O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Que a mitologia grega fornece farto material para adaptações épicas não é novidade. Basta observarmos a expectativa em torno da estreia de “A Odisseia” de Christopher Nolan, prevista para julho. Basta lembrarmos de obras como “Fúria de Titãs”, lançada em 1981. Ela narra a saga de Perseu, filho bastardo de Zeus com Dânae, esposa do rei Acrísio de Joppa, que a acusou de traição e jogou ela e o bebê recém-nascido ao mar. Criado numa ilha deserta, um Perseu já adulto volta à cidade de Joppa para cumprir o destino de se casar com a princesa Andrômeda, mas ela tem uma maldição. Para quebrá-la, Perseu deve vencer desafios mortais e o maior é derrotar o monstro marinho Kraken, mandado pelos deuses para destruir Joppa e devorar Andrômeda.
A direção é de Desmond Davis e o roteiro foi escrito por Beverly Cross, mas o nome mais evidente é de Ray Harryhausen, animador e criador de efeitos especiais. É sobre o trabalho dele que a estrutura de “Fúria de Titãs” se constrói, especialmente porque o roteiro não é exatamente um primor. Os diálogos obedecem a um padrão novelesco, beirando a pieguice, mesmo que o mito de Perseu seja uma tela quase em branco para se criar narrativas cinematográficas. Há momentos em que parece um episódio televisivo carregado de excessos dramáticos. Talvez a ideia fosse simplificar uma história milenar para plateias do início dos anos 1980, ávidas por diversão palatável sem profundidade ou sofisticação. Se o propósito tiver sido esse, o filme funciona. Afinal, mitologias são estruturas narrativas com forte valor cultural para um povo ou civilização. Muitas vezes, são abertas o suficiente para permitir modernizações e o cinema se traduz em uma grande possibilidade.
A direção de “Fúria de Titãs” até tenta salvar o roteiro esdrúxulo em diversos momentos. A organização do filme é conservadora, o que, para o intuito de proporcionar entretenimento e algum conhecimento inicial sobre o mito de Perseu, é suficiente. Desse modo, o enredo tem fluência, suas nuances são facilmente captáveis e a história se desenvolve com a coerência básica de uma novelinha épica. As atuações também funcionam razoavelmente, até porque exige pouco de atores e atrizes. E olha que o elenco tem nomes de peso como Laurence Olivier, Ursula Andrews, Claire Bloom e Maggie Smith, mas quem se destaca é Harry Hamlin, com seu Perseu exageradamente revestido de doses de heroísmo exaltado. De resto, toda essa turma de veteranos contribui com boa desenvoltura dentro dos limites impostos por seus papéis secundários. A trilha sonora de Laurence Rosenthal confere às cenas a atmosfera grandiloquente dos épicos da fase dourada do cinema estadunidense, com dinâmicos temas triunfais, sombrios e meigos. Nada que fuja do clichê musical do gênero.
Então, chegamos a Ray Harryhausen. Histórico idealizador de técnicas de efeitos especiais para cinema e TV, em “Fúria de Titãs” ele abusa do stop-motion, provavelmente pelo baixo orçamento colocado nas mãos da equipe. Numa era em que grandes produções como “Star Wars” e “Indiana Jones” já criavam espetáculos audiovisuais deslumbrantes e convincentes, o uso do stop-motion causa dois efeitos. Um deles é a nostalgia metalinguística de filmes precedentes como “King Kong” (1933), o que não deixa de ser divertido. O outro efeito, mesmo para a época do lançamento de “Fúria de Titãs”, é uma caricaturização tão grotesca que transforma o absurdo em parte do efeito lúdico. O Kraken, por exemplo, lembra os monstros engraçados do seriado japonês “Spectreman”, cuja produção é de cerca de 10 anos antes. Ainda assim, a expressividade de criaturas como Calibos, escorpiões gigantes e o cavalo Pégaso compensa um pouco. A Medusa consegue ser bem assustadora.
“Fúria de Titãs” é um filme razoável. É grotesco, se medirmos pela métrica visual dos atuais tempos de inteligência artificial no cinema, e é pitoresco até para o começo da década de 1980, mas ainda assim aceitável. Ele desenvolve a trama baseada no abundante manancial da mitologia grega para entregar uma obra que, no fim das contas, pode ser enquadrada como um épico romântico cafona e ingênuo. Mas o absurdo que o visual transparece acaba convertendo o filme em uma inofensiva memória afetiva, regada a criaturas que parecem de brinquedo.
Nota 6.
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio revisitando “Fúria de Titãs”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
Deixe um comentário