O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “High on Life 2”, jogo desenvolvido e publicado pela Squanch Games. A trama segue os eventos do original, quando o jogador liberta a humanidade do cartel G3 que queria explorar e consumir nossa espécie como uma droga recreativa. Na sequência, o caçador de recompensas ganhou fama e fortuna a ponto de se tornar uma celebridade. Enquanto se aliena do mundo a sua volta, o protagonista não se dá conta que uma farmacêutica está colocando em discussão uma lei que pretende regulamentar o consumo de humanos como antidepressivos.
“High on Life” foi lançado em 2022 com um marketing em cima do fato de que era um jogo desenvolvido pelo estúdio fundado por Justin Roiland, um dos criadores da animação “Rick e Morty”. O conceito é que o projeto seria um jogo de tiro em primeira pessoa com uma arma falante, dublada por Roiland. Enquanto o jogador se aventurava, Kenny, a arma, tagarelaria o tempo todo, fazendo piadas e dando dicas até o jogador encontrar outros Gatlians, armas alienígenas falantes da mesma espécie. O jogo fez sucesso a ponto de quebrar os recordes da Gamepass, ter boas vendas e garantir uma sequência, agora sem a participação de Justin Roiland depois das denúncias de assédio e os processos que o afastaram do estúdio.
Enquanto o primeiro jogo era vendido como uma experiência inspirada no humor de “Rick e Morty”, mas que no final das contas estava mais próximo da ironia fina do clássico “Guia do Mochileiro das Galáxias” de Douglas Adams, a sequência deixou de lado o marketing em torno da animação. O esperado era algo mais autêntico e original, próximo ao humor niilista de Adams, mas o que se tem na sequência é uma experiência mais próxima dos clichês da animação criada por Justin Roiland e Dan Harmon e esse é o ponto fraco do novo jogo. As participações especiais e referências se repetem, apenas como que para cumprir com o esperado pelos fãs.
“High on Life 2” sofre com o mesmo estigma das sequências atuais: não basta explorar o que deu certo no original e levar a trama adiante, tudo tem que ser maior: a escala, as tarefas, os desafios e os infames colecionáveis. Quando uma ação tira o jogador da trama para que este gaste tempo cumprindo tarefas repetitivas em busca de ítens que só acrescentam meros detalhes para os mais dedicados, é sinal de que estamos perante um projeto que, na maioria esmagadora dos casos, se perdeu na própria ambição. É algo que acomete grandes franquias como “Assassin’s Creed” entre outras tantas e enfraquece até sucessos como “Star Wars: Jedi Survivor”.
A fina ironia de que os mesmos seres humanos que se dão tanta importância podem ser consumidos como droga por espécies que não dão a mínima perde um pouco da graça em uma sequência que repete o tema, sem se dar conta que uma conhecida piada, contada por outro ângulo, não vai ter o mesmo impacto. É interessante ver o desenvolvimento da irmã do protagonista na sequência e o envolvimento da família inteira no processo, ainda assim, as piadas juvenis do jogo anterior já não convencem mais, soando vazias na sequência. É de se esperar de um adolescente uma dose de humor barato, mas seguir nessa toada corta a sutileza e ironia do roteiro do jogo anterior, além de enfraquecer os personagens e o mundo ao seu redor.
No aspecto do gameplay, a grande novidade é a mecânica com o skate. É o que a sequência traz de melhor além da variedade maior de estilos de armas. Além dos Gatlians originais, entram para o time o casal Travis e Jan que passam boa parte da trama querendo o divórcio e isso faz com que o jogador alterne entre um ou outro. Quando o casal se reconcilia, o jogador passa a poder usar as duas armas ao mesmo tempo em um bom exemplo de como uma mecânica de jogo pode incorporar elementos narrativos e combinar desenvolvimento de personagens e gameplay com naturalidade. Os demais Gatlians estreantes agradam, mas quem rouba a cena além do casal é a espingarda Sheath dublada por um inusitado Ralph Ineson, um caçador de recompensas que decide por conta própria virar um Gatlian.
Graficamente o jogo está mais polido, com cenários mais variados e vastos que os do jogo original. O processamento fica mais puxado em função da jogabilidade com o skate que deixa tudo mais rápido e intenso, ainda que ao custo de desempenho e bugs que persistiram após o lançamento. Um destes problemas é quando o jogador enfrenta o “Mago das Finanças” com Bowie, um arco Gatlian que tem o recurso de desacelerar o tempo em seus ataques. Em determinado ponto da luta, o intervalo de tempo entre o ataque e a movimentação com o skate ficam exageradamente curtos e isso frustra quem vinha superando os desafios até o momento, com uma guinada brusca na dificuldade do jogo. É algo a ser ajustado com atualizações futuras, mas impressiona ter sido liberado sem ajustes nos testes antes do lançamento.
“High on Life 2” pode até ter melhorado enquanto jogo de tiro, com mais armas e uma variedade maior de adversários e desafios além da mecânica envolvendo o skate, mas a grande graça do jogo original estava na ironia da trama, sem a menor preocupação em agradar entusiastas do gênero de ação. A sequência tende a agradar os fãs, mas não necessariamente ampliar o público. Manter bons elementos como a trilha eletrônica de Tobacco e o elenco variado de dubladores das armas é positivo, mas ampliar o escopo das tarefas paralelas só empalideceu o produto final, cansando até mesmo os fãs mais dedicados.
“High on Life 2” está disponível para PCs, Playstation 5, XBOX Series S e X e, em breve, para Nintendo Switch 2.
Nota 6.
Confira o trailer do jogo “High on Life 2”:
Ouça o episódio analisando o jogo “High on Life 2”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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