O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Fazer rir é uma arte. Fazer rir a partir de paródias cinematográficas é uma sacada que envolve riscos. Quando dá certo, é muito divertido. Quando não dá, costuma ter a graça de uma geladeira enguiçada. O ponto de equilíbrio parece ainda ser o calcanhar de Aquiles desta franquia de comédia que entrega mais uma sequência. Entrou em cartaz nos cinemas o filme “Todo Mundo em Pânico”. Nela, os irmãos Shorty, Ray e Brenda Meeks se unem a Cindy Campbell para salvarem o mundo do caricato assassino Ghostface. Essa luta envolve personagens parodiados de produções mais recentes do cinema e dos streamings, como Wandinha e a boneca digital Megan.
“Todo Mundo em Pânico” foi escrito pela família Wayans e por Rick Alvarez, e a direção é de Michael Tiddes. Se a principal atração da franquia sempre foram as paródias de produções de sucesso do cinema e TV, o novo longa-metragem as entrega de forma contenciosa. São breves aparições de personagens ou alusões engraçadas a situações remontadas que remetem a filmes como “Pecadores”, “A Hora do Mal” e “A Substância”. Porém, a ideia-eixo do roteiro e da direção continua sendo “Pânico”. É nesse aspecto que o novo filme poderia ter se arriscado mais. Ao apostar na nostalgia do início dos anos 2000, ele se apega demais à velha fórmula, tornando a narrativa repetitiva, apesar de ótimos momentos de risos garantidos. O tom politicamente incorreto também resgata o espírito do começo do século, mas o que poderia ser uma solução, acaba se tornando armadilha. Era um recurso que funcionava bem em tempos infelizmente sem muitos filtros éticos, mas o público de massa passou por mudanças e utilizá-lo nos dias atuais é uma tarefa inglória.
“Todo Mundo em Pânico” também carrega as lentes no saudosismo no elenco e atuações. Os irmãos Malon e Shawn Wayans, Ana Farris e Regina Hall, que formam o núcleo-base da franquia não apresenta nada de interessante, a não ser revisitar a alma de seus personagens, agora amadurecidos pelo tempo. Talvez nem houvesse necessidade de uma recauchutagem, porém, havia espaço para um esforço mais ousado em apresentar novidades. Já as novas adesões ao casting pouco acrescentam em termos de humor e narrativa, e funcionam apenas como coadjuvantes insossos. Não que falte talento a jovens como Olivia Rose Keegan, Jon Abrahams e Sydney Park. O problema é que, ao investir na saudade, o filme desperdiça a chance de elaborar personagens que explorem mais os possíveis dotes cômicos da fração jovem do elenco. No conjunto, porém, para o que o longa se propõe, o elenco corresponde.
Tecnicamente, “Todo Mundo em Pânico” satisfaz a demanda por um espetáculo visual que a comédia de escracho exige. Enquadramentos malucos, movimentos bizarros e montagem tresloucada marcam o filme. Como se trata de uma paródia centrada na proposta narrativa de “Pânico”, leves pinceladas da gramática audiovisual do terror são aplicadas, o que já é um legado da franquia. Desse modo, várias cenas têm sombras e contrastes óbvios que ajudam a conectar ao filme objeto da caricatura. A trilha sonora original de Haim Mazar também não apresenta inovações e segue a toada segura de usar o terror como referência para a comédia. Aspectos como maquiagem e figurinos são um ponto interessante, pois na lista de paródias, a produção não tenta reproduzir fielmente personagens dos filmes “homenageados”. Na verdade, a ideia parece ser mais satiriza-los, o que já começa nas ótimas caracterizações.
“Todo Mundo em Pânico” é um filme mediano, que entrega um humor reciclado, um apego acomodado à nostalgia e tentativas ora felizes, ora frustradas de atualizar as zombarias. O roteiro é pouco convincente, a direção preferiu o conforto das soluções clássicas da franquia e o elenco principal faz o que se espera. No entanto, provavelmente nada disso importa. Como declarou Marlon Wayans após saber que o filme não vem agradando a imprensa especializada, “não fazemos filmes para os críticos”. E como nós, críticos, não costumamos fazer resenhas para agradar atores, diretores ou produtores de filmes, acreditamos que uma franquia com ideias tão simples e ótimas, e elenco talentoso para comédia, deveria investir mais na criatividade e na audácia. Há piadas boas, mas no geral, a nostalgia está longe de assegurar frescor. Isso para uma franquia que tenta seguir em frente, é complicado.
“Todo Mundo em Pânico” está em cartaz nos cinemas.
Nota: 5,0.
Confira o trailer de “Todo Mundo em Pânico”:
Ouça o episódio analisando “Todo Mundo em Pânico”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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