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O Assunto é Cinema – Analisando Berlim e a Dama com Arminho

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

O universo de “La Casa de Papel” (2017) segue muito vivo. Ele abre diversas possibilidades, já que a grande força da série original está em seus personagens. Um deles já tem um spin-off para chamar de seu, que agora ganha sequência em uma nova aventura. Esse sujeito é Andrés de Fonollosa, conhecido pelo codinome Berlim. Na série original, ela era o líder de campo e mentor do assalto à Casa da Moeda da Espanha ao lado do Professor. Arrogante e convencido, havia um lado dele que, sutilmente, extravasava: o romântico e sedutor. Essa faceta é explorada na série “Berlim e a Dama com Arminho”, disponível na Netflix em oito episódios.

A série traz de volta Berlim e Damián indecisos sobre a nova empreitada criminosa de sua gangue. Então, surge a oportunidade por intermédio do bilionário Duque de Málaga. A missão era roubar uma valiosíssima pintura de Leonardo da Vinci chamada “A Dama com Arminho” para o Duque incorporá-la à sua coleção particular. Ao descobrir que o ricaço afanava obras de arte apenas para a própria ostentação em um porão enfeitado, Berlim fica tão indignado que resolve enganá-lo. Ele planeja roubar toda a fortuna do Duque, enquanto finge que planeja o furto do quadro de Da Vinci. Só que a história ganha rumos inesperados para Berlim e a jovem quadrilha de ladrões.

Criada por Álex Pina e Ester Martinez Lobato, “Berlim e a Dama com Arminho” mantém a ótima arquitetura audiovisual que consagrou tanto “La Casa de Papel” quanto o primeiro spin-off de Berlim. A edição frenética alterna cortes em close e planos de ação com equilíbrio suficiente para prender a atenção. Isso ajuda a segurar o ritmo, pelo menos nas tomadas em que a quadrilha está em atividade ou passando por algum perigo. A fotografia colorida cheia de contrastes, bem ao gosto do cinema espanhol, colabora para que a conexão com o universo de “La Casa de Papel” não se perca. Ao mesmo tempo, ela busca uma assinatura visual própria ao reduzir um pouco sua textura noir, resultando na feliz tentativa de mostrá-la como um produto novo. Em termos técnicos, a série é ótima, complementada por uma trilha sonora repleta de canções espirituosas e temas originais de Lucas Peire e Frank Montasell.

“Berlim e a Dama com Arminho” fez uma escolha muito clara: mergulhar na personalidade galanteadora de Berlim e espalhar essa essência para o restante do elenco e da história. Como toda escolha tem consequências e elas podem ser boas, ruins ou ambas simultaneamente, a opção por acentuar o tom de comédia romântica é discutível. A atmosfera de sarcasmo em fluxo contínuo segue intacta, mas o desenvolvimento dos arcos dos casais carece de mais consistência. Além de se alongarem bastante, caem na armadilha do lugar comum dos romances modorrentos, convertendo vários momentos em pequenas novelas piegas que pouco acrescentam ao teor da obra. Se o lado técnico sustenta a série no eixo, o roteiro e a direção empurram sua dinâmica para fora dessa linha-mestra. O resultado são episódios que perdem potência e cadência, levando a um sentimento até então raro no universo: o tédio.

Quanto às atuações, o destaque é Pedro Alonso. Seu Berlim permanece com suas características encantadoras, como a elegante petulância e arroubos de autoritarismo. Porém, seu lado amoroso é mais trabalhado, com breves mergulhos em suas vulnerabilidades, especialmente após conhecer Candela, mulher que contraria suas preferências. Um Berlim mais instável se desenha. É um arco romântico interessante, mas a série perde precioso tempo com os namoricos mal resolvidos de Cameron e Roi, e um triângulo esquisito entre Bruce, Keila e um bonitão sensível. Enquanto isso, o flerte entre Damián e a Duquesa, esposa do vilão, poderia ser mais explorado. Embora as performances de atores e atrizes sejam satisfatórias, os enredos prejudicam a fluência esperada para um spin-off de “La Casa de Papel”. O ponto positivo é a atuação deliciosamente canastrona de Jose Luiz Garcia Perez com seu Duque excêntrico e exagerado centralizando as atenções.

“Berlim e a Dama com Arminho” é uma série de razoável a boa, com episódios irregulares, uma história que se perde com tramas de amor sem sal, mas que tenta compensar quando resgata o espírito caótico da série-mãe. Apesar de explorar a ligação afetiva com “La Casa de Papel” tanto no texto quanto na direção, assim como na aparição do Professor, ao insistir na construção de uma personalidade mais dionisíaca do protagonista, acaba contaminando o restante das subtramas e decaindo na fluência. Isso não significa, entretanto, que a experiência de ampliar o universo de “La Casa de Papel” tenha sido fracassada. Com mais essa prequel, ela prova que há espaços generosos para novas expansões. É preciso ajustar o tom e escolher melhor onde as subtramas serão aprofundadas. A Netflix anunciou recentemente o retorno do universo de “La Casa de Papel”. Se serão novas sequências, spin-offs ou prequels, não se sabe. Mas talvez Berlim seja um bom laboratório de testes para a ampliação desse mundo marcado por ação, adrenalina e diversão, com aquele tom satírico que tanto gostamos.

“Berlim e a Dama com Arminho” está disponível na Netflix.

 

Nota: 7,0.

 

Confira o trailer da série “Berlim e a Dama com Arminho”:

 

Ouça o episódio analisando “Berlim e a Dama com Arminho”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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