O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Verdade é um conceito carregado de senso comum. Geralmente, as pessoas enxergam apenas a antítese da mentira. Ou seja, verdade é tudo aquilo que não é mentira. Porém, é preciso levar em conta que a verdade como conceito filosófico é cheia de nuances, relativismos e armadilhas. Ainda hoje, para muita gente, por exemplo, a Terra é um disco plano, o ser humano jamais foi à lua e a covid-19 nunca existiu. Absurdos que são “verdade” para essas pessoas graças à forma com tais afirmações são processadas e fixadas. Por isso, refletir sobre o conceito de verdade deveria ser hábito cotidiano. E uma coprodução brasileira e estadunidense pode ajudar. É o drama e suspense político “Jenipapo” (1995). A direção é Monique Gardenberg, em seu primeiro longa-metragem, e o roteiro é dela e Cyrus Nowrasted.
“Jenipapo” cruza as jornadas de dois personagens americanos. Um é o padre Stephen Louis, missionário que atua no sertão da Bahia, simpatizante do Movimento Sem-Terra, que realiza trabalhos assistenciais na região. Respeitado nacionalmente, o clérigo luta para que uma lei que beneficia fazendeiros seja rejeitada no Congresso Nacional. Porém, às vésperas da votação, Stephen entra em um silêncio inexplicável. Então, surge Michael Coleman, repórter internacional do jornal Brazilian Tribune, que resolve se deslocar ao local para investigar a história. Ao ver frustradas as tentativas de obter uma declaração contra o projeto de lei, ele decide criar uma falsa entrevista com o padre Stephen e o jornal a publica como matéria de primeira página, sem saber que se tratava de uma fraude. O projeto foi derrotado, mas as consequências foram devastadoras para o padre e o jornalista.
Em termos de construção narrativa, “Jenipapo” apresenta vários problemas, a começar pela escolha forçada de um estranho bilinguismo. Para uma trama que se desenvolve sobre uma realidade brasileira, personagens que falam inglês com tanta fluência soam pitorescos. Por exemplo, não fica claro se o jornal Brazilian Tribune é um periódico americano com sucursal na Bahia ou um veículo brasileiro em que todos falam inglês apenas por causa de um único jornalista gringo. Esse aspecto se agrava quando o filme vai ao cenário das tensões fundiárias. Missionários católicos estrangeiros são comuns no país, mas o longa não esclarece se o entorno do padre Stephen aprendeu a falar inglês com ele. Enfim, a questão do idioma poderia ser algo lateral, mas, em alguns momentos, desvia a atenção da ótima trama que o filme propõe.
Tecnicamente, “Jenipapo” é um filme sombrio, o que se expressa na fotografia escurecida que prevalece na maioria dos quadros. Mesmo em ambientes neutros como a redação do jornal, não há leveza, reforçando a atmosfera perturbadora de um suspense dramático que visa nos levar a pensar. Há também ótimos movimentos de câmera que valorizam as interpretações dos protagonistas sem perder a dinâmica dos instantes de ação. Além disso, o desenho sonoro se pauta pela utilização pragmática da trilha insinuante de Phillip Glass, deixando espaços para a naturalidade sonora dos locais onde a trama acontece. Quanto às atuações, o belga Patrick Dauchau e o canadense Henry Czerny entregam o que os personagens exigem de um filme em que suas jornadas se atravessam menos no encontro direto e mais nas sequelas de suas atitudes. O elenco brasileiro funciona coletivamente com destaque para coadjuvantes como Julia Lemmertz com sua Julia gravitando bem entre a assessora parlamentar de um senador ligado as coronéis da região e o caso amoroso de Michael Coleman.
“Jenipapo” é um bom filme, que vale mais pelo conteúdo rico nas inquietações que levanta do que pela elaboração cinematográfica em si. Não que a forma seja ruim, mas a maior parte de seus defeitos é suplantada pela ótima reflexão que estimula. Especialmente, sobre a ideia de verdade, pelo prisma das várias éticas envolvidas. A ética jornalística é a mais evidente, já que toda a reviravolta acontece a partir de uma entrevista forjada por Michael Coleman e que jamais foi desmentida. Nem pelo padre Stephen que encontrou uma saída retórica para resolver seu conflito interno entre a verdade factual da entrevista falsa e a verdade maior da causa pela qual milita. Afinal, dizer em rede nacional para dezenas de jornalistas que “tudo que penso está naquela entrevista” foi uma sacada de autoconsciência moral esperta e aberta a muita discussão. E essa é a ideia do filme: mesmo com falhas estruturais, ele consegue proporcionar um campo para refletirmos sobre moral, ética, reforma agrária, jornalismo, política e verdade.
“Jenipapo”, nome aleatório que Michael Coleman deu à pasta de arquivo com recortes de jornais que serviram de fonte para falsificar a entrevista com padre Stephen, tem outro predicado: é um dos poucos filmes nacionais que discutem o jornalismo. Um mérito e tanto, ainda mais no Brasil cuja imprensa privada é controlada por famílias milionárias que moldam a opinião pública de acordo com seus interesses.
Nota: 7,0.
Confira o trailer de “Jenipapo”:
Ouça o episódio revisitando “Jenipapo”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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