Cultura

Crônica: “Sobre abóboras e carambolas” – por Theresa Hilcar

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Como o leitor já deve ter adivinhado, a cronista — que nasceu nos anos 50 — escreve sob o ponto de vista da chamada “terceira idade”, expressão que a sociedade passou a usar exaustivamente a partir dos anos 70, e que nada mais é do que uma jogada de marketing. Afinal, velhinhos ou idosos também são consumidores potenciais. Mas isso é papo para outra crônica.

Por ora, quero falar de algo que incomoda muita gente — e a mim, sobremaneira: o uso excessivo e indiscriminado do palavrão. Aliás, em um artigo recente e glorioso, o jornalista Ruy Castro escreveu: atualmente, palavrão é vírgula. Ou seja, usa-se como se fosse parte intrínseca de uma frase.

E não é de hoje que tenho birra de palavrão. Talvez por ter crescido num ambiente onde ninguém, em casa, proferia palavras de baixo calão (expressões que pertencem a uma linguagem obscena ou grosseira). No ensino médio, em uma tentativa de chamar a atenção da professora e fazer graça para os colegas, falei “M” na sala de aula. Resultado: ganhei castigo nas duas instâncias de poder — na escola e em casa.

Foi nessa época que a vizinha me ensinou um truque, uma saída para aquelas horas em que dava vontade de xingar alguém ou algum evento — como uma topada dolorosa na parede. Em vez de expressar a raiva ou a dor com uma palavra feia, a gente gritava o nome de um legume ou fruta. “Ai, que abóbora, meu Deus!” Ou, minha favorita: “Carambola!” Às vezes não era lá muito eficiente, mas era divertido.

Hoje em dia, um bom truque seria lembrar o significado da palavra em questão. Eu, por exemplo, quando ouço um daqueles frequentes “P”, imediatamente visualizo a cena. Sim, eu sei, é um horror. Mas horror maior é escutar expressões que, a meu ver, não têm nenhuma lógica. Ou vão me dizer que a palavra começada com “C” tem o poder de melhorar uma situação ou aliviar o estresse?

Mas, se antes o palavrão era restrito a alguns grupos ou lugares específicos, hoje virou parte do vocabulário. Sinto uma tristeza imensa ao ver jovens, aparentemente bem-educados, praticando, com aparente orgulho e satisfação, o que eles chamam de ato de liberdade. E o que dizer das figuras públicas? É cada vez mais comum ouvi-las dizendo impropérios. Shame on you, guys! Celebridades também são useiras e vezeiras nesse hábito deselegante. Para todos, a saída honrosa seria adotar outro hábito (construtivo): o da leitura. De livros, bem entendido.

Entre quatro paredes e para desabafar alguma angústia, desprazer ou dor, eu falo, sim. Falo aquele “M” lá do início. Mas só porque tenho certeza de que serei absolvida em todas as instâncias. Inclusive na minha consciência. O mundo à nossa volta já está poluído demais, com tantas ofensas e violências gratuitas. “Não aumente o lixo”, diz o livro Cuss Control.

Faça sua parte em limpar o ambiente verbal. E isso não é coisa de velho — é coisa de gente bem-educada.

Theresa Hilcar

Imagem IA

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