em heroína e se prostitui para manter a dependência, o que acaba levando Christiane pelo mesmo caminho. Eles até tentam se ajudar quando a situação sai de controle, no entanto, o vício é mais forte.

O roteiro é do diretor Uli Hedel e de Herman Weigel, e foi baseado no livro-reportagem dos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck, com depoimentos da hoje escritora Christiane Felscherinow. O primeiro aspecto desolador é a juventude dos personagens e saber que muitos são ou foram verdadeiros, já que alguns sucumbiram ao vício. A atriz Natja Brunckhorst, por exemplo, tinha 15 anos e estreava no cinema com gratificante eficiência. Sua Christiane F. trafega entre a fragilidade de uma menina com o corpo em formação e desnorteada com tantas perdas, e o desespero por mais droga nas narinas e nas veias, e pela libertação do vício. Suas expressões faciais e corporais em todo filme são dignas de aplausos pela intensidade que causa calafrios. Completam a performance assombrosa, o excelente trabalho de maquiagem que consegue deformar a delicadeza de suas feições sem que ela se perca totalmente. Ou seja, ainda havia uma menina que mal havia deixado a infância, escondida sob pesadas camadas de solidão, fúria, medo, desatino e heroína.

Tecnicamente, “Eu, Christiane F.” adota uma gramática que se aproxima do terror e suspense. Planos oblíquos com oscilações que dão uma conotação de instabilidade insinuam o caos instalado na vida da protagonista. A fotografia carregada de contrastes pesados e cores frias acentuadas causam uma sensação de incessante desconforto, que casa plenamente com a jornada infeliz de Christiane. Além disso, a trilha sonora original de Jürgen Knieper adiciona mais texturas apavorantes, remetendo ao horror crescente na rotina da personagem. As canções de David Bowie têm significado. Na década de 1970, o cantor britânico morou em Berlim, onde gravou discos cultuados. Além do contexto histórico da geração de jovens perdidos da Berlim setentista, a presença das músicas se conecta à própria luta de Bowie contra o vício em heroína.

“Eu, Christiane F.” é perturbador, mesmo que a mulher que inspirou o filme seguiu uma árdua batalha pela recuperação, teve recaídas anos depois e hoje, aos 64 anos, procura usar sua história para ajudar as pessoas. Apesar de alguns saltos temporais bruscos e de uma direção que quase deixa escapar a romantização folhetinesca da paixão entre Christiane e Detlev, o longa é um murro no fígado ao mostrar a tragédia do vício em drogas. Porém, ele foge de julgamentos morais e aposta na honestidade crua, como na devastadora cena final, seguida por um alívio frígido e seco. É uma dramatização biográfica, mas pode servir de alerta, pois o problema da juventude com a narcodependência ainda existe. No entanto, há novos tóxicos distribuídos em modernas estações, conquistados como recompensas por novos sacrifícios. Basta olhar o ambiente tecnológico onde muitos adolescentes buscam o acolhimento para a solidão. Quantas Christianes ou Detlevs vivem e morrem no submundo digital? “Eu, Christiane F.” é tenso e cruel. Se havia a necessidade de tanto peso, talvez a ilusão de uma Berlim dividida por um muro da vergonha aponte para a urgência da época em mostrar ao mundo que o lado “livre” da Alemanha seja apenas a fantasia de um sistema insensível e sem perspectivas. Especialmente, para a juventude.

Nota: 8,0.

Confira o trailer de “Eu, Christiane F.”:

 

Ouça o episódio revisitando “Eu, Christiane F.”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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