O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Não é à toa que Steven Spielberg é associado ao universo da ficção científica. Ele foi um dos principais responsáveis por torná-la um gênero popular a partir da década de 1970. O cineasta americano contribuiu para inserir de vez a ficção científica na cultura de massa. Porém, ele expandiu seus domínios para novos territórios cinematográficos em gêneros como drama de guerra, biografias políticas, musicais e obras metalinguísticas. Então, depois de 21 anos, desde que lançou o questionável “Guerra dos Mundos”, Spielberg retorna a uma sci-fi sobre extraterrestres. Entrou em cartaz nos cinemas, “Dia D”, que cruza as histórias da meteorologista Margaret Fairchild e do especialista em segurança cibernética Daniel Kellner. Daniel faz uma descoberta estarrecedora de arquivos confidenciais sobre a omissão do governo americano a respeito da captura de E.T’s, enquanto Margaret recebe mensagens indecifráveis durante uma transmissão de televisão ao vivo de um boletim do tempo. Ambos se unem na tentativa de revelar os segredos sobre alienígenas.
“Dia D” foi escrito por David Koepp e a direção de Steven Spielberg, nos primeiros minutos, levava a crer que o prestigiado cineasta retornaria triunfalmente ao gênero que tanto lhe rendeu louros e dinheiro. Experiências como “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977) e “E.T – O Extraterrestre” (1982), lançadas em um intervalo de tempo relativamente breve, forneceram uma linha por onde seguir. Apenas atualizações da forma e das histórias, e pronto. Entretenimento simples e certeiro. Porém, o que se vê em pouco mais de duas horas é uma tentativa canhestra de transformar suposições em algo crível. Levar a sério, inserindo cargas exageradas de tônus dramático foi uma escolha, no mínimo, discutível. O filme é revestido com camadas gordurosas do antigo estilo Spielberg de fazer ficção científica, com recursos que deram certo nos longas antigos. Em alguns momentos, remete aos encantos visuais de suas obras mais icônicas do gênero, mas são estéreis para o funcionamento deste novo filme.
“Dia D” resgata a gramática cinematográfica largamente usada por Spielberg em seu auge aventureiro. Os recursos de iluminação, por exemplo, nos enviam a seus clássicos, mas o resultado neste filme é uma nostalgia alquebrada. O filme não se define entre matar saudades do velho Spielberg de “Contatos Imediatos”, empreitada que funcionou muito bem para a época, ou celebrar o legado do cineasta, que vai muito além disso. Sobre as atuações, nada de extraordinário em Josh O’Connell com seu Daniel carregado de clichês enjoativos da impetuosidade de um jovem ávido por expor o poder. O mais complicado é que ele é o motor da trama, embora haja uma forçada sobre Emily Blunt. O arco de sua Margaret só não descamba para a caricatura por causa do talento da atriz britânica. De resto, as cenas se desenrolam com o pragmatismo técnico que marca o estilo de Spielberg, mesmo que o enredo não ajude. A trilha sonora de John Williams aposta em temas que nos enviam aos esquemas sonoros dinâmicos de sempre.
Mais uma vez, os cinemas exibem uma obra visualmente exuberante, apesar de prolixa, de um diretor que ainda demonstra eficiência, mas que se tornou vítima do deserto de boas histórias no qual o cinema insiste em habitar. Portanto, “Dia D” é um filme razoável, que alterna ótimos momentos, proporcionados, sobretudo, pelas virtudes arquitetônicas de Steven Spielberg, mas com passagens enfadonhas causadas por um roteiro fraco. O retorno do diretor ao espírito de obras que encantaram o mundo adota rumos estranhos ao investir no requentamento de intrigas do governo dos EUA, historicamente pautado pela falta de transparência.
Enfim, nada de novo nos frames deste longa-metragem difícil de se definir. Ele oscila entre um divertimento sem tempero e um esforço “pseudodocumental” de aludir a uma conspiração governamental. Com o acesso de hoje a informações confiáveis – e desconfiáveis -, o governo dos EUA tem esqueletos de sobra em seu vasto armário ultrassecreto. Um material muito melhor para virar filme. Ainda mais um filme de Spielberg.
O filme “Dia D” está em cartaz nos cinemas.
Nota: 6,0.
Confira o trailer de “Dia D”:
Ouça o episódio analisando “Dia D”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
Deixe um comentário