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COP 15: Campo Grande no centro do mundo

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Por Sérgio Carvalho

Campo Grande, por alguns dias, deixa de ser apenas um ponto no mapa do Brasil para se tornar ponto de convergência do mundo. Não por acaso. Entre os dias 23 e 29 de março de 2026, a capital sul-mato-grossense recebe a COP15 das Espécies Migratórias, uma conferência que, à primeira vista, fala sobre animais que atravessam continentes. Mas, no fundo, fala sobre nós. Sobre limites, fronteiras e, sobretudo, responsabilidade compartilhada.

Estive nesta quarta-feira, 18 de março, na coletiva de imprensa do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Um daqueles encontros que, mais do que informar, ajudam a compreender o que está em jogo antes mesmo da abertura oficial.

João Paulo Capobiamco – presidente da COP15

Antes do início da conferência, Campo Grande já se torna palco de decisões estratégicas. Estão previstas duas reuniões fundamentais: uma ministerial e outra do chamado segmento de alto nível, que reúne chefes de Estado ou seus representantes. Em outras palavras, o que começa aqui não é apenas um debate técnico, mas um exercício diplomático de escala global.

Durante a coletiva, o governo brasileiro lançou um desafio que revela o tamanho da ambição desta COP15: ampliar o número de países signatários da Convenção sobre Espécies Migratórias, hoje com 133 nações. Mais do que números, o objetivo é ampliar o compromisso. Porque, quando falamos de espécies migratórias, falamos de vidas que não reconhecem fronteiras políticas, mas sofrem diretamente com elas.

Outro ponto central está na análise de documentos herdados da COP14, realizada em 2024, na cidade de Samarcanda, no Uzbequistão. São 11 documentos que agora ganham continuidade, além de 16 novas propostas que devem orientar as decisões dos próximos anos.

É aqui que a COP deixa de ser um evento e passa a ser um processo. Há quem ainda enxergue essas conferências como encontros distantes, restritos à diplomacia. Mas a verdade é mais concreta. Cada decisão tomada atravessa cadeias produtivas, políticas públicas, legislações ambientais e, inevitavelmente, a vida cotidiana.

No caso de Mato Grosso do Sul, essa conexão é ainda mais evidente. Estamos entre o Pantanal e o Cerrado, dois biomas que funcionam como corredores naturais de espécies migratórias. O que se decide dentro de uma sala de conferência ecoa diretamente nos rios, nas planícies alagadas, nas rotas invisíveis percorridas por aves, peixes e mamíferos.

A COP15, portanto, não começa no dia 23. Ela já começou. Nos bastidores, nas articulações, nas falas que, cuidadosamente, constroem consensos possíveis em um mundo cada vez mais fragmentado. E talvez seja esse o maior desafio: construir cooperação em tempos de conflito.

Campo Grande recebe o mundo. Mas, desta vez, não apenas como anfitriã. Recebe como território de relevância estratégica, como símbolo de biodiversidade e, sobretudo, como espaço onde decisões globais ganham contorno local.

No fim das contas, proteger espécies migratórias é entender que a vida não respeita fronteiras. E que talvez esteja aí a maior lição dessa conferência: ou aprendemos a cooperar, ou assistiremos, em silêncio, ao desaparecimento de tudo aquilo que insiste em atravessar o mundo para sobreviver.

Sérgio Carvalho – jornalista, roteirista e analista socioambiental

Foto-AgênciaBrasil

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