Depois de décadas de redução contínua, o número de fumantes voltou a crescer no Brasil. O movimento tem chamado a atenção de autoridades de saúde e especialistas, principalmente por ocorrer após anos de campanhas antitabagismo consideradas referência mundial. Os dados mais recentes mostram que a prevalência do tabagismo aumentou entre adultos brasileiros, interrompendo uma trajetória histórica de queda observada desde os anos 1990.
A repórter Neli Terra tem mais informações. OUÇA:
O país já foi considerado um dos maiores casos de sucesso no controle do tabagismo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, a proporção de fumantes caiu de cerca de 35% da população adulta no fim da década de 1980 para aproximadamente 9% em anos recentes. A redução foi resultado de medidas como a proibição de propaganda de cigarros; advertências nas embalagens; ambientes livres de fumaça; aumento de impostos e campanhas educativas.
Os levantamentos mais recentes indicam que a redução do tabagismo desacelerou e, em alguns grupos, houve crescimento do consumo. Especialistas apontam que o avanço dos cigarros eletrônicos e dispositivos de vape pode estar contribuindo para esse cenário. Embora a venda desses produtos permaneça proibida no Brasil, o consumo aumentou, principalmente entre jovens e adultos jovens.
Pesquisas mostram que muitos usuários de cigarros eletrônicos nunca haviam fumado cigarros convencionais. Isso preocupa especialistas porque a nicotina continua sendo uma substância altamente viciante. Além disso, parte da população acredita, de forma equivocada, que os dispositivos eletrônicos seriam inofensivos ou muito menos prejudiciais.
Segundo o Inca, o tabagismo é responsável por cerca de 161 mil mortes por ano no Brasil. A doença está associada a dezenas de problemas de saúde, incluindo câncer de pulmão, de boca e de laringe, infarto, acidente vascular cerebral, doença pulmonar obstrutiva crônica e enfisema pulmonar.
Além dos danos à saúde, o cigarro gera custos elevados para o sistema de saúde. Estudos apontam que as despesas médicas e perdas de produtividade relacionadas ao tabagismo custam dezenas de bilhões de reais por ano ao país.
Especialistas acompanham com atenção a evolução do consumo entre mulheres e adolescentes. Historicamente, campanhas de prevenção conseguiram reduzir significativamente a iniciação ao cigarro, mas os novos dispositivos eletrônicos criaram desafios adicionais para as políticas públicas.
Médicos lembram que os benefícios da interrupção do tabagismo começam poucas horas após o último cigarro. Com o passar do tempo, diminuem os riscos de doenças cardiovasculares, câncer e problemas respiratórios. Um estudo recente publicado na revista científica Nature Medicine mostrou que abandonar o cigarro na meia-idade também ajuda a desacelerar o declínio cognitivo associado ao envelhecimento.
O crescimento do número de fumantes não significa uma reversão completa dos avanços obtidos nas últimas décadas, mas funciona como um sinal de alerta. Especialistas defendem reforço das campanhas educativas, ampliação da fiscalização sobre cigarros eletrônicos e fortalecimento dos programas de cessação do tabagismo. A experiência brasileira mostra que é possível reduzir o consumo de tabaco. O desafio agora é evitar que uma nova geração desenvolva dependência da nicotina em formatos diferentes daqueles que marcaram o passado.
Imagem gerada por I.A
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