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O Assunto é Cinema – Analisando Acampamento Miasma

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h, no Spotify do Assunto é Cinema.

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O Assunto é Cinema analisa “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”, filme dirigido por Jane Schoenbrun. A trama acompanha a jovem cineasta Kris Williams, uma diretora escalada para o remake do clássico “Acampamento Miasma”, um filme de terror slasher que gerou uma longa franquia que atualmente se encontra no limbo. Sua escalação vem depois de sua estreia com um longa independente de horror que discutia o gênero a partir de uma perspectiva queer, algo que os atuais donos da saga enxergam como uma forma lucrativa de ressuscitar a franquia.

A diretora é fã da saga do acampamento desde o dia em que assistiu escondida na infância o filme original, protagonizado pela atriz Billy Presley. A atuação de Billy marca Kris de uma forma que ela ainda não entende, mas que o processo em busca da trama ideal para o remake fará com que ela tenha que encarar o passado ao encontrar a veterana atriz do primeiro filme. O remake de “Acampamento Miasma” vai aos poucos se tornando uma jornada intimista que lida com os clichês do cinema de terror para apresentar uma história sobre aceitação e descoberta.

A cultura woke é um tema bastante discutido e criticado em Hollywood depois que muitos críticos passaram a apontar um direcionamento aparentemente excessivo dos estúdios para temas e abordagens que foquem na geração Z. Seja qual for o entendimento da questão, fato é que os estúdios têm se posicionado estrategicamente de modo a buscar se adequar aos valores de uma agenda mais ampla e isso implica em buscar realizadores que se identifiquem com temas ligados à diversidade. Para se ter uma ideia, no mundo dos games, a empresa Sweet Baby Inc. tem sido alvo de acusações desde que foi apontada como responsável por revisar roteiros de jogos, justamente por revisar ou extrair elementos que não estejam de acordo com a criticada agenda woke.

“Acampamento Miasma” discute a questão com elegância ao contrapor uma cineasta da geração Z com uma atriz da geração X, colocando ambas as visões de mundo em choque. Enquanto Kris é apresentada como uma jovem desconstruída que vive uma relação poliamorosa sem imposição de contato físico, Billy é retratada como a excêntrica atriz deslocada em um mundo que decidiu seguir em frente sem ela, tal como uma Norma Desmond. A analogia com a protagonista do clássico “Crepúsculo dos Deuses” (1950) é destacada em vários momentos, deixando claro como o roteiro da diretora Jane Schoenbrun sempre referencia o cinema, acima da trama.

Uma sequência bastante peculiar é a reunião de Kris com os produtores do novo filme, executivos que não dão a mínima para o que a jovem diretora tem a propor para a franquia, só querendo saber se tudo estará de acordo com a agenda woke, sem se importar tanto com os fãs mais velhos. Em um dado momento, uma piada com a nova trilogia “Halloween” é feita, ironizando aqui uma franquia que seguiu esse caminho com resultados bastante questionáveis no final. Essa abordagem chega a ser quase didática ao ilustrar o cinismo de Hollywood com questões tão importantes, mas que no fim das contas, viram mais um fator demográfico na produção dos filmes.

A dinâmica entre a atriz Hannah Einbinder como a diretora Kris Williams e a veterana Gillian Anderson como a reclusa atriz Billy Presley é espontânea. Gillian Anderson parece se divertir com seus longos e sugestivos monólogos deixando o espectador com a impressão de que ela a qualquer momento vai surtar e fazer algo inesperado. Já a jovem Hannah Einbinder é contida, um tanto quanto reprimida como Kris Williams, uma personagem que não faz ideia dos problemas que têm a superar. O conflito geracional entre as duas acaba sendo suavizado pela jornada de descoberta da jovem que precisa voltar ao passado para amadurecer e superar suas crises.

Ainda que o longa seja repleto de exageros estéticos e personagens estereotipados, nada é gratuito em “Acampamento Miasma”. A abertura nostálgica que reconta o sucesso da franquia fictícia ao ocaso nas telas é um exemplo de como o longa entende que a sátira é um caminho inteligente para se discutir os problemas de todo um subgênero do terror. O mesmo vale para as cenas do filme dentro do filme, quando o espectador pode assistir o assassino “Little Death” em todo seu esplendor, deixando um rastro bastante exagerado de sangue pelo acampamento antes de alcançar a personagem de Billy Presley. A epifania geracional que envolve morte e sexo é o ápice de um filme que discute com competência temas delicados, sem levar tudo tão a sério.

“Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” está disponível no serviço de streaming Mubi.

Nota: 9.

Confira o trailer de “Acampamento Miasma”:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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