O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa a primeira temporada de “Pluribus”, série criada por Vince Gilligan. A trama acompanha Carol, uma escritora desiludida que se vê em um mundo tomado por uma consciência alienígena. Esse microorganismo assume o controle das pessoas que entra em contato, tomando suas memórias e experiências e fundindo tudo em um coletivo psíquico. Na prática, eles só querem o bem dos seres humanos, propondo uma coexistência pacífica e parasitária entre as espécies. Carol é aparentemente a única que não aceita a nova realidade.
Apesar de confrontar os assimilados pela consciência coletiva, Carol não corre risco algum perante eles, pelo contrário, eles querem entender o motivo dela não ter sido assimilada, mas sem forçar que ela faça parte do coletivo. Ela e outro pequeno grupo de pouco mais de dez pessoas pelo mundo não foram assimilados. Ainda assim, de todo o grupo, Carol é a única que não aceita pacificamente a convivência com o coletivo, enquanto os demais desfrutam de todo o suporte e paparicação dos assimilados. Para ela, essa tranquilidade não é natural, não faz sentido algum.
“Pluribus” poderia se passar por mais uma versão do clássico “Invasores de Corpos”, romance de Jack Finney publicado em 1955 com uma contundente crítica à paranoia macarthista da época, mascarada como literatura barata. O livro ganhou várias adaptações para as telas, sempre mostrando como as pessoas podiam facilmente ver o inimigo no outro, uma vez que a paranoia estivesse no ar. O interessante é que a série de Vince Gilligan vai além com uma profunda leitura sobre o contemporâneo e a coexistência com toda uma sorte de inteligências artificiais.
Ao longo dos nove episódios da primeira temporada, “Pluribus” desenvolve a insatisfação de sua protagonista sem nenhuma pressa, sem grandes invenções ou viradas. Nos momentos em que o espectador imagina que Carol está prestes a fazer uma grande ação, o roteiro subverte tudo mostrando que não era nada daquilo que ela estava imaginando, ou era, como muito bem retratado na ponta extravagante que o ator John Cena faz como ele próprio para explicar para Carol uma determinada situação que, aparentemente, seria assustadora, não fosse banal para eles.
No aspecto técnico, os fãs de Gilligan podem esperar a habitual sofisticação no enquadramento da câmera e o esmero com as cores em cada tomada. Desde “Breaking Bad”, as cores fazem parte da narrativa do criador, algo que já pode ser inclusive considerado um bom clichê. A estética funciona como complemento narrativo, extraindo belas tomadas dos cenários, principalmente quando as cenas se passam em Albuquerque, no Novo México, cenário de todos os trabalhos do produtor até aqui. A trilha de Dave Porter é discreta e conta mais com composições de outros artistas e canções reconhecidas que com música incidental. O tema principal instiga curiosidade e sugere que talvez algo mais matemático esteja relacionado com a abertura da série.
“Pluribus” fala de um mundo em que tudo que você quer está ali, ao seu alcance. Se você pedir algo, por mais exótico que seja, alguém vai providenciar. É simples, parece maravilhoso, mas como diz Manousos Oviedo, outro personagem com a mesma condição de Carol, “Nada neste planeta é de vocês. Nada. Vocês não podem me dar nada, porque tudo o que vocês têm é roubado”. Essa frase escancara a grande metáfora da nova série de Vince Gilligan: tudo que a inteligência artificial produz, pode ser lindo, prático e eficiente, mas tudo foi feito com base na cópia do que alguém se deu ao trabalho de fazer. De uma arte de Hayao Miyazaki a um traço de Walt Disney, a um rosto de uma celebridade, ao estilo de um autor clássico, tudo foi copiado.
Uma invasão alienígena conveniente para a maioria esmagadora das pessoas só ganha drama e alguma dose de tensão graças ao talento da atriz Rhea Seehorn como a protagonista Carol Sturka. Seu cinismo perante tudo que está acontecendo é natural, permitindo que ela leve a série sozinha em quase todos os episódios. Carlos Manuel Vesga como Manousos Oviedo entra no terço final da série como um possível aliado na inconformidade com a situação. O carisma do ator colombiano segura maravilhosamente bem a tensão, principalmente pela paranoia do personagem em não ter contato algum com os assimilados ou qualquer coisa produzida por eles.
“Pluribus” não é a série de ação ou o suspense que os fãs das produções anteriores de Vince Gilligan esperavam, tampouco uma ficção científica cheia de efeitos e viradas mirabolantes. A produção é sutil, repleta de leituras e reflexões sobre o contemporâneo como a boa ficção científica costuma ter. Agora é esperar o que o encontro entre os inconformados Carol e Manousos vai render e onde Gilligan pretende chegar com a série. E que venham logo os próximos episódios pois, assim como disse Stephen King sobre “Pluribus”, eu também não estou ficando mais novo! A primeira temporada está disponível no serviço de streaming Apple TV.
Nota 10.
Confira o trailer da série:
Ouça o episódio analisando “Pluribus”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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