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Da arena romana à tela: os reality shows e a decadência social

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Por Alexandre Gonzaga

Os reality shows se consolidaram como uma arena eletrônica tão perversa quanto o Coliseu romano, na qual a exposição da tragédia humana e do pior lado do comportamento social é transformada em entretenimento de massa. Ainda que o gênero tenha se expandido para formatos aparentemente inofensivos, como culinária, relacionamento e moda, sua lógica central permanece intacta: isolar indivíduos, restringir recursos, impor regras rígidas e submetê-los a um regime permanente de vigilância, pressão psicológica, julgamento público e humilhações, como ocorre em programas de competição gastronômica.

Esse modelo não é fortuito. Ele dialoga diretamente com simulações utilizadas em treinamentos militares de resistência, baseadas no confinamento, na escassez e no estresse prolongado como instrumentos para testar limites físicos e emocionais. No universo televisivo, esses mesmos mecanismos são reaproveitados e espetacularizados, convertendo desgaste psicológico em narrativa e sofrimento em audiência.

Antes de ingressarem nesses programas, os participantes passam por seleções rigorosas, com questionários extensos, entrevistas e avaliações psicológicas. No entanto, uma vez confinados, o ambiente fechado atua como um amplificador das tensões sociais já presentes fora da casa. Preconceitos estruturais emergem de forma crua e recorrente: etarismo, misoginia, racismo, discriminação de classe (pipoca e camarote) e outras formas de violência simbólica passam a integrar o cotidiano do espetáculo.

À medida que o jogo avança, o conteúdo frequentemente mergulha em uma espiral de hostilidade, baixaria e degradação moral que se aproxima de um verdadeiro flagelo humano. Conflitos são incentivados (sincerão), fragilidades são exploradas e o desgaste emocional se torna parte do produto. O sofrimento deixa de ser um efeito colateral e passa a ocupar o centro da narrativa.

O público assume papel ativo nesse processo. Vota, julga, condena e absolve em um ritual coletivo esquizofrênico que ecoa práticas de antigas civilizações em declínio. Assim como no Coliseu romano, onde a multidão decidia o destino dos gladiadores, a plateia contemporânea participa da punição simbólica, misturando indignação moral com prazer voyeurístico.

Esse empobrecimento do conteúdo não se limita aos realities, mas se estende à própria organização da grade da TV aberta, especialmente nos horários em que pessoas comuns, trabalhadores e famílias conseguem assistir televisão. Programas de tom reflexivo, intelectual ou voltados à análise de notícias são sistematicamente empurrados para faixas tardias, quase sempre após as 22 horas, quando grande parte da população já está exausta ou simplesmente não consegue acompanhar.

O horário nobre, que poderia cumprir um papel formativo e informativo mais consistente, é ocupado majoritariamente por produtos de apelo fácil, narrativas rasas e formatos que apostam no conflito, na exposição e na repetição de estereótipos. Nos fins de semana, o cenário se agrava: a programação chega a níveis verdadeiramente deploráveis, marcada por atrações que flertam com o sensacionalismo e a vulgarização, subestimando a inteligência do telespectador.

Até mesmo programas musicais, historicamente queridos pelo público e capazes de promover diversidade cultural e memória afetiva, são relegados a horários tardios. Paradoxalmente, são justamente as competições musicais que envolvem adultos, pessoas com mais de 50 anos e crianças que ainda conseguem escapar dessa lógica predatória e preservar algum sentido de celebração, talento e encontro entre gerações. São, em grande medida, os únicos formatos que ainda salvam a ideia de competição na televisão aberta.

Costumo brincar comigo mesmo dizendo que só não acerto os números da Mega-Sena acumulada. Ainda assim, diante do nível de violência simbólica e psicológica presente nesses programas, não é difícil prever o dia em que o Ministério Público baterá às portas desses estúdios. Trata-se de um entretenimento raso, um lixo cultural incapaz de expor a positividade humana, o diálogo qualificado ou discussões elevadas que contribuam, de fato, para o debate social.

O que se vê é um alto grau de preconceito naturalizado. A lógica dominante sugere que apenas corpos cultuados, padronizados e moldados segundo um ideal estético específico merecem visibilidade ou chances reais de vitória. Participantes com mais de 50 anos são raros e, quando aparecem, costumam ser escanteados, ridicularizados e previamente rotulados como fracos, ultrapassados ou incapazes de competir em igualdade de condições.

Nesse contexto, a diversidade exibida por esses formatos revela-se frequentemente superficial. Em declarações feitas por volta de novembro de 2025, o ator Samuel de Assis chamou atenção para esse problema ao criticar a inclusão meramente estética de pessoas negras na teledramaturgia brasileira. Para ele, a representatividade só se torna real quando pessoas negras criam, escrevem e conduzem as narrativas, e não apenas ocupam espaços diante das câmeras em histórias concebidas sob uma perspectiva branca.

A reflexão se aplica diretamente aos reality shows. Não basta maquiar o formato oferecendo espaço para participantes negros, algo que seria não apenas correto, mas indispensável em uma sociedade majoritariamente negra como a brasileira. Quando o enredo, as regras do jogo e a condução editorial permanecem ancorados em valores excludentes, o resultado é a reprodução de maus exemplos de comportamento, atitudes discriminatórias, exclusão sistemática e manifestações de homofobia, muitas vezes naturalizadas como parte do espetáculo.

 A televisão foi criada, ao longo do século 20, com um propósito claro: informar, educar e promover cultura. Durante décadas, cumpriu um papel central na formação social, na difusão do conhecimento e no fortalecimento da cidadania.

Ao abdicar dessa missão em favor de audiência fácil e lucro rápido, a TV aberta se distancia de sua função pública e contribui para o empobrecimento do debate coletivo. O que também causa espanto é ver grandes marcas associarem seus produtos e imagens a esse verdadeiro show de horrores, legitimando e financiando formatos que exploram a violência simbólica e a degradação humana como entretenimento.

Resgatar a centralidade da cultura e da educação na televisão não é saudosismo, mas uma necessidade urgente. Em uma sociedade marcada por desigualdades, intolerâncias e crises de sentido, a comunicação de massa deveria servir como espaço de diálogo, aprendizado e valorização da diversidade humana. Sem isso, a arena eletrônica seguirá apenas reproduzindo, em alta definição, os sinais de uma decadência que a própria história já ensinou a reconhecer.

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

Imagem gerada por I.A

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