O livro de estreia da escritora mineira Carla Madeira tem nada mais nada menos que prefácio do escritor moçambicano Mia Couto. O romancista e poeta descreve o texto da obra como “os rios feitos de água, sem obra, inventando, a cada momento, as suas próprias margens”.
“Tudo é rio” é um romance que apresenta um pouco de tudo, mas que fala muito sobre particularidades próprias do ser humano. Com uma execução fluente, apesar de alguns aspectos exagerados que lembram um realismo fantástico, é uma leitura importante e que abre uma boa prosa com nosso interior e exterior. Ele toca, emociona, choca, faz pensar.
Mal temos tempo de recuperar o fôlego, outro fato já aconteceu, assim como na vida. Independente da dor ou da importância do que nos acontece, a vida não para, ela segue seu fluxo e cabe a nós nos recuperarmos enquanto seguimos em frente.
“A vida dá um jeito de manter a gente vivo mesmo quando a gente morre de dor”.
A obra foi lançada em 2014 pela Editora Quixote, mas atingiu um grande sucesso, ficando na lista de livros mais vendidos da PublishNews e da Amazon, no seu relançamento em 2021 pela Record.
Com uma escrita intensa, Carla de cara nos prende à história de seus protagonistas Venâncio, Dalva e Lucy. E nos conta a trágica, e, por que não, também feliz, história que envolve um triângulo amoroso. E nós, leitores, vamos compreendendo gradualmente como tudo no livro, apesar de ser surpreendente, parece tão possível de acontecer na realidade.
Como essa história evolui e acaba, deixa para o leitor muitas questões em aberto. Isso porque nem todas as decisões e atitudes dos personagens são esclarecidas por completo, assim como acontece na realidade. Quantas vezes, não sabemos o porquê, mas sentimos, vivemos, seguimos em determinada direção movidos por certezas que não conseguimos pôr em palavras. E creio que ser tão verossímil é a beleza desse livro arrebatador.
A autora humaniza comportamentos questionáveis, brutais, sem maniqueísmos, para mostrar que compreendemos que às vezes só o que podemos. E, como um rio — querendo ou não — vamos continuar fluindo.
Recomendo muito essa leitura, não só por a história ser incrível, mas também pelas diversas reflexões que ela desperta. Através da vivência dos personagens, conseguimos pôr em questão temas como amor, fé, perdão, confiança, coragem. Pela escrita franca e realista da Carla, que faz acabar o livro numa sentada.
Sinopse
Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso.
Na orelha do livro, Martha Medeiros escreve: Tudo é rio é uma obra-prima, e não há exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa. Na primeira leitura, essa entrega mais lenta é quase impossível, pois a correnteza dos acontecimentos nos leva até a última página sem nos dar chance para respirar. É preciso manter-se à tona ou a gente se afoga.
A metáfora do rio se revela por meio da narrativa que flui ora intensa, ora mais branda de forma ininterrupta, mas também por meio do suor, da saliva, do sangue, das lágrimas, do sêmen, e Carla faz isso sem ser apelativa, sem sentimentalismo barato, com a habilidade que só os melhores escritores possuem.
Theresa Hilcar – jornalista, escritora e membro da academia sul-mato-grossense de letras
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