Por Alexandre Gonzaga
O velho padrão da televisão passa por uma das maiores transformações de sua história. A mudança não acontece por acaso. Com a audiência da TV aberta em queda e a concorrência crescente das plataformas digitais, os grandes grupos de comunicação, detentores da exploração de emissoras de TV, correm para se adaptar a uma geração que consome conteúdo de maneira completamente diferente, longe do sofá da sala, deitada e segurando a tela do celular.
Uma nova geração consome conteúdo com um novo linguajar e em ritmo acelerado, sem impostação de voz e formalidades. Até mesmo os erros são corrigidos com gargalhadas.
A máxima “desculpe a nossa falha”, que durante décadas simbolizou a televisão brasileira, era a expressão de um modelo de comunicação solene, controlado e distante do público. Hoje, porém, ela parece pertencer a outra era.
Em seu lugar entram a espontaneidade, a informalidade e uma linguagem cada vez mais próxima das redes sociais, especialmente no jornalismo esportivo. Nesse cenário, o sucesso da CazéTV tornou-se uma referência impossível de ignorar.
Durante a Copa do Mundo de 2026, as emissoras de TV têm aproveitado a exposição do torneio para testar formatos, linguagens e apresentadores. Profissionais experientes, como o ex-jogador Denílson e o jornalista Alex Escobar, passaram a aparecer diante das câmeras em trajes informais, incluindo bermudas, rompendo com a imagem associada à tradicional alfaiataria de terno e gravata ou às calças cáqui e camisas de manga longa no estilo Rip Stop ou Outdoor.
Ao mesmo tempo, novos rostos ganham espaço. Jovens comunicadores entram em cena com uma linguagem mais próxima das redes sociais, gestos espontâneos e um estilo que frequentemente os aproxima mais dos torcedores do que dos apresentadores convencionais.
Em alguns momentos, a fronteira entre fonte, comentarista e torcedor parece menos rígida. A estratégia busca reduzir a distância entre quem transmite e quem assiste.
A aposta tem um alvo claro: os jovens. Trata-se de uma geração que cresceu consumindo vídeos pelo celular e que, em muitos casos, nunca desenvolveu o hábito de sentar diante da televisão para acompanhar a programação aberta.
Para esse público, a voz empostada dos locutores tradicionais e o excesso de formalidade soam artificiais e pouco autênticos. Essa moçada assiste a praticamente tudo pela tela do smartphone, muitas vezes deitada na cama, navegando simultaneamente entre vídeos, redes sociais e aplicativos de mensagens.
Outro exemplo dessa tendência de descontração foi a presença marcante de Diogo Defante na cobertura da Copa do Mundo de 2022 pela CazéTV, no Catar, com um estilo espontâneo e pela capacidade de encontrar situações inusitadas que rapidamente repercutiram nas redes sociais. Ele retorna ao canal na edição de 2026 do Mundial de Futebol.
O marco dessa corrida por novos formatos e linguagens ocorreu em setembro de 2025, quando a Globo transmitiu no YouTube, por meio da recém-lançada GE TV, a partida entre Brasil e Chile pelas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo.
O movimento representou uma inflexão estratégica da emissora ao levar transmissões esportivas ao vivo para uma plataforma dominada por criadores de conteúdo e novas formas de comunicação.
A iniciativa coloca a Globo em rota de competição direta com a CazéTV, comandada por Casimiro Miguel. O fenômeno digital que hoje desafia as gigantes da televisão nasceu de forma improvisada, dentro de um quarto, durante a pandemia de Covid-19. Poucos anos depois, a plataforma alcançou um feito impensável para um projeto independente: será a única emissora brasileira a transmitir todos os jogos da Copa do Mundo de 2026.
Por trás da marca estão os sócios de Casimiro, Sergio Lopes e Edgard Diniz. A parceria construída ao longo de mais de uma década resultou em um modelo de negócios praticamente inédito no Brasil, misturando entretenimento, jornalismo esportivo, influenciadores digitais, transmissões ao vivo e intensa interação com o público nas plataformas digitais.
Casimiro é quem dá o tom da operação. Seu estilo descontraído, o vocabulário típico das redes sociais e a capacidade de transformar transmissões em conversas informais ajudaram a construir uma audiência fiel. Cerca de 80% do público da plataforma tem menos de 44 anos, um perfil que tradicionalmente se afasta da televisão aberta.
As emissoras tradicionais perceberam esse movimento. Por isso, a adaptação não se limita ao esporte. Por exemplo, a joia da coroa da TV Globo, as novelas, também passa por transformações para dialogar com um público acostumado à velocidade das redes sociais e ao consumo fragmentado de conteúdo.
Roteiros mais dinâmicos, cenas pensadas para repercutir nas plataformas digitais e estratégias de engajamento online fazem parte da tentativa de manter a relevância diante de uma geração que usa o smartphone para se divertir, se informar e se relacionar com o mundo.
Mais do que uma disputa por audiência, o que está em curso é uma disputa por linguagem. As emissoras de TV entenderam que não basta estar no streaming; é preciso falar a língua de quem nasceu na era digital.
As empresas de comunicação, que durante décadas ensinaram o Brasil a assistir televisão, agora tentam aprender com uma geração que praticamente trocou o sofá da sala pela tela do celular.
No fundo, a questão não é tecnológica, mas cultural. O público mudou seus hábitos, seu vocabulário e sua forma de consumir informação e entretenimento. Para continuar relevante, a televisão precisa deixar de falar de cima para baixo e passar a conversar de igual para igual. A informalidade, antes vista como ameaça à credibilidade, tornou-se uma ferramenta de sobrevivência.
O diferencial está cada vez menos na tecnologia ou no alcance da distribuição e cada vez mais na capacidade de compreender os hábitos de consumo e falar a linguagem do público.
Na disputa entre a televisão tradicional e as plataformas digitais, a moeda mais valiosa do futuro pode não ser apenas a audiência, mas a capacidade de criar conexões genuínas com quem está do outro lado da tela. Mais do que atrair milhões de espectadores ao mesmo tempo, o desafio passa a ser oferecer conteúdos segmentados, personalizados e distribuídos em múltiplas plataformas, capazes de dialogar com diferentes perfis de consumidores.
Na minha percepção, trata-se de um caminho sem volta. O processo começou quando grandes grupos de comunicação consideraram positiva a extinção da exigência do diploma de Jornalismo, apostando na possibilidade de contratar celebridades, especialistas e profissionais de diferentes áreas para ocupar espaços tradicionalmente destinados aos jornalistas.
Não adianta chorar pelo leite derramado. Esse movimento acabou, de certa forma, abrindo espaço para um fenômeno ainda mais amplo.
A flexibilização também contribuiu para a ascensão das redes sociais e para o surgimento de canais produzidos por pessoas comuns, mas com talento para a comunicação, boa capacidade de expressão e habilidades de oratória. Em outras palavras, ao acreditarem que estavam ampliando suas possibilidades e fortalecendo seus próprios interesses, os grandes grupos de comunicação acabaram contribuindo para a formação de um ecossistema que, anos depois, se tornaria um concorrente relevante e transformaria profundamente o mercado da informação.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
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