O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema revisita “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”, filme dirigido por Nicholas Meyer. A trama apresenta o almirante James T. Kirk encarando a perspectiva da velhice, tendo que aceitar que chegou a hora de seguir a vida adiante. Enquanto inspeciona o treinamento de cadetes da Frota Estelar na Enterprise, um alerta faz com que ele e sua antiga tripulação atendam o chamado de socorro de Chekov, um companheiro do passado. Mal sabiam eles que um inimigo esquecido estava preparando uma armadilha para obter a atenção da Frota Estelar.
Khan Noonien Singh é um personagem apresentado no episódio “A Semente do Espaço” na série clássica de “Jornada nas Estrelas”. A ideia de resgatar o vilão interpretado por Ricardo Montalban veio do argumento escrito pelo produtor Harve Bennett que assumiu no lugar do criador da série, Gene Roddenberry, a produção do novo filme. Bennett era um produtor de seriados quando a Paramount o convidou para o que seria um filme de despedida da franquia nas telas do cinema, algo justificado pela fraca bilheteria do longa anterior.
A sequência, produzida com um orçamento modesto para evitar os excessos do longa anterior, tinha de ser uma despedida digna para a franquia. Gene Roddenberry até apresentou uma proposta para um segundo filme envolvendo viagem no tempo e os Klingons, mas a recepção fraca da crítica e dos fãs ao filme anterior fizeram com que a Paramount procurasse alguém capaz de resgatar o que a série clássica tinha de melhor com um orçamento bem mais enxuto. Com isso em mente, Bennett traçou um argumento que resgataria um dos vilões mais carismáticos da primeira temporada da série, trazendo de volta o ator Ricardo Montalban no papel.
O roteiro escrito por Jack B. Sowards envolvia um arco de vingança do personagem depois do capitão Kirk determinar seu exílio em Ceti Alfa V, em um episódio cujo desfecho traz Khan citando o clássico literário “Paraíso Perdido” de Milton em reconhecimento à decisão do capitão da Enterprise. O que era uma trama tradicional de vingança virou uma ode à passagem do tempo e à velhice nas mãos do diretor Nicholas Meyer que acabou reescrevendo o roteiro, sem ser creditado. Enquanto Khan envelheceu amargurado pela sede de vingança, Kirk driblou o tempo, tentando se manter na ilusão de seguir para sempre as aventuras com seus companheiros.
O tom épico e profundo adotado por Nicholas Meyer foi o bastante para convencer a todos os atores a regressar, com exceção de Leonard Nimoy que seguia desinteressado em voltar como Spock. Como a produção pretendia ser uma despedida da franquia nos cinemas, Meyer e Bennett ofereceram a Nimoy a perspectiva de uma morte grandiosa e isso fez com que o ator reconsiderasse a proposta de retorno. Com todo o elenco reunido e as filmagens em andamento, o rumor da morte de Spock fez com que os fãs se manifestassem em uma campanha agressiva contra a Paramount, chegando até a publicar anúncios em revistas como a “The Hollywood Reporter” e a “Variety” ameaçando boicotar o filme e o estúdio em retaliação.
Um elemento fascinante da produção de “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan” está nos efeitos visuais e na criação de sets grandiosos com um orçamento que não chegava a um quarto do valor do longa anterior. É impressionante como a equipe da Industrial Light & Magic, a famosa ILM de George Lucas, criou maquetes simples e efeitos práticos tão bem feitos a ponto de serem reaproveitados nas inevitáveis sequências. “A Ira de Khan” se tornou inclusive o primeiro filme a usar uma animação totalmente computadorizada na cena dos efeitos do projeto Gênesis.
Visualmente a produção parece ainda maior que o grandiloquente filme anterior, algo difícil de se acreditar com o orçamento apertado para a produção. Os figurinos de Robert Fletcher apresentaram os icônicos uniformes com a jaqueta vermelha, ponto bastante criticado pelos fãs no longa anterior. Todos estes aspectos combinados com a trilha épica de James Horner fazem um filme modesto parecer grandioso, sem apelar para longas sequências e sets exageradamente sem propósito como no filme original, dirigido por Robert Wise com produção de Gene Roddenberry cujo único aspecto que se sobressaiu foi a bela trilha de Jerry Goldsmith.
A estreia de “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan” foi arrebatadora e a cena da morte de Spock levou os fãs às lágrimas, destacando a atuação de Leonard Nimoy e William Shatner em uma sequência que os críticos reconheceram como um dos grandes momentos da franquia. Os responsáveis por esse sucesso foram Harve Bennett e Nicholas Meyer que souberam tirar da série clássica o que ela tinha de melhor, enxergando naqueles personagens algo além dos clichês que a própria franquia eternizou. A Paramount não precisou pensar duas vezes para consolidar Harve Bennett como novo produtor da franquia nos cinemas, demandando novos filmes a partir de então. O que se seguiu foi um bem-vindo renascimento de “Jornada nas Estrelas” na cultura pop.
“Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan” está disponível no serviço de streaming Paramount+.
Nota: 11.
Confira o trailer de “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”:
Ouça o episódio revisitando “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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