Colunista

O Assunto é Cinema – Analisando Mestres do Universo

Compartilhar
Compartilhar

Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O Assunto é Cinema analisa “Mestres do Universo”, filme dirigido por Travis Knight. A trama acompanha o jovem príncipe Adam sendo exilado para a Terra depois do vilão Esqueleto invadir Eternia. Depois de derrotar o rei Randor, o vilão parte para tomar o castelo de Grayskull e a Espada do Poder quando a Feiticeira consegue banir Adam e a espada para o nosso planeta. No caminho para a Terra, Adam se separa da espada, sua única forma de retornar para casa.

Enquanto cresce em um planeta estranho, Adam segue obcecado em encontrar sua espada e voltar para casa. A vida segue e o jovem acaba virando um profissional de recursos humanos em uma grande empresa. Enquanto isso, Eternia está desolada, sob comando impiedoso de Esqueleto e seus asseclas. Mentor, Teela e seus amigos organizam uma frágil resistência, na esperança de que um dia o príncipe Adam retorne e retome seu trono com a Espada do Poder.

“He-Man e os Mestres do Universo” foi mais uma entre tantas animações criadas com o propósito de vender brinquedos. No começo da década de oitenta, a Mattel desenvolveu uma linha de figuras de ação baseada no universo de Conan, de Robert E. Howard, mais famoso pelos quadrinhos da Marvel ilustrados por Barry Windsor-Smith e John Buscema, e que estava prestes a ganhar um filme dirigido por John Milius. Depois de perceber que o longa estrelado por Arnold Schwarzenegger era violento demais para crianças, toda a linha foi repensada.

O estúdio de animação Filmation precisava emplacar um sucesso para se manter produzindo e a Mattel precisava dar um destino ao trabalho já desenvolvido para sua linha de brinquedos. O resultado é um misto de fantasia medieval com magia e um toque futurista, influência direta do sucesso de Star Wars. Uma animação cheia de cores e referências, com muitas sequências animadas em cima do movimento filmado de atores, a clássica técnica da rotoscopia, uma boa trilha sonora e roteiros simples com mensagens edificantes. Toda essa história está muito bem documentada em produções como a série “Brinquedos Que Marcam Época” da Netflix.

A proposta do novo filme escrito por Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee e Dave Callaham com colaboração de Alex Litvak e Michael Finch na concepção da trama era resgatar não apenas o personagem do passado, mas também trazer Eternia para o contemporâneo, algo que “Barbie” de Greta Gerwig fez com maestria em 2023. Os fãs da animação, o grande público alvo da produção, se dividiram logo que saíram as primeiras imagens e a informação de que o filme se passaria em parte na Terra, algo que lembrou a todos da primeira e infame adaptação de 1987 com Dolph Lundgren no papel do príncipe de Eternia. Ainda que a expectativa fosse alta, o receio também era.

A boa notícia é que “Mestres do Universo” é uma produção que abraça o tom cafona e colorido da animação sem medo de parecer ridículo, aceitando inclusive as tantas piadas feitas em torno da sexualidade do protagonista e até mesmo os memes com as frases ou o clipe com os personagens da animação cantando “What’s Going On” do conjunto “4 Non Blondes”. A galhofa corre solta em vários momentos brincando inclusive com a estética da animação em sequências como a risada solta dos protagonistas no desfecho dos episódios. Ver isso retratado em cena embalado pelo tema original da animação já bastaria para entusiasmar os fãs mais fervorosos.

No elenco, o papel principal fica com Nicholas Galitzine como o príncipe Adam. O ator combina bem os atributos físicos com carisma para o papel, entregando um protagonista cujo desenvolvimento é genuíno, lembrando bastante a atuação de Margot Robbie como Barbie. Dos demais, vale destacar o Mentor interpretado por Idris Elba, um guia que está mais perdido que o herói e que nunca teve oportunidade de ser ou explorar algo além de ser o senhor da guerra. O ator parece estar se divertindo muito em suas cenas, não se levando nem um pouco a sério. O mesmo vale para a Maligna de Alison Brie que acompanha o infame Esqueleto de Jared Leto.

O tom descompromissado do filme vem da direção segura de Travis Knight. A montagem é acelerada e não se preocupa em ficar muito tempo desenvolvendo arcos menores que apenas esticariam o resultado final, entregando um filme que, por mais que tenha 140 minutos de duração, corre solto para o espectador. Os efeitos visuais são competentes, mas do aspecto técnico o que mais agrada é a trilha de Daniel Pemberton que ainda conta com a guitarra inspirada de Brian May nos temas principais, ele que brilhou com a icônica trilha de “Flash Gordon” em 1980, outro filme que não se levou a sério e acabou criticado justamente por abraçar o material original.

“Mestres do Universo” é uma produção que vem sendo comparada com “Thor”, da Marvel, mas que no fim das contas lembra mais o injustiçado “Flash Gordon” de Mike Hodges. A jornada do herói de Joseph Campbell não necessariamente precisa ser interpretada com tanta seriedade e isso é algo que os longas da Marvel falham em trabalhar, justamente pela necessidade de coerência temática e continuidade entre os filmes. A nova produção está preocupada em estabelecer, de fato, um universo maior, mas isso não impede o filme de rir de si próprio.

A nova interpretação de He-Man e seu universo traz questionamentos valiosos para a cultura pop, entre eles críticas à cultura incel e seus muitos efeitos tóxicos nos meninos, à intolerância com a exploração da sexualidade e, principalmente, à falta de diálogo. Colocar um protagonista que tenta resolver suas questões com uma conversa antes de partir para ação funciona como piada e ainda passa um belo recado de como se encara o facismo. Quando um vilão como Esqueleto diz que não pode mudar sua visão do mundo porque ele é o que é e não existe possibilidade de diálogo, faz todo sentido querer ver o herói resolver a questão na base da espada.

“Mestres do Universo” está em cartaz nos cinemas.

Nota 10.

Confira o trailer de “Mestres do Universo”:

 

Ouça o episódio analisando “Mestres do Universo”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:

 

Foto: Divulgação.

Compartilhar

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados
Colunista

Da formalidade à espontaneidade: os novos caminhos da televisão

Por Alexandre Gonzaga O velho padrão da televisão passa por uma das...

Colunista

O Assunto é Cinema – Revisitando o jogo Street Fighter

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...

Colunista

O Assunto é Cinema – Analisando O Capital no Século 21

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...

Colunista

O Assunto é Cinema – Revisitando Jenipapo

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...