O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema revisita “Taxi Driver”, filme dirigido por Martin Scorsese, com roteiro de Paul Schrader, lançado em 1976. A trama acompanha Travis Bickle, um veterano do Vietnã cujas noites de insônia o levam a procurar emprego como motorista de táxi. Aos poucos, as longas horas sem dormir começam a desenvolver nele uma paranoia que vai se tornando uma obsessão por uma espécie de redenção. Entre salvar a jovem Iris da perdição e se apaixonar por Betsy, Travis se perderá por um caminho de violência que, dentro de sua visão distorcida, acabará o purificando.
Paul Schrader escreveu o roteiro a partir de sua própria experiência ao viver em Nova York sozinho, em depressão e com uma crise de insônia que o levou a frequentar cinemas pornôs e sex shops nas madrugadas. Quando Martin Scorsese decidiu conduzir o projeto, ele concebeu “Taxi Driver” como a visão de um sonho, um contraponto esteticamente interessante para a visão de Schrader. A ideia do sonho de um insone torna o ritmo do filme cadenciado, com um ar onírico, lindamente conduzido pela marcha mesmerizante de Bernard Herrmann.
A escolha estética e o ritmo da direção de Scorsese fazem com que o narrador não seja nem um pouco confiável. Em um dado momento, fica em dúvida até mesmo o fato dele ser ou não um veterano de guerra, já que pode ser tudo parte do delírio psicótico do protagonista. A atuação de Robert De Niro como Travis Bickle é sutil e, ainda assim, obcecada. Ele próprio tirou licença para dirigir um táxi, passando semanas dirigindo enquanto se preparava para o papel. Essa experiência e o breve convívio com veteranos de guerra deram a ele todos os maneirismos para compor Bickle.
A jornada de purificação espiritual do santo obcecado é o grande tema do roteiro de Schrader que se vale da decadência de Nova York nos anos 1970 para criar um sujeito frustrado por nunca viver o prometido sonho americano. O espectador está diante de um grande incel, termo que na época sequer existia, mas hoje esconde toda uma sorte de homens frustrados com a realidade ao seu redor. Scorsese brinca com esse elemento em vários momentos do longa, provocando o protagonista apenas para mostrar o ridículo da sua situação em seguida, algo que fica escancarado na cena em que o próprio diretor interpreta um passageiro traído pela esposa em uma longa exposição sobre como ele pretende matar os dois, deixando Travis sem reação.
A jornada de Travis para salvar a jovem Iris interpretada por Jodie Foster passa pela purificação pela violência que só acontece após a tentativa frustrada de assassinar o candidato à presidência Palantine. O desfecho é visceral, explícito e estranhamente belo pela forma com que a câmera cadencia a sequência de eventos em uma combinação cheia de lirismo entre imagem e o jazz militarista composto por Herrmann. Dali em diante, Travis Bickle tem sua redenção, ainda que o destino do protagonista possa ser incerto. É possível que tudo que vem depois não passe de um delírio moribundo, algo que o roteiro de Schrader e a visão de Scorsese deixam em aberto. É difícil acreditar que Travis acaba feliz com a bela Betsy de Cybill Shepherd depois de tudo que aconteceu.
O lendário maestro Bernard Herrmann entregou para Scorsese um dos seus maiores trabalhos. Nos bastidores, Herrmann teria ignorado o convite do diretor para compor a trilha do filme. A insistência de Scorsese em convencer o veterano resultou numa composição inspirada que fundiu o sax suave do jazz a uma marcha militar constante, que sufocava com tambores o tom hipnotizante do saxofone sempre que Travis mergulhava em sua paranoia. A participação de Herrmann virou uma história tocante, já que o compositor faleceu pouco depois de entregar a última gravação da trilha, o que fez com que Scorsese dedicasse o longa em sua memória.
“Taxi Driver” é um filme que deixou sua marca na história do cinema e da cultura pop. A combinação dos talentos de Paul Schrader, Martin Scorsese, Robert De Niro e Bernard Herrmann entregou um filme que podia até ser classificado como neo noir na época de seu lançamento, mas que o tempo provou estar muito além de sua época. A frustração do norte-americano comum com o “sonho americano” virou tema recorrente das manchetes dos noticiários desde então, provando que o país sempre foi uma grande fábrica de homens frustrados.
“Taxi Driver” está disponível no serviço de streaming HBO Max.
Nota: 11.
Confira o trailer do filme “Taxi Driver” lançado em 1976:
Ouça o episódio revisitando “Taxi Driver”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
Foto: Divulgação.
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