Por Alexandre Gonzaga
Estamos a poucos dias do maior espetáculo da Terra, o Carnaval. Essa celebração, de origem pagã, mantém uma relação profunda com a história, ao mesmo tempo em que diverte e celebra a vida. É justamente por meio da arte que o Carnaval exerce esse papel de ousar, de contar, recontar e reviver o passado, sem abrir mão da esperança no futuro.
Essa dimensão cultural da festa também dialoga diretamente com a latinidade, de New Orleans, nos Estados Unidos, ao Uruguai. Trata-se de um elo que conecta ritmos, corpos e identidades e que vem sendo reafirmado, com força, pelo rapper porto-riquenho Bad Bunny, ao destacar o que é ser latino, o que é ter ginga e celebrar o calypso caribenho, a cumbia colombiana, o merengue da República Dominicana, o Mardi Gras de New Orleans, o Candombe e a Murga, no Uruguai, o frevo e o maracatu de Pernambuco e, especialmente, o nosso samba.
Esse discurso de valorização da cultura latina ganhou projeção internacional no último domingo, 8 de fevereiro, quando o cantor foi a principal atração do show do intervalo da final da NFL, a liga de futebol americano, no Levi’s Stadium, em São Francisco, na Califórnia. A apresentação reuniu referências à cultura latina e também críticas a políticas que insistem em discriminar latinos, negros e povos indígenas.
No Brasil, essa mesma lógica de afirmação cultural se expressa de maneira singular. Mas, voltando à nossa festa, o que representa o Carnaval no país? Trata-se de uma manifestação marcada por uma imensa diversidade de ritmos, cores e linguagens estéticas. Marchinhas, samba, frevo, axé, maracatu e tantos outros estilos ajudam a construir uma celebração que ocupa as ruas, os desfiles das escolas de samba, os blocos e os trios elétricos, reunindo multidões e atraindo visitantes de várias partes do mundo. Esse mosaico de expressões musicais e culturais é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, como patrimônio cultural imaterial.
Ao longo de sua história, o Carnaval e as escolas de samba se consolidaram como importantes territórios de preservação cultural e de expressão política, funcionando como espaços de encontro, convivência e fortalecimento das identidades coletivas.
A exemplo dos clubes negros, dos terreiros e dos grupos de capoeira, a arte popular exerce um papel central na formação de vínculos sociais e na vida comunitária. No caso das escolas de samba, esses espaços se afirmam como territórios de cuidado, afeto, valorização da vida e fortalecimento da dimensão humana.
É também nesse contexto que o Carnaval se afirma como atividade social, cultural e econômica nas cidades. Para o presidente da Lienca (Liga das Entidades Carnavalescas de Campo Grande), Alan Catharinelli, a festa vai muito além do entretenimento e representa um vínculo afetivo, cultural e econômico com a cidade.
“Bom, o Carnaval, para mim, é um grande amor. A gente se diverte, a gente vislumbra os enredos, as fantasias e as alegorias das escolas de samba, que levam para a passarela, todos os anos, alegria, festividade, brilho, luxo e glamour. Isso é muito bonito, porque é um trabalho feito ao longo de todo o ano, junto com a comunidade, e que contribui para aquecer a economia da nossa cidade, especialmente nesse período festivo. O Carnaval é isso. Estamos preparando um grande desfile para a população, com muita segurança, responsabilidade e, claro, com muita alegria”, descreve o presidente da Lienca.
Alan Catharinelli destaca que Campo Grande é a única capital do Centro-Oeste brasileiro que realiza desfile de escolas de samba e avalia de forma positiva a consolidação da festa na cidade.
“Eu vejo isso de forma muito positiva, porque o Carnaval em Campo Grande, antes de tudo, já é uma grande tradição. O desfile vem se consolidando a cada ano, e o apoio que nós temos da Prefeitura e do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura, é essencial para que possamos organizar o evento e para que as escolas apresentem seus belíssimos espetáculos, por meio das fantasias, das alegorias e dos enredos que serão levados para a avenida.”
Alan também explica como será o Carnaval de 2026 na Cidade Morena e relembra como nasceu a festa na Capital. “Nós temos sete escolas de samba que desfilam em dois dias de apresentações, nos dias 16 e 17 de fevereiro.”
Segundo ele, o desfile das escolas de samba em Campo Grande teve início ainda na década de 1960 e está diretamente ligado à trajetória de um dos pioneiros do movimento carnavalesco local. “O Carnaval de Campo Grande, o desfile das escolas de samba, surgiu na década de 60, quando o Gregório Corrêa, o Goinha, foi para o Rio de Janeiro e, como amante do Carnaval, trouxe para cá a ideia de formar uma escola de samba.”
A partir dessa iniciativa, nasceu a primeira agremiação da Capital e o embrião da estrutura que, mais tarde, daria forma ao desfile oficial. “Ele fundou a primeira escola de samba de Campo
Grande, que se chamava Acadêmicos do Samba. Essa escola já não existe há bastante tempo.”
Com apenas uma agremiação em atividade, foi necessário criar novas escolas para que o desfile ganhasse dinâmica e competitividade. “Como só existia essa escola, foi fundada, no início da Vila Carvalho, outra agremiação, justamente para que uma pudesse competir com a outra”, conta o dirigente da Lienca.
Ao longo dos anos, o movimento se expandiu e outras escolas passaram a integrar o Carnaval campo-grandense, consolidando o formato que permanece até hoje. “Com o tempo, foram fundadas outras escolas de samba, como Igrejinha, Catedrático do Samba, Cruzeiro de Cinderela e outras que já não estão mais em atividade.”
Segundo Alan, algumas dessas agremiações encerraram suas atividades, como é tradicionalmente dito no meio carnavalesco. “Algumas enrolaram o pavilhão, como a gente fala no Carnaval, ou seja, encerraram oficialmente suas atividades.”
Os saudosos bailes de clube
Alan Catharinelli explica que os tradicionais bailes de clube tiveram papel decisivo na formação e no fortalecimento do Carnaval em Campo Grande, especialmente antes da consolidação dos desfiles das escolas de samba. “Isso foi essencial, porque, muitos anos atrás, o que era forte em Campo Grande eram os bailes. Os clubes tradicionais tinham um papel muito importante.”
Segundo ele, espaços sociais e recreativos da cidade foram responsáveis por manter viva a cultura carnavalesca e por estimular a participação popular.
“Nós tínhamos bailes no Clube Libanês, no Rádio Clube, que ainda existe, e em outros clubes, como o União, que realizavam as matinês, os bailes de Carnaval e organizavam seus blocos.”
Alan lembra que esses ambientes também eram marcados pela participação das famílias e pela convivência entre diferentes gerações. “Eu falo isso porque tenho minha mãe e meu tio como referência. Eles sempre foram carnavalescos, sempre gostaram muito de Carnaval.”
De acordo com o presidente da Lienca, era comum que grupos de amigos se organizassem dentro dos próprios clubes para desfilar e brincar durante o período festivo. “Eles montavam os blocos deles no Clube Libanês e no Rádio Clube e concorriam entre si com outros grupos de blocos. Mas iam, principalmente, para se divertir mesmo.”
Ele ressalta que a dinâmica dos blocos era marcada pela informalidade e pela convivência entre amigos. “Era um grupo de amigos que se vestia igual para poder curtir o Carnaval”, descreve.
Ao recordar aquele período, Alan também menciona costumes da época que hoje já não fazem parte da festa. “Naquela época, tinha muito o lança-perfume, que era permitido e depois acabou sendo proibido. Era a maneira que eles encontravam para extravasar no Carnaval.”
O retorno da folia às ruas
Alan Catharinelli destaca que, paralelamente ao fortalecimento das escolas de samba, os blocos de rua também ganharam protagonismo no Carnaval de Campo Grande.
“Os blocos de rua se consolidaram muito. Hoje, aqui em Campo Grande, nós temos dois grandes blocos tradicionais, que eu considero os principais do nosso estado: o Cordão Valú, da Silvana Valú, e o Capivara Blasê.”
Segundo o presidente da Lienca, essas agremiações se tornaram pontos de grande concentração popular durante a festa.
“São blocos que enchem a Esplanada, com toda a população indo para curtir, para aproveitar o samba e tudo aquilo que um bloco proporciona para os foliões nesse período.”
Ele ressalta que, nos últimos anos, a participação do público tem aumentado de forma expressiva.
Para Alan, esse crescimento exige planejamento e articulação entre diferentes esferas do poder público. “Isso requer muita organização e muito envolvimento do poder público, do Governo e da Prefeitura”, pondera o presidente.
A preocupação com a segurança, segundo ele, é central na estrutura do Carnaval de rua. “Por conta, inclusive, da questão da segurança, que precisa ser primordial nesse período de Carnaval.”
Ao falar sobre os desafios e as oportunidades para o futuro do Carnaval de Campo Grande, Catharinelli aponta a necessidade de um equipamento cultural permanente como principal demanda do movimento carnavalesco local.
“O nosso grande desafio hoje é tirar do papel o sonho do Sambódromo. Ter um equipamento cultural é muito necessário para que as escolas de samba possam realizar os desfiles com mais tranquilidade e com toda a estrutura adequada.”
Segundo ele, atualmente a montagem da infraestrutura depende exclusivamente do poder público, o que limita a organização e a continuidade das atividades ao longo do ano. “Hoje, toda a estrutura dos desfiles é fornecida pela Prefeitura e pelo Governo do Estado. Se nós já tivéssemos uma estrutura fixa, como um Sambódromo, ou até mesmo um centro cultural de múltiplo uso, isso seria muito importante.”
Alan ressalta que um espaço permanente também ampliaria o alcance cultural do Carnaval, ao permitir que outras manifestações artísticas utilizem o mesmo local. “Seria muito bacana que esse espaço, além de receber o desfile, pudesse ser usado por outras manifestações culturais.”
As paixões
Ao tratar de suas paixões e da própria trajetória no Carnaval, o presidente Catharinelli relembra como começou sua ligação com as escolas de samba de Campo Grande ainda na infância.
“Em Campo Grande, eu já tenho uma história no Carnaval. Eu iniciei minha trajetória na escola de samba Unidos do Cruzeiro, do saudoso e querido Picolé. Meu tio era compositor e intérprete da escola e me levou lá pela primeira vez quando eu ainda era criança.”
Segundo ele, o envolvimento com a agremiação marcou definitivamente sua adolescência.
“Eu me apaixonei. Eu era adolescente, tinha em torno de 12, 13 anos, e a família Guedes, que é fundadora da escola, me acolheu naquele período.”
Alan conta que permaneceu por muitos anos na escola antes de seguir novos caminhos dentro do Carnaval campo-grandense. “Participei da escola por muitos anos e, depois de sair, fui para a Deixa Falar.”
A criação da nova agremiação representa, para ele, um dos momentos mais marcantes da sua trajetória.
“Eu, o Fabian, que hoje é o presidente da escola, o Salvador Dodero e um grupo de amigos, fundamos a “Deixa Falar “. Foi ali que eu, de fato, dei meu nome e meu sangue na fundação da escola. Por isso, tenho um carinho imenso por ela.”
Atualmente, no entanto, ele ressalta que sua função institucional exige isenção em relação às escolas da Capital. “Hoje eu defendo a bandeira de todas as escolas de samba de Campo Grande. Eu não posso ter partido por nenhuma, até porque nós realizamos todo um processo de trabalho e de organização, inclusive dos jurados, de forma muito transparente com as escolas.”
Na avaliação do dirigente, a postura de neutralidade é fundamental para preservar a credibilidade do Carnaval. “É um trabalho correto, para que a minha história pessoal não interfira no processo de avaliação.”
Mesmo mantendo essa posição institucional, ele reconhece o vínculo afetivo com a escola que ajudou a fundar. “Mas é, sim, a minha escola, aquela da qual eu sou fundador.”
Edições memoráveis e homenagem a Ney Matogrosso
Para o presidente da Lienca, Alan Catharinelli, o Carnaval de Campo Grande acumula edições memoráveis ao longo de sua história, mas a retomada após a pandemia de Covid-19 ocupa um lugar especial. Segundo ele, o retorno dos desfiles representou um momento de alívio coletivo, marcado pela euforia do público e pelo desejo generalizado de voltar a ocupar as ruas, brincar e celebrar, depois de um período prolongado de restrições e tristeza.
Na avaliação do dirigente, embora a interrupção das atividades tenha sido necessária naquele contexto, o impacto sobre o Carnaval foi significativo. Ainda assim, após um ano sem desfiles, a volta da festa permitiu não apenas recuperar o público, como também promover avanços na organização, no crescimento e no aperfeiçoamento do evento em Campo Grande.
Ao comentar o cenário nacional, Catharinelli destaca a força simbólica dos grandes desfiles do Rio de Janeiro e chama atenção, neste ano, para a homenagem da escola Imperatriz Leopoldinense a Ney Matogrosso, artista sul-mato-grossense natural de Bela Vista. A escola desfila no domingo (15) de Carnaval, como a segunda agremiação da noite. Para ele, valorizar artistas da própria terra que ganham projeção no principal palco do samba brasileiro também é uma forma de fortalecer a identidade cultural do Estado.
Ney será homenageado sob o enredo “Camaleônico”, destacando sua trajetória artística, política e performática.
Intercâmbio
O dirigente também ressalta uma iniciativa recente da Liga voltada à troca de experiências com outros centros do Carnaval. A Lienca e representantes das escolas de samba de Campo Grande participaram de um intercâmbio cultural em São Paulo, na sede da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), considerada a liga mais antiga do país, com 51 anos de fundação.
Nesse encontro, a comitiva sul-mato-grossense foi recebida pelo presidente da UESP, Alexandre Magno, o Nenê, e pelo presidente da Fenasamba, Kaxitu Ricardo Campos, que já esteve em Campo Grande em outras ocasiões para prestigiar os desfiles, além da diretoria da entidade paulista. A visita permitiu conhecer de perto a estrutura organizacional dos desfiles de bairro de São Paulo, que reúnem cerca de 70 agremiações filiadas.
De acordo com Catharinelli, o intercâmbio foi voltado principalmente à troca de conhecimentos sobre gestão, planejamento e operacionalização dos desfiles, bem como sobre a relação entre a liga e as escolas associadas. A experiência, segundo ele, amplia a capacidade da Lienca de aprimorar processos em Campo Grande, a partir de boas práticas observadas em São Paulo.
Para o dirigente, a proposta não é reproduzir modelos, mas compreender diferentes realidades e utilizar referências que possam contribuir para a qualificação do Carnaval campo-grandense, respeitando as características locais e a própria trajetória da festa na capital. Querido público, preparem-se: o maior espetáculo da Terra vai começar e acontece no Brasil.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
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