O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “It: Bem-vindos a Derry”, série desenvolvida por Andy Muschietti, Barbara Muschietti e Jason Fuchs, os mesmos responsáveis pela adaptação cinematográfica de “It”. A trama acompanha um grupo de crianças em 1962, em Derry, no Maine, formando o primeiro “Clube dos Perdedores” durante uma das manifestações da entidade conhecida como Pennywise, o palhaço. A prequela é feita com base em citações e referências do livro escrito por Stephen King e funciona como uma expansão do universo dos dois filmes que adaptam o romance, abraçando ainda conceitos de outras histórias do autor.
Quando “It: Bem-vindos a Derry” foi anunciada, uma das impressões que ficou no ar era a de que a HBO e a Warner queriam capitalizar em torno do sucesso da nova adaptação do romance e dos recordes de audiência de “Stranger Things” na Netflix. Entre os fãs de King, a pergunta era de onde sairia o material adaptado para a série, haja visto que, por mais que o romance traga muitas referências sobre o passado de Derry com Pennywise, praticamente nenhum capítulo se passa especificamente nessas épocas. Entre o hype, a incerteza e a desconfiança, a série estreou quebrando todos os recordes para uma produção da HBO até o momento.
A solução encontrada pelo casal Andy e Barbara Muschietti e o produtor Jason Fuchs para criar a narrativa da série foi abraçar o universo expandido de King de outros romances como “O Iluminado” ou até mesmo a ambientação de contos como “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank” ou “Conta Comigo”. Incorporar esses elementos e personagens e ainda expandir a mitologia em torno de Pennywise como a ameaça cósmica citada na saga “A Torre Negra” faz com que a série se transforme em um deleite para os leitores mais fanáticos de Stephen King.
O primeiro episódio define com competência o tom da série e estabelece que, por mais que os protagonistas sejam crianças entrando na adolescência, a produção é voltada para adultos. As primeiras vítimas de Pennywise parecem ser os protagonistas, algo que tira o chão de quem cria empatia pelos jovens logo no começo do episódio. Fica claro que os paralelos com “Stranger Things” ficam só na inspiração que a produção da Netflix teve em cima do romance de Stephen King e que a prequela visa o público adepto do terror.
Quando os reais protagonistas da série surgem, fica a impressão de que ninguém está seguro e que Derry claramente tem algo a ver com isso. A série estabelece ao longo dos episódios que a cidade é, na verdade, uma prisão para a entidade, inclusive com um grupo de guardiões que garante que Pennywise jamais cruze os limites de seu cárcere. Isso fica muito bem desenvolvido com a presença de outro personagem clássico de King, o iluminado Dick Hallorann, um jovem oficial da aeronáutica que participa de uma iniciativa do governo envolvendo a entidade e seus poderes. Hallorann é um dos protagonistas de outro clássico de King, “O Iluminado”. Sua presença na série reforça com competência a intenção dos produtores de validar a trama junto aos fãs.
Outro ponto forte da produção é estabelecer Pennywise e seu passado, apresentando ele como um homem comum, antes de se fundir com a entidade. Ele era um Pierrot desiludido, sem sua Colombina e com uma filha para criar. Todo o arco envolvendo seu passado revela como a criatura sempre foi ardilosa para conseguir realizar seus planos, instrumentalizando a figura de Pennywise e fazendo sua própria filha acreditar que ela é sua Colombina, quando na verdade ele só quer o caos e pouco se importa com a casca que ele passou a assumir.
A criatura se alimenta da segregação em Derry, sempre causando discórdia através de suas ilusões. Em um dos episódios finais, o massacre do clube de negros Black Spot acaba ganhando uma relevância ainda maior por mostrar como uma criatura que se alimenta do medo, ganha com questões como o racismo e a intolerância. No fim das contas, o Pierrot só se importa com o medo, o ciclo da criatura, ou a peça, só encerram quando ele está saciado, ou, metaforicamente, encontra sua Colombina. A representação da tragédia em torno do Black Spot é outro elemento extrapolado a partir do romance de King que agrada os fãs e traz peso dramático para a série.
Entre as atuações, vale destacar a presença do garoto Blake Cameron James como o jovem Will Hanion. O garoto é carismático e conduz naturalmente o grupo, protagonizando algumas das melhores cenas da série junto de Clara Stack como Lilly Bainbridge. A ele se juntam ainda Arian Cartaya como o simpático Rich Santos e Matilda Lawler como Marge, personagens que estão ali para fortalecer o vínculo do grupo que se forma ao longo dos episódios. Chris Chalk entrega um Hallorann bem menos caricato que o interpretado por Scatman Crothers em “O Iluminado” de Stanley Kubrick. Sua presença na série dá um sentido interessante para a birra de King para como o filme de Kubrick justamente por ter eliminado esse personagem em seu filme, algo que não acontece no romance. Bill Skarsgård entrega um Pennywise excepcional, indo além dos filmes ao retratar o personagem em seu passado, antes de se fundir com a criatura.
“It: Bem-vindos a Derry” agrada os adeptos do terror e os fãs de Stephen King na mesma medida. As extrapolações dos produtores em torno do universo criado pelo autor funcionam com naturalidade e deixam no público a vontade de conhecer mais das obras de King, algo que é sempre válido em adaptações literárias. Fica no ar a expectativa por uma segunda temporada, ainda não confirmada oficialmente, agora abordando o ciclo anterior de Pennywise em 1935. “It: Bem-vindos a Derry” está disponível na HBO Max.
Nota 9.
Confira o trailer da série:
Ouça o episódio analisando “It: Bem-vindos a Derry”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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