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O Assunto é Cinema – Analisando Brasil 70: A Saga do Tri

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

 

Amantes do futebol de todo o planeta vivem a atmosfera da Copa do Mundo masculina. O mais tradicional torneio de seleções está sendo sediado nos EUA, Canadá e México. O Brasil participa de mais uma edição e tentará seu sexto título, mas para isso, terá que superar 47 países e oito adversários diretos para chegar ao hexa. A última conquista aconteceu em 2002. Em época de Copa do Mundo, é inevitável lembrar dos triunfos e fracassos da jornada brasileira na história quase centenária da competição. Uma das recordações gratificantes é daquela considerada a maior seleção de futebol de todos os tempos: a seleção campeã de 1970. Os streamings aproveitam a oportunidade para encher seus catálogos com produções relacionadas ao futebol. Uma delas é uma minissérie em cinco episódios que buscou desvelar os bastidores daquele escrete mágico que tinha Pelé, Gerson, Tostão, Rivelino, Carlos Alberto, Jairzinho, entre outros gênios. Ela se chama “Brasil 70 – A Saga do Tri”, disponível na Netflix. A direção é de Paulo, Pedro e Quico Morelli.

Um grande mérito da minissérie é não fugir de um contexto importante para se compreender o impacto da seleção de 1970 no Brasil. O país vivia o período mais cruel da ditadura civil-militar, na presidência do facínora Emílio Médici. É um dado crucial porque algumas decisões e comportamentos foram moldados sob a sombra imunda desse regime corrupto e sanguinário. Assim, a minissérie enfrenta o fato com relativa coragem por meio de um roteiro correto, embora com pouco aprofundamento, pontas soltas e alguns artificialismos de texto discutíveis. A ditadura brasileira é um elemento que persegue sorrateiramente todos os episódios, um acerto da produção por respeitar o que, de fato, aconteceu. Essa contextualização começa com a relação de João Saldanha, primeiro técnico daquela seleção, com a conjuntura política. O jornalista e treinador era declaradamente comunista e seu afastamento a poucos meses da copa ocorreu por ele não se submeter aos mandos do presidente ditador. Ou seja, a covardia e a subserviência ao autoritarismo de uma entidade oficial do futebol, no caso, a CBD, não é nenhuma novidade – basta olhar a relação entre a FIFA e o governo déspota de Donald Trump. Nessa abordagem, a minissérie é, no geral, muito feliz.

Mas vamos ao futebol. O uso de recursos digitais para produzir cenas dos lances de campo é admirável e, na maioria das vezes, torna o espetáculo da série emocionante, nostálgico e divertido. Em outros, porém, a artificialidade fica muito evidente. Tem horas que parece um game, de tão “eletrônico”, mas apesar da estranheza, não subtrai o esforço dos produtores de entregar belas imagens da seleção. Outro destaque positivo é o elenco, especialmente Rodrigo Santoro no papel de João Saldanha. Fiel à personalidade destemida do jornalista e treinador, o ator consegue dar a consistência necessária para as gerações posteriores conhecerem esse personagem fundamental para a conquista. Da mesma forma, Bruno Mazzeo assume o papel de Zagallo, o lendário técnico que ocupou o lugar de João Saldanha e conduziu o time ao título mundial. A performance do ator condiz com as memórias do saudoso e excêntrico Velho Lobo, sem abrir mão do trabalho no vestiário. O problema começa com o elenco que interpreta os jogadores, não pela capacidade, já que todos foram eficientes, mas com o arco destinado a cada um deles. Há desenvolvimentos inconsistentes, longe da estatura futebolística dos atletas, e omissões terríveis, como a do capitão Carlos Alberto Torres reduzido a um mero coadjuvante de rodapé de página. Chega a ser um crime a série não destacar a relevância do lateral-direito que levantou a taça do tri.

“Brasil 70 – A Saga do Tri” é uma série muito boa para ativar sentimentos como paixão, nostalgia e entretenimento, principalmente pela utilização, na maior parte das vezes, eficaz de recursos tecnológicos e pela presença de personagens daquela jornada. Como espetáculo audiovisual funciona, assim como é louvável a iniciativa de não descolar a campanha do espectro da ditadura vigente no país. Mas, com exceção dos treinadores, os jogadores não tiveram a abordagem merecida. Mesmo a saga de Pelé foi reduzida a uma novela enfadonha carregada de verniz. O rei do futebol não precisa disso para ter sua história, glórias e contradições devidamente contadas. Resumindo, a minissérie deixa a desejar como registro convincente de um episódio glorioso do Brasil. Muitos podem argumentar que se trata de uma série dramática e não um documentário ou reportagem. Uma desculpa preguiçosa. Basta lembrar que obras pretensamente ficcionais baseadas em elementos reais podem não exigir precisão íntima. Porém, devem respeitar um mínimo de factualidade.

“Brasil 70 – A Saga do Tri” está disponível na Netflix.

 

Nota: 6,0.

 

Confira o trailer de “Brasil 70 – A Saga do Tri”:

 

Ouça o episódio analisando “Brasil 70 – A Saga do Tri”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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