A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) referente ao mês de outubro, divulgada pela Fecomércio-MS, acendeu um sinal de alerta para o orçamento das famílias campo-grandenses. De acordo com o levantamento, 65,4% dos lares da Capital estão endividados e 29,4% já possuem contas em atraso. Entre as dívidas mais comuns, o cartão de crédito lidera isoladamente, aparecendo em 68% dos casos.
A pesquisa mostra ainda que a renda mensal das famílias está comprometida, em média, em 28,7%, e o atraso médio das contas chega a 69 dias. O cenário preocupa porque 13,6% dos entrevistados afirmam não ter condições de pagar as dívidas já no próximo mês, enquanto 35% projetam permanecer endividados por mais de um ano.
Para analisar o que esses números revelam sobre o consumo na Capital, a coordenadora da pesquisa em Mato Grosso do Sul, Regiane Dedé de Oliveira, economista do Instituto de Pesquisa da Fecomércio-MS, conversou com a reportagem. O colunista Aldo Barrigosse, o “GPS da Economia”, também participou da discussão.
Confira:
Famílias de menor renda são as mais vulneráveis
O recorte por faixa de renda expõe a desigualdade na estrutura do endividamento em Campo Grande. Entre as famílias que ganham até dez salários mínimos, a taxa de endividamento sobe para 68,9%, e 18,5% se declaram “muito endividadas”.
Segundo Regiane, essa diferença mostra que as famílias com menor renda têm menos margem para absorver aumentos de preços e imprevistos, recorrendo com maior frequência ao crédito rotativo ou parcelado. “Quando a renda está comprometida por dívidas, o risco é perder o controle financeiro rapidamente”, afirmou.
Endividamento de longo prazo afeta saúde financeira e bem-estar
A Peic também indica que cerca de 53% das famílias têm entre 11% e 50% da renda comprometida com dívidas — um dado que, segundo especialistas, tem impacto direto na qualidade de vida.
O endividamento prolongado, especialmente em modalidades com juros elevados, como o cartão de crédito, limita a capacidade das famílias de planejar gastos essenciais, como educação dos filhos, lazer, construção de reserva de emergência e até a aposentadoria. “É um ciclo que compromete não apenas o presente, mas o futuro financeiro”, destaca a economista.
Para quem já está no atraso: o que fazer?
Para os 29,4% de consumidores com contas atrasadas — e especialmente para os 13,6% que afirmam não conseguir pagar as dívidas em novembro — a orientação da Fecomércio é clara: é preciso priorizar as dívidas com juros mais altos.
Na prática, isso significa que o pagamento do cartão de crédito deve ser priorizado em relação a outras dívidas, como carnês ou financiamentos, já que o rotativo do cartão é um dos mais caros do mercado. A recomendação é buscar renegociação imediata, evitando que os juros transformem a dívida em bola de neve.
Como retomar o poder de compra
De uma perspectiva econômica, a saída envolve três frentes:
- Diagnóstico financeiro realista – identificar todas as dívidas, juros e prazos.
- Renegociação e priorização – começar pelas dívidas mais caras e reorganizar parcelas.
- Readequação do padrão de consumo – ajustar gastos ao orçamento até recuperar margem financeira.
Regiane reforça que o restabelecimento do poder de compra passa por disciplina, renegociação e reconstrução gradual da capacidade de poupança. “O objetivo é fazer a renda voltar a trabalhar a favor da família, e não contra ela”, conclui.
Deixe um comentário