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8 de março: da luta histórica por direitos à urgência permanente de empatia, respeito e igualdade

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Por Alexandre Gonzaga

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, permanece como uma data fundamental de reflexão, não apenas sobre a igualdade de gênero, mas, sobretudo, sobre a necessidade contínua de fortalecer uma cultura de empatia, respeito e valorização feminina em todos os espaços da sociedade. Reconhecida oficialmente pela Organização das Nações Unidas a partir da década de 1970, a data consolidou-se como um marco global de mobilização e conscientização.

Mais do que uma homenagem simbólica, o 8 de março convida a sociedade, governos, empresas e cidadãos a revisarem práticas, discursos e estruturas que ainda reproduzem desigualdades, reafirmando o compromisso coletivo com ambientes mais justos, seguros e inclusivos.

A origem da data está diretamente ligada aos movimentos trabalhistas e feministas do final do século 19 e do início do século 20, quando mulheres passaram a se organizar para reivindicar melhores condições de trabalho, direito ao voto e igualdade de oportunidades.

Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 1908, quando cerca de 15 mil trabalhadoras marcharam pelas ruas de Nova York, nos Estados Unidos, reivindicando a redução da jornada de trabalho, melhores salários e o direito ao voto.

Em 1910, durante a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, a ativista alemã Clara Zetkin, uma das principais vozes do feminismo da época, propôs a criação de um dia internacional para dar visibilidade à luta das mulheres por direitos. A proposta foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países, embora a data ainda não estivesse definida.

O movimento ganhou ainda mais força em 1917, quando trabalhadoras russas organizaram uma greve histórica em 8 de março, protestando contra a fome, a Primeira Guerra Mundial e o regime czarista. O episódio ficou conhecido como a Marcha das Mulheres de Petrogrado e é apontado como um dos marcos simbólicos do protagonismo feminino no processo que culminaria na Revolução Russa.

Décadas depois, a data foi oficialmente reconhecida pela ONU, em 1975, quando o ano foi declarado como o Ano Internacional da Mulher. Desde então, o 8 de março consolidou-se como um marco global de reflexão sobre os direitos das mulheres, ao mesmo tempo em que celebra conquistas e reforça a necessidade permanente de enfrentamento das desigualdades de gênero.

Embora avanços importantes tenham sido alcançados ao longo das últimas décadas, a luta por igualdade de gênero continua sendo um desafio global. Mulheres ainda enfrentam desigualdade salarial, barreiras no acesso a cargos de liderança e oportunidades profissionais e, de forma especialmente grave, seguem compondo estatísticas alarmantes de violência de gênero.

No Brasil, a trajetória de luta das mulheres por direitos também é marcada por exclusões históricas e pela gradual ocupação de espaços na vida pública. Durante grande parte da história, as mulheres foram afastadas da política, do mercado de trabalho e do acesso pleno à educação formal, sendo socialmente restringidas ao papel de donas de casa e cuidadoras.

Um dos primeiros e mais relevantes marcos dessa caminhada ocorreu em 1932, quando as mulheres conquistaram o direito ao voto. A medida representou uma vitória histórica e abriu caminho para a participação feminina na construção da vida política nacional.

Uma das transformações mais visíveis da sociedade contemporânea é a crescente presença feminina em profissões historicamente associadas ao universo masculino. Mulheres têm ocupado, cada vez mais, funções como motoristas profissionais, integrantes das forças armadas e da segurança pública, além de se destacarem no esporte de alto rendimento e em diversas outras áreas antes restritas. Esse movimento reflete uma mudança cultural importante ao romper estereótipos de gênero e ampliar as possibilidades de atuação feminina na vida pública e profissional.

Apesar dos avanços, a desigualdade ainda persiste de forma sutil e, muitas vezes, estrutural. Em diferentes setores, o reconhecimento, os cargos de liderança e o prestígio continuam concentrados majoritariamente nas mãos dos homens, revelando que a ampliação de espaços não significa necessariamente igualdade plena de oportunidades.

Um exemplo ilustrativo está na própria cozinha. Durante muito tempo, o espaço doméstico foi socialmente associado à figura feminina. No entanto, quando se observa o mercado profissional da gastronomia, ainda são relativamente raras as mulheres que alcançam posições de destaque como chefs ou que comandam restaurantes de alta gastronomia. O contraste evidencia que, mesmo em atividades culturalmente vinculadas às mulheres, o reconhecimento público e a liderança continuam, em grande parte, sob domínio masculino.

Nesse cenário, trajetórias como a da economista e cozinheira autodidata Magda Moraes revelam como a persistência e a valorização da cultura regional também  podem abrir caminhos. Ligada às raízes sul-mato-grossenses, desde 1996, ela sustenta o sonho e a defesa da cozinha brasileira como expressão de identidade, memória e cultura.

Magda desenvolve uma cozinha autoral marcada por memórias afetivas, ingredientes do Cerrado e do Pantanal e sabores que remetem ao fundo das panelas, às pimentas de cheiro, frutas, melaços e carnes soleadas.

“Minha cozinha tem memória, tem história. Cada receita carrega um pouco das minhas origens  e aprendizado com as pessoas que fizeram parte desse caminho”, afirma Magda.

Pesquisadora da cultura alimentar, ela ultrapassou os limites da cozinha ao desenvolver o projeto “Bocaiuva, palmeira da paz”, responsável por apresentar o fruto típico do Cerrado ao mundo durante o Terra Madre, o maior encontro internacional de cozinheiros, realizado em Turim, na Itália. A iniciativa também levou a bocaiúva ao Sapicuá para ser catalogada na Arca do Gosto, reforçando a importância do ingrediente para a biodiversidade e a gastronomia brasileira.

“Cozinhar também é pesquisar e preservar” Quando levamos a bocaiúva para o Terra Madre, mostramos que o Pantanal e o Cerrado também têm sabores capazes de dialogar com o mundo”, destaca.

Magda Moraes participou ainda de obras como Comida, Mulheres e Memórias Terena, publicado pela Editora UFMS, e Cozinha Pantaneira – Comitiva de Sabores, de Paulo Machado, além do livro 67 Receitas com Mel de Abelhas Nativas, do Instituto ATÁ. Em 2014, recebeu a estatueta do Prêmio Dolmã da Cozinha Brasileira e, em 2016, foi reconhecida como Embaixatriz da Cozinha Sul-Mato-Grossense.

Após três décadas a frente do restaurante e consolidando uma trajetória dedicada à valorização da culinária regional, encerrou as atividades em agosto de 2025 para iniciar uma nova fase profissional. Atualmente, dedica-se a aulas, consultorias, palestras e à criação de produtos autorais, entre eles a marca Pantanal Spices, com o Tempero Pantaneiro da Chef — uma receita de família que traduz, em aromas e sabores, a identidade de sua cozinha. Também lançou o e-book Desvendando a Cozinha, disponível na plataforma Hotmart.

“Encerrar a operação do  restaurante  foi fechamento de um ciclo, para o início de outro. Hoje continuo compartilhando conhecimento, pesquisando e mostrando que a cozinha brasileira, especialmente a do nosso Estado, tem muito a dizer ao mundo”, conclui.

No mês dedicado às mulheres, o Brasil, por meio das Forças Armadas do Brasil e do Ministério da Defesa, inaugura também mais um novo capítulo em sua história. Pela primeira vez, mulheres passam a ingressar de forma conjunta e voluntária nas Forças Armadas, por meio do Serviço Militar Inicial Feminino (Smif).

Após o processo de recrutamento, a Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira abrirão vagas para cerca de 1.400 mulheres, que irão prestar o serviço militar em 13 estados, inclusive em Mato Grosso do Sul, além do Distrito Federal.

Na distribuição por Força, a Força Naval irá incorporar 157 jovens. Na Força Terrestre, o contingente será de 1.010 mulheres. Já na Força Aérea, 300 jovens passarão a integrar os quadros militares. As incorporadas serão distribuídas em 51 municípios brasileiros.

Durante o período de serviço, as militares receberão salário de acordo com a graduação, além de férias, assistência médico-hospitalar, auxílios previstos em lei, como transporte, natalidade, maternidade e pré-escolar, licenças e contagem de tempo de serviço para fins de aposentadoria. O serviço militar terá duração inicial de 12 meses, podendo ser prorrogado por até oito anos, desde que haja vagas, interesse da militar em permanecer nas fileiras e aprovação da respectiva Força.

Criado pelo Ministério da Defesa em 2024, o Smif permite que mulheres, ao completarem 18 anos, realizem, de forma voluntária, o alistamento no serviço militar inicial, com os mesmos direitos e deveres atribuídos aos homens. Ainda em 2026, está prevista uma segunda incorporação, que deverá ocorrer entre os dias 2 e 6 de agosto.

Trata-se, portanto, de uma quebra de paradigma em uma atividade historicamente associada a ambientes hostis e de elevado risco, que passa a incorporar, de forma mais estruturada, a presença feminina em um dos campos mais sensíveis da atuação do Estado.

Mais do que lembrar conquistas históricas, a data provoca uma reflexão contemporânea e necessária sobre onde as mulheres desejam estar e, sobretudo, sobre se a sociedade, as instituições e o mercado estão preparados para garantir condições reais de escolha.

O Dia Internacional da Mulher reforça que romper barreiras não significa apenas abrir portas em espaços tradicionalmente masculinos, mas assegurar que cada mulher possa construir sua trajetória com liberdade, segurança, reconhecimento e oportunidades, em qualquer área que decida ocupar.

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

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