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O Assunto é Cinema – Revisitando Assassinos por Natureza

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

Até que ponto a violência pode ser idolatrada? E o quanto as mídias de massa contribuem para essa glorificação? E o mais intrigante: o quanto mídias digitais e a lógica algorítmica de hoje colaboram para que a violência se torne algo naturalizado no dia a dia? São perguntas suscitadas há muito tempo e que movem a trama de um filme que, à primeira vista, pode soar como uma celebração da barbárie. Porém, o que o diretor Oliver Stone parece ter buscado a partir do roteiro de um jovem Quentin Tarantino, foi o que sempre soube fazer de melhor: criticar estruturas da sociedade americana. No caso de “Assassinos por Natureza”, colocar os protagonistas como metáforas da banalização do mal que se alastra especialmente na juventude dos EUA. Banalização que, na realidade, é fruto de um processo construtivo desenvolvido sob a tutela de instituições públicas e privadas do país.

“Assassinos por Natureza” conta a história de Mickey e Mallory Knox, psicopatas que atravessam os EUA deixando rastros de mortes brutais, mas sempre preservando alguém vivo para contar suas histórias. O casal é descoberto pela equipe de Wayne Gale, apresentador do “American Maniacs”, programa de TV sensacionalista. Ele transforma a jornada de Mickey e Mallory em um espetáculo midiático de audiência meteórica. O filme adota a estrutura do road movie, gênero amado pelo cinema hollywoodiano como ode à liberdade individual. No entanto, ele perverte esse princípio ao atrelar a ideia pretensamente libertária do gênero às sangrentas atrocidades do casal. A utilização dessa gramática somada ao argumento “romântico” de um homem e uma mulher que se amam tanto que compartilham os mesmos impulsos mortíferos é uma das excelentes sacadas do longa.

“Assassinos por Natureza” tem uma montagem sagaz que caminha no ritmo da jornada de estrada de Mickey e Mallory. Uma colagem ousada e bem arquitetada guia nosso olhar por cenas caleidoscópicas, com direito a flashes de animações e toques de surrealismo, para alcançar o fundo da mente, especialmente na primeira parte, quando os protagonistas são apresentados. A partir do segundo momento, quando as estruturas institucionais estadunidenses entram em cena, com ênfase na imprensa, o ritmo não decai e novos personagens são inseridos com precisão. Reside aí mais uma provocação. O enredo se desloca para Wayne Gale, com todo seu espalhafato, que, por sua vez, arrasta o sistema de segurança dos EUA, simbolizado pelo degenerado detetive corrupto Jack Scagnetti e pelo pitoresco diretor penitenciário Warden McClusky. Uma maneira de afirmar o quanto o braço armado do Estado americano se move de acordo com os ventos da mídia na busca por holofotes. A ridicularização dos personagens policiais não é somente entretenimento gratuito. É sarcasmo de alta combustão política.

Quanto às atuações, o elenco corresponde às expectativas. Woody Harrelsson e Juliette Lewis entregam performances explosivas ao interpretar o apaixonado par de assassinos impiedosos que conduz o longa. Batendo na fronteira do excesso caricato, a satirização que imprimem a seus personagens é crucial para a crítica que norteia o filme. Vale destacar ainda Robert Downey Jr. com seu Wayne Gale tão alucinado por audiência que não teme o ridículo e menospreza o perigo quando concede palco midiático a dois criminosos incorrigíveis. Tom Sizemore e Tommy Lee Jones acertam em cheio nas representações do sistema policial e prisional dos EUA com personagens repletos de deboches contundentes. Outro detalhe fundamental é a trilha sonora de Trent Reznor e Nine Inch Nails que se alterna com canções de indie-rock distribuídas cirurgicamente na colagem de cenas que cadencia o longa.

“Assassinos por Natureza” é um filme perturbador e provocativo que pode parecer uma apologia à violência sem freios. Porém, é justamente esse deslimite o centro da crítica a uma sociedade cujas estruturas não apenas falham ao permitir, como, muitas vezes, encorajam e tiram proveito dessa brutalização. A acidez, com toques de diversão sombria, se desenvolve numa dinâmica que prende a atenção, abala sentimentos e causa reflexões oportunas, inclusive sobre as atuais relações com a violência. É nítido o quanto o ódio e a brutalização do indivíduo são combustíveis poderosos para a turbinagem de perfis em redes sociais. Por isso, empresas de tecnologia, as bilionárias big techs, que administram essas ferramentas, configuram algoritmos para potencializar essas características. Então, filmes como “Assassinos por Natureza” são emblemáticos ao lançar mão dos exageros para alegorizar não apenas a violência como moléstia social, mas como construção necessária para que as estruturas da sociedade se mantenham intactas e nocivas.

Por tudo isso, é um longa-metragem para ser assistido com estarrecimento, mas o choque deve ser direcionado ao que está subentendido: a violência é uma construção estrutural. Mesmo que o final pareça disruptivo, com o “final feliz” de Mickey e Mallory na estrada com um filho, após matarem Wayne Gale, ele apenas mostra que o sistema que mantém a barbárie venceu, mesmo com o sacrifício de um de seus agentes. É famoso “entregar a mão para salvar o braço” garantindo a perpetuidade da estrutura que precisa da violência para manter o controle sobre as pessoas.

“Assassinos por Natureza” está disponível na Amazon Prime Video.

 

Nota: 9,0.

Confira o trailer de “Assassinos por Natureza”:

 

Ouça o episódio revisitando “Assassinos por Natureza”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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