O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema revisita “McQuade, o Lobo Solitário”, filme dirigido por Steve Carver, lançado em 1983. A trama acompanha o ranger texano McQuade, um sujeito que enfrenta o crime com as próprias mãos, isso quando não conta com uma arma para facilitar o serviço. McQuade mora no meio do nada, com um lobo e sua Dodge Ramcharger, modelo 1983, modificada com tração extra e um turbo. Além disso tudo, McQuade é um mariner reformado.
Seu antagonista é Rawley Wilkes, um empresário especialista em artes marciais que, por trás das aparências, é um traficante de armas. Eles pretendem lutar pelo amor de Lola Richardson, mas no fundo estão mais preocupados em superar um ao outro. Ao longo da trama, Wilkes mata o lobo de McQuade, seu amigo Dakota e, apenas para não forçar ainda mais a inimizade, vê um de seus muitos capangas descartáveis matar Lola Richardson.
Analisar “McQuade, o Lobo Solitário” em 2026 implica em estabelecer uma generosa suspensão de descrença. Nenhum capanga no filme é capaz de mirar seus disparos para além do chão onde pisa o protagonista que, ainda que tente fazer parecer que pequenos desvios são o suficiente para desviar de uma saraivada de balas, nunca vai errar seus tiros e vai eliminar todos os bandidos sempre que apertar o gatilho. Os capangas só acertam o alvo que a trama permite. Um elemento interessante do longa é contar com a trilha de Francesco De Masi, claramente inspirado em Ennio Morricone nas trilhas dos westerns de Sergio Leone.
Falar do roteiro de B.J. Nelson e H. Kaye Dyal que ainda contou com uma suposta colaboração não creditada de John Milius implica em aceitar que a proposta é apresentar um herói infalível, bronco e brutal. A mistura de referências do gênero policial com o western e os filmes de luta tornam tudo minimamente interessante e acabam moldando o que viriam a se tornar os infames “Chuck Norris facts”, os memes que até hoje circulam em torno do ator. Neste filme, Chuck Norris sequer aparenta tomar banho ou arrumar a casa, ele não tem tempo para isso. Não há maior interesse no desenvolvimento dos personagens para além da inevitável luta no desfecho.
No quesito marcial, basta dizer que quando questionado sobre a habilidade do ator David Carradine em artes marciais, Chuck Norris afirmou: “David Carradine é tão bom artista marcial quanto eu sou ator”. Essa sentença honesta diz muito sobre o nível das atuações, mas aqui ainda fica um destaque para a canastrice de David Carradine como vilão. Em várias cenas de luta, Carradine emula trejeitos de Bruce Lee sem a menor cerimônia – ele que foi aluno de Lee e acabou eternizado como Bill em “Kill Bill” de Quentin Tarantino. Vale ressaltar que o próprio filme não parece levar o personagem de Carradine a sério quando o coloca dirigindo um Rolls Royce cuja placa diz “Karate”. Esse tipo de elemento é o cúmulo do reforço imagético em um roteiro.
O interesse romântico dos antagonistas, Lola Richardson, fica por conta de Barbara Carrera que pouco tem a acrescentar ao filme. O mesmo pode ser dito de L.Q. Jones como o ranger veterano Dakota e o policial Kayo interpretado por Robert Beltran como desculpa para colocar um ator latino em um papel relevante. Chega a ser constrangedor como o jovem oficial presta o tempo todo reverência ao protagonista, como se ele mesmo fosse incapaz perto do grande Chuck Norris.
Os anos setenta foram marcados por astros da ação como Bruce Lee e Jim Kelly: o primeiro, ícone asiático dos filmes de Kung Fu, o outro, representante dos lutadores negros nos filmes de blaxploitation, ambos com grande reputação como artistas marciais. A década seguinte ficou marcada pela transição desse protagonismo diverso para atores brancos. Foi a época dos ninjas americanos, dos exércitos de um homem só contra o comunismo e da luta contra o crime e às drogas, isso quando não era tudo ao mesmo tempo. O herói tinha que ser durão, infalível e estadunidense. Era um movimento contrário ao cinema que questionava o Vietnã e outros conflitos que os Estados Unidos provocavam.
Por mais que “McQuade, o Lobo Solitário” faça parte dessa geração de filmes, é inegável que a galhofa acabou dando outra dimensão a esse tipo de produção, tanto que os memes em torno de Chuck Norris ainda estão por aí. Para além do registro reacionário do seu tempo, é um cinema que demarcou o soft power que Hollywood estabeleceu pelo mundo e, de certa forma, entreteve toda uma geração de fãs. “McQuade, o Lobo Solitário” e outros filmes como “Invasão USA” e a série “Braddock” estão disponíveis no serviço de streaming Oldflix.
Nota: 7.
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio revisitando “McQuade, O Lobo Solitário”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
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