O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Economia é um tema áspero para muita gente. Por isso, imensa parte das pessoas evita se aprofundar em qualquer assunto que envolva finanças, juros ou produto interno bruto. No entanto, Economia é uma área do conhecimento crucial, pois se compreendêssemos melhor esse universo e principalmente como ele nos atinge no cotidiano, muitos problemas seriam evitados ou, pelo menos, enfrentados com mais sabedoria. As publicações sobre economia costumam carregar o estigma do tecnicismo e isso, de fato, afasta o público geral. Por isso, o economista francês Thomas Piketty procurou aliar os jargões técnicos da área a elementos da cultura pop, literatura e cinema para ilustrar suas dissertações. Isso pode ser encontrado em “O Capital no Século 21” (2013), livro que detalha o funcionamento da economia ao longo da história e como ela se apresenta na atualidade. Se parece complicado, então, imagine produzir um filme baseado nessa obra de fôlego. Porém, o diretor Justin Pemberton encarou o desafio e lançou em 2020 o documentário homônimo, disponível no Prime Video.
É inútil esperar que adaptações cinematográficas de produtos literários sejam fidedignas. Pelas naturezas das linguagens escrita e audiovisual, é quase impossível que um filme abrace tudo o que um livro contém. Ainda mais uma obra tão volumosa como “O Capital no Século 21”. Porém, é viável captar pontos essenciais e construir narrativas que decodifiquem os textos, e tornem os temas mais acessíveis. Isso o filme consegue com eficácia. Sem abrir mão do formato clássico do gênero documental, até mesmo para capturar um pouco da atmosfera acadêmica do livro, ele consegue explicar conceitos elementares, atualizá-los e enquadrá-los na contemporaneidade. Um exemplo é a referência às tecnologias digitais próxima do final, ponto menos frequente na época do lançamento do livro, embora discutido sob o prisma econômico há décadas. Essa é uma atribuição nobre do documentário: tornar palatáveis ao público discussões normalmente áridas.
Grande parte do êxito do renomado documentarista Justin Pemberton com “O Capital no Século 21” reside em uma estratégia crucial. Além de ser escrito por ele e Matthew Metcalfe, o roteiro teve a ampla colaboração do próprio Thomas Piketty, que não apenas deu ótimos depoimentos, como colaborou na identificação dos pontos essenciais cabíveis em uma peça audiovisual de cerca de uma hora e 40 minutos. Assim como o livro, o documentário traça uma linha cronológica desde a pré-história do capital, quando era apenas o resultado do acúmulo individual de recursos para movimentar um pequeno negócio geralmente familiar, até sua conversão gradativa em mola-propulsora de um modo de produção sistêmico com enorme poder político que se alimenta da desigualdade até hoje. O uso de imagens de arquivo e montagens gráficas inteligentes, entre outras ferramentas, ajudam a absorver as complexas proposições de Piketty expostas em mais de 600 páginas.
“O Capital no Século 21” funciona muito bem como material pedagógico, especialmente pelas ótimas intervenções do próprio Thomas Piketty, o que coloca um componente subjetivo que humaniza conceitos. Mesmo que, no livro original, haja o esforço constante em usar referências exteriores ao mundo tecnocrático da Economia, é no documentário de Justin Pemberton que o resultado desse empenho ganha ainda mais eficiência. A trilha sonora de Jean-Benoit Duckel usa dinâmicas suficientes para equilibrar sobriedade e agilidade, com o acréscimo de canções espirituosas como “Royals” da cantora Lorde, ilustrando uma abertura provocativa bem humorada. Apesar do tamanho e fonte dos caracteres que identificam os depoentes serem pouco legíveis, suas intervenções são cirúrgicas e ajudam a entender o ponto nevrálgico que o economista propõe: o temor de que o mundo regresse a condições semelhantes ao capitalismo dos séculos 18 e 19 em função do aprofundamento crescente da desigualdade. Cada vez menos super ricos acumulam a renda de cada vez mais humanos empobrecidos. A questão é onde isso levará a humanidade.
Pode-se concordar ou discordar, total ou parcialmente das teses de Thomas Piketty. Todavia, o fato é que o documentário sintetiza as ideias centrais de seu formidável livro e assim amplifica o alcance do debate. E como precisamos debater Economia no mundo de hoje, ainda mais diante dos cenários sombrios que se formam.
“O Capital no Século 21” está disponível para aluguel ou compra nas plataformas digitais.
Nota: 9,5.
Confira o trailer de “O Capital no Século 21”:
Ouça o episódio analisando “O Capital no Século 21”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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