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O Assunto é Cinema – Analisando Criaturas Extraordinariamente Brilhantes

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

 

Envelhecer é visto de diversas formas. Privilégio pela experiência acumulada. Fardo pelo peso do corpo e da mente. Quando feridas de um passado traumático alcançam a pessoa, há uma tendência à solidão. Mas há também espaço para recomeços com todos os méritos que a vivência ao longo de anos proporciona. Isso vale para humanos. E por que não para um velho….polvo?

Está disponível na Netflix, o filme “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes”. Ele narra a história de Tova Sullivan, idosa que reluta em se aposentar e trabalha como faxineira de um parque aquático. Ela convive com Marcellus, octópode também ancião e seu “confidente”. Um dia, chega um forasteiro chamado Cameron, músico andarilho e órfão de mãe que busca respostas sobre o pai desconhecido, chega à cidade. Quando a minivan de Cameron quebra e o custo do conserto ultrapassa suas economias, ele é indicado para trabalhar no mesmo aquário de Tova. Então, os dois criam uma amizade baseada no compartilhamento de suas dores e na ajuda mútua para superá-las. Tudo sob o olhar sábio e perspicaz de Marcellus, que os observa do silêncio de seu tanque.

A direção é de Olivia Newman, que escreveu o roteiro ao lado de John Whittinton, baseados no romance de Shelby Van Pelt. O primeiro aspecto que chama a atenção é a exuberância da fotografia, especialmente nas tomadas subaquáticas. O esforço em entregar uma resolução refinada das imagens de Marcellus em seu habitat não-natural é recompensado com a identificação e simpatia imediata pelo velho polvo. Lembra os célebres documentários da Discovery. Quando as interações com humanos começam, as mudanças de ambiente dão a medida exata dos lugares onde cada personagem gera suas histórias. Isso é fundamental, pois a fábula alude à inteligência dos octópodes e a sensibilidade aguçada que desenvolvem. Porém, fora do rigor científico da Biologia, o personagem é a metáfora da sabedoria localizada nas profundezas da mente. Um lugar em nós mesmos.

Ainda sobre a estética, “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” se permite um visual constantemente arejado, desde as locações externas até espaços mais íntimos, como o interior da casa de Tova e o horário em que o aquário está fechado, apenas sob os cuidados da faxineira e depois de Cameron. Isso se encaixa perfeitamente com as atuações muito seguras de Sally Field, com sua Tova amargurada, mas com a potência de viver ainda latente, e Lewis Pullman com seu Cameron frágil e amável. É nas trocas entre os protagonistas que o enredo ganha uma força emocionante e nos atira em um oceano de meditações sobre traumas, passado e envelhecimento. Mas nos bem dosados momentos em que Marcellus participa, o filme revela encanto e eficácia como alegoria. A voz original de Alfred Molina deu ao polvo idoso um aconchegante ar de sapiência. O animal sabe das coisas.

Voltando ao roteiro, ele apresenta algumas saídas discutíveis, especialmente em mudanças bruscas na trama e deixa algumas poucas lacunas abertas. Por exemplo, as tentativas de Tova e Cameron de se envolverem respectivamente com o dono de mercado Ethan e a dona de uma loja de artigos de surf Avery. Como se trata de uma comédia dramática, misturada à mistério e fantasia funcionando como elementos metafóricos, caberia um arco melhor elaborado para esses personagens. Não que ambos tenham a obrigação de ficar com alguém, mas como o filme apresenta esse empenho dos protagonistas em se abrir ao amor caberia um capricho maior. Nada que comprometa tanto, porém, o longa expõe os encontros como inerentes ao processo de cicatrização das angústias crônicas de Tova e Cameron.

“Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” é um filme muito bom, leve, com momentos de diversão singela e de tensão equilibrada. Ele propõe reflexões oportunas sobre envelhecimento, solidão, traumas e o caminho árduo por redenção. A obra discorre sobre os poderes da amizade e da compaixão no processo de recuperação da potência vital, mesmo que isso leve anos, no caso de Tova. No entanto, o filme não apela à densidade soturna, mas a um desenvolvimento sem pressa, pretensões e pressões. A perspectiva de um animal associado à inteligência e facilidade de adaptação catalisa a mudança dos destinos de dois seres humanos vulnerabilizados. O próprio polvo procura viver seus últimos dias fugindo do tanque e buscando uma saída para o mar, seu verdadeiro lar. É como se ele declarasse com seu ato rebelde que não importa a idade. Nunca é tarde para transformações. Cheio de mensagens diluídas no enredo suave sem perder os instantes de profundidade, o filme planta sementes bem-vindas sobre como pensar o amanhã.

 

Nota: 8.5.

 

Confira o trailer de “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes”:

 

Ouça o episódio analisando “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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