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O Assunto é Cinema – Revisitando Persépolis

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Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O Assunto é Cinema revisita “Persépolis”, animação dirigida por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. A trama autobiográfica adapta o quadrinho de mesmo nome, escrito e desenhado por Marjane Satrapi, lançado entre 2000 e 2003 na França e publicado no Brasil em 2007, pouco depois da estreia da animação na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A obra e a adaptação acompanham a infância e a juventude de Marjane no Irã, antes da revolução, e depois dela sair do país para estudar na Suíça, longe das muitas restrições impostas pelo regime iraniano.

O título da obra vem do nome da antiga capital do Império Persa, região que veio a se tornar o Irã. Na infância, Marjane ouvia de seu pai que o reinado do Xá Mohammad Reza Pahlavi estava prestes a ser derrubado pelo povo e, com isso, o Irã se tornaria um país melhor. Durante seu regime, a família de Marjane foi perseguida por se posicionar contra o Xá. Seu tio Anoosh, uma de suas principais referências, foi preso e solto depois da queda do Xá, com a revolução iraniana em 1979.

A ascensão do regente foi promovida pelo governo britânico, durante a segunda guerra mundial, tendo o reconhecimento como nação em troca de petróleo como a principal justificativa para Mohammad Reza Pahlavi ter sido elevado ao poder. Ele apelou para a religião para fortalecer a camada mais ignorante da população e manter o clima de perseguição aos opositores do regime, algo denunciado em vários momentos da trama do longa e do quadrinho como um movimento comum a todos os ditadores que se sucederam ao regime.

Depois da revolução, Marjane finalmente conheceu seu tio Anoosh e com ele aprendeu sobre a história de seu país e a importância de se lutar pelos direitos do povo. Ele contou a ela como seu mentor e amigo, Fereydoon, foi preso e executado pelo regime no Azerbaijão. Isso fez com que ele próprio fugisse para a União Soviética onde estudou até obter um doutorado e passar a adotar os ideais comunistas. Quando voltou ao Irã, Anoosh foi reconhecido e preso pelo regime até ser solto com a revolução de 1979. Suas breves lições marcam a juventude da rebelde Marjani, desenvolvendo nela um sentido de urgência por uma revolução do povo, para o povo.

A opressão sempre pesou mais para as mulheres, tanto no regime do Xá quanto na ditadura que aos poucos se instalou depois da revolução articulada pelos norte-americanos. Enquanto cresce, Marjane se rebela como pode: vestindo uma camiseta punk, ouvindo heavy metal em seu quarto ou brigando com o filho do vizinho, um conhecido oficial do governo. Depois que seu tio Anoosh é preso uma vez mais por seu passado comunista, Marjane abandona de vez a inocência ao perceber que ele está prestes a ser executado por seus ideais, assim como os que vieram antes dele. A despedida na prisão é um dos momentos mais tocantes da trama.

Quando Marjane questiona a professora de religião os motivos de um Deus permitir que pessoas como seu tio morram por seus ideais, a jovem é suspensa na escola e isso faz com que seus pais a mandem para Suíça estudar, para evitar problemas com o regime. A mudança abre uma nova perspectiva na vida de Marjane que passa a conhecer o suposto mundo livre, mas que no fundo carrega um grande preconceito com estrangeiros, como ela. O fato de o Irã ser um país retrógrado faz com que muitos a tratem como uma ignorante, fanática religiosa como seus conterrâneos. Isso faz com que ela tente evitar suas origens, algo que a enfraquece justamente pela lembrança da fala de sua avó sobre suas raízes, antes dela partir para o estrangeiro.

A avó de Marjane, mãe de sua mãe, é viúva de um príncipe e uma das figuras mais importantes na vida da protagonista. Ela pode não ter a instrução do tio Anoosh, mas é dela que partem algumas das maiores lições que a jovem Marjani vai aprender sobre a vida. Uma é ter orgulho de suas raízes iranianas, afinal de contas, não é um regime facista que será capaz de macular suas origens. A outra é se valorizar enquanto mulher, se permitindo viver livre, inclusive buscando o divórcio, mesmo em um país como o Irã, que deprecia mulheres separadas.

É na importância de figuras como o tio e a avó na formação e no amadurecimento de Marjane que recai a beleza de “Persépolis”, tanto quadrinho como filme. A visão da criança que é fã de Bruce Lee e brinca de Godzilla enquanto aprende sobre o mundo a partir de duras lições é algo que a animação captura muito bem dos quadrinhos, alternando belas sequências em preto e branco com uma animação fluida e que ocasionalmente desacelera para reforçar a beleza do simples como na abertura e no desfecho com as pétalas de jasmins caindo por sobre a tela em alusão a uma história de sua avó, algo simples e delicado, mas que marcou Marjane.

“Persépolis” é uma história agridoce, que fala de uma mulher que amadurece para se tornar uma estranha em seu próprio país, ainda que orgulhosa de suas origens e sua rebeldia. O quadrinho repercutiu a ponto de tornar Marjane Satrapi referência entre autores consagrados em um meio em que sempre se destacavam homens como Joe Sacco com “Palestina” ou Art Spiegelman com “Maus”. A animação foi reconhecida em Cannes com o Prêmio do Júri e no Oscar acabou perdendo para “Ratatouille”, mais uma entre tantas injustiças da premiação. No Brasil, a estreia na Mostra de Cinema de São Paulo rendeu o prêmio de melhor filme estrangeiro.

Marjane Satrapi continuou contando histórias familiares com “Bordados” em 2003 e  depois “Frango com Ameixas” em 2004, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, mesma editora de “Persépolis”. Após o sucesso da animação, Marjane Satrapi investiu em uma carreira nos cinemas, tendo adaptado o quadrinho “Frango com Ameixas” com atores em 2011, em mais uma parceria com Vincent Paronnaud. Ela retomou o trabalho com quadrinhos em 2023, organizando a coletânea “Mulher, Vida, Liberdade” em resposta ao assassinato da jovem Mahsa Amini em 2022 pela polícia religiosa iraniana. O quadrinho foi publicado no Brasil ano passado.

A história do Irã persiste com o conflito recente com os Estados Unidos. Os motivos são os mesmos, o petróleo. O principal opositor ao atual regime no Irã é Reza Pahlavi, filho do Xá deposto em 1979, figura política que conta com algum prestígio com os Estados Unidos e possível candidato a assumir o país, dependendo da resolução do conflito. A causa que a família divulgou para a morte de Marjane Satrapi foi tristeza pela perda do marido ano passado, mas não deixa de ser uma cruel ironia com o estado das coisas no mundo contemporâneo que insiste em repetir erros do passado. Infelizmente “Persépolis” não está disponível nem para compra ou aluguel em plataformas digitais. A única versão disponível do filme está em DVD lançado no Brasil pela Europa Filmes.

Nota: 11.

 

Confira o trailer de “Persépolis”:

 

Ouça o episódio revisitando “Persépolis”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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