O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O Assunto é Cinema analisa “Velhos Bandidos”, filme dirigido por Cláudio Torres. Muitas vezes, a melhor maneira de encerrar um ciclo de vitórias é rindo. Nada mais triunfante do que uma boa gargalhada ao final de uma carreira repleta de glórias, sucessos e reconhecimentos. Assim, Fernanda Montenegro dança sua última valsa aos 96 anos de idade: com uma comédia. O novo filme se chama “Velhos Bandidos”, em cartaz nos cinemas. Ele conta a história de Marta e Rodolfo, idosos que flagram um casal de ladrões tentando arrombar o cofre da casa. Acreditando que os velhinhos seriam facilmente intimidados, acabam tendo uma surpresa e são rendidos pelos aposentados. Só que em vez de entregá-los à polícia, Marta e Rodolfo tem outro plano: usar o casal para assaltar um banco. Mas há um problema chamado Oswaldo Aranha, o investigador encarregado de descobrir a tramóia toda. Desse modo, o plano mirabolante é posto em prática com muita confusão e diversão.
Dirigido por Claudio Torres, filho de Fernanda Montenegro, fica muito claro que a intenção é homenagear a lendária atriz e o icônico ator Ary Fontoura por todas as contribuições à dramaturgia brasileira. O roteiro pode parecer simplório e dá a impressão de que desperdiça o talento desses gigantes da arte brasileira. E não deixa de ser uma história carregada de clichês, soluções bobas e piadas infames. Mas é nisso que reside a graça de “Velhos Bandidos”, em não se levar a sério em nenhum momento, nem mesmo no drama do investigador cuja filha está internada à espera de um medicamento caríssimo. Quando a motivação do policial é revelada, descobre-se que ele não mede esforços para obter o dinheiro para o tratamento da filha. Daí, é fácil deduzir até onde um pai pode ir. Então, chegamos à Marta e Rodolfo, que, de vítimas, tornam-se alvos e depois, solução para o drama do investigador. Esse percurso narrativo é bem desenvolvido, sem desvalorizar a situação séria, mas sem pesar a mão da tragédia. O resultado é uma trama bem amarrada nesse aspecto, que se desvela próximo do final.
Em termos técnicos, “Velhos Bandidos” é conservador nos recursos da comédia, justamente para permitir o brilho de Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, assim como o restante do elenco. Elenco que conta as boas atuações de Bruna Marquezine e Vladimir Brichta, vivendo o desastrado casal de ladrões Sid e Nancy. Embora fique nítida a falta de traquejo cômico em ambos, especialmente em Bruna, o roteiro os deixa confortáveis, ajudados pelo espírito despretensioso que norteia a produção. Ao mesmo tempo, é gratificante rever outros nonagenários em forma como Tony Tornado e Natalia Thimberg, o octogenário Reginaldo Faria e as septuagenárias Vera Fisher e Teca Pereira. Mesmo que o tempo de tela seja breve para esses coadjuvantes de luxo, suas presenças em papéis hilários é maravilhoso.
Agora, vamos falar de Fernanda Montenegro. Que “Velhos Bandidos” foi feito para ela, é cristalino. Mesmo assim, é impressionante como a atriz simplesmente arrasa em qualquer coisa que faça. É impossível se desprender da tela com sua Marta elegante, astuta e sarcástica, nuances que consegue modular com perfeição apenas com as mudanças no tom de voz. Mesmo numa obra sem tantas ambições, a genialidade de Fernanda Montenegro salta aos olhos e ouvidos. O mesmo pode ser dito sobre Ary Fontoura, com seu Rodolfo também classudo, porém, mais hesitante, já que a chefe da pequena quadrilha é sua amada Marta. E o mais tocante é que um filme com um ritmo tão lépido, fruto de um ótimo trabalho de montagem, acolheu o protagonismo de dois nonagenários com tanta consistência.
“Velhos Bandidos” é um filme divertido, saboroso como passatempo e soa como uma merecida homenagem ao talento superlativo de Fernanda Montenegro. Por alguns breves momentos, deu para matar a saudade da Charlô da novela “Guerra dos Sexos” e outras personagens espirituosas que desfilaram pela carreira desse símbolo da cultura nacional. O que o torna tão especial nem é tanto a trama até certo ponto tola, mas o encaixe de um elenco icônico na gramática da comédia de ação. A impressão é que o filme não feito apenas para nos nos divertir, mas para que Fernanda Montenegro e os outros anciãos do elenco também sintam o vigor da arte de interpretar sem compromissos com a profundidade dramática. E sobre Fernanda Montenegro, o cinema brasileiro se despede da melhor forma: com boas risadas.
“Velhos Bandidos” está em cartaz nos cinemas.
Nota 7,5.
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio analisando “Velhos Bandidos”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
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