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O Assunto é Cinema – Revisitando Thelma & Louise

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

É provável que um homem como eu, com lugar de fala interditado pelos próprios e óbvios limites, mas com algum esclarecimento e respeito pelo tema, perceba “Thelma & Louise” com o entusiasmo de quem crê em sua essência feminista. É o senso comum cultivado desde o lançamento em 1991. Porém, meu conhecimento limitado permite questionar se podemos enquadrá-lo nesse molde ou se deveríamos entendê-lo como uma frenética e trágica epopeia de anti-heroínas sobre a libertação de duas mulheres exauridas pelas estruturas machistas do trabalho e da família, mas sem uma consciência política de gênero? Afinal, são duas pessoas vivendo a liberdade, compartilhando dores e sororidade, e desafiando a autoridade machista por natureza. É nessa dúvida que habita o encanto do longa-metragem dirigido por Ridley Scott. Então, sob a perspectiva da reputação de feminista cultivada por 35 anos, “Thelma & Louise” é um filme político ou psicológico?

road movie conta a história da garçonete Louise Sawyer, que convida a amiga Thelma Dickinson para uma viagem de carro. Thelma é uma dona de casa submissa ao marido, mas acaba aceitando o convite. Então, as duas pegam a estrada. No entanto, em vez de uma aventura despretensiosa de duas mulheres tentando se desligar da rotina, o passeio se transforma em uma jornada cheia de riscos e autodescobertas. O roteiro foi escrito por Callie Khouri, baseado em uma história que viveu com uma amiga. É interessante como o filme começa com a leveza de uma comédia de situação, com uma coloração arejada ambientando as personagens em seus espaços iniciais. Enquanto Louise ralava na lanchonete, Thelma preparava o café da manhã do marido mandão e caricato. Ao entrarem no conversível, ganharem o trecho e se afastarem de seus lugares opressivos, aos poucos, elas se soltam para a vida e se aproximam de um destino imprevisto e perigoso.

O ponto de virada acontece em um espaço de diversão. Quando Louise assassina a tiros um homem que tentou estuprar Thelma no estacionamento do bar onde elas dançavam, quase toda a estrutura do filme se altera, mas não foi uma mudança brusca. Inicialmente, apenas as duas amigas expressam a tensão que norteia o enredo, com atuações seguras e potentes de Geena Davis como Thelma desesperada, atônita e assustada, e Susan Sarandon com sua Louise estonteada com a encrenca em que se meteu. A fotografia se mantém na conotação de cotidiano e as canções da trilha sonora ajudam a construir a mensagem de que, enquanto a situação delas se complica, a vida segue do mesmo jeito. Porém, o ritmo vai oscilando entre a fuga para o México e aventuras amorosas até certo ponto transgressoras. Ou seja, duas mulheres experimentando rupturas ora doces, ora brutais em suas vidas modorrentas. A direção sustenta essa dança caótica com inabalável segurança, ajudada pela dinâmica peculiar dos filmes de estrada.

Nos minutos derradeiros, “Thelma & Louise” se entrega à epifania da libertação total a partir do momento que Thelma rende o policial e atira na viatura que as abordaram na rodovia. Quando o tira, aos prantos, afirma que tem mulher e filhos, Thelma assume o mote que gravou no filme a fama de feminista. Apontando uma pistola, ela o manda tratá-la bem, do contrário, a esposa poderá terminar como ela, decidida a destruir tudo em nome de uma ideia de dignidade. É quando a produção abraça graciosamente a confusão e o caos niilista se transforma em combustível para uma autodestruição martirizante. Acuadas pela polícia, Thelma e Louise se atiram com carro e tudo para a morte no Grand Canyon, o que, para elas, supera a experiência de viver na mediocridade de seus cotidianos permeados pelo machismo. É preferível morrer livre das amarras do patriarcado do que seguir existindo para servir aos desígnios masculinos. Mas isso opera no plano psicológico das protagonistas, sem uma teoria política de ação que as guiasse. Foi impulso movido ao rancor acumulado pelo dia a dia de duas mulheres achatadas pela estrutura dominante na sociedade americana.

“Thelma & Louise” é um ótimo filme, com direção muito bem controlada que equilibra momentos de ação e tensão, com instante de leveza e humor, sem abdicar de uma razoável profundidade. Parte desse êxito se deve ao roteiro com ótimos diálogos que sustentam espírito de road movie, com o espectro de “O Demônio das Onze Horas” (1965) de Godard rondando o enredo. Com uma estética que remete ora a “Paris, Texas” (1984) de Wim Wenders, ora a pequenas incursões na gramática do faroeste, “Thelma & Louise” pode não ser exatamente um filme feminista na acepção radical do termo, fincada na luta política por direitos. Mas os elementos de desejo emancipatório distribuídos na jornada das personagens podem ser absorvidos por essa lente e processados como alerta. É nas pequenas coisas do cotidiano que opressão masculina emana sua dominância perniciosa sobre a mulher. E muitas vezes, é no sacrifício da radicalidade que a ruptura pode acontecer. Apesar de dirigido por um homem, “Thelma & Louise” colocou duas mulheres na estrada a bordo de um carro que elas dirigem. Uma metáfora para a vontade de potência necessária para que as mulheres do final dos anos 1980 e início dos 1990 assumam o controle de suas vidas.

“Thelma & Louise” está disponível na Amazon Prime Video.

Nota: 9,5

Confira o trailer de “Thelma & Louise”:

 

Ouça o episódio revisitando “Thelma & Louise”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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