O saneamento básico continua como um dos maiores desafios estruturais do Brasil. Dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, SNIS, mostram que cerca de 84% da população brasileira tem acesso à água tratada. O índice cai quando o assunto é esgoto. Apenas pouco mais de 55% do esgoto gerado no país recebe tratamento adequado.
Isso significa que quase metade do esgoto brasileiro ainda é lançado na natureza sem tratamento. Rios urbanos seguem contaminados. Áreas periféricas enfrentam riscos sanitários permanentes. A desigualdade aparece no mapa do saneamento.
Regiões do Sudeste e do Sul concentram os melhores índices. Estados como São Paulo e Paraná apresentam cobertura elevada de coleta e tratamento. O Norte e parte do Nordeste registram os piores indicadores. Em alguns estados da Região Norte, menos de 20% do esgoto recebe tratamento.
O impacto econômico é direto. O Instituto Trata Brasil estima que a falta de saneamento custa bilhões de reais por ano ao país em despesas com saúde, perda de produtividade e desvalorização imobiliária. Doenças relacionadas à água contaminada pressionam o sistema público de saúde. Internações por diarreia e infecções intestinais ainda ocorrem com frequência em municípios vulneráveis.
O novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu metas ambiciosas. A lei prevê universalização do acesso à água potável e 90% de cobertura de esgoto até 2033. O modelo busca ampliar a participação privada e exigir metas contratuais mais rígidas das concessionárias.
Desde então, leilões regionais atraíram bilhões em investimentos. Dados do Ministério das Cidades apontam crescimento nos contratos firmados após o marco regulatório. O ritmo ainda precisa acelerar para cumprir as metas.
Campo Grande surge como exemplo de avanço consistente. A capital de Mato Grosso do Sul alcançou cerca de 94% de cobertura de coleta e tratamento de esgoto, segundo dados divulgados pela concessionária local e confirmados pelo SNIS. O índice supera a média nacional com ampla margem.
O resultado reflete planejamento de longo prazo e investimentos contínuos. A cidade consolidou rede de coleta, ampliou estações de tratamento e manteve metas contratuais claras. A cobertura elevada impacta diretamente indicadores de saúde pública e qualidade ambiental.
O contraste com outras capitais é evidente. Municípios da Região Norte enfrentam limitações de infraestrutura, dispersão populacional e dificuldades logísticas. A baixa arrecadação municipal também reduz capacidade de investimento.
O saneamento dialoga com urbanização, renda e gestão pública. Onde há planejamento integrado, os indicadores avançam. Onde faltam recursos e governança, os números estagnam.
Especialistas apontam que a universalização é possível, mas depende de segurança jurídica, financiamento estável e fiscalização efetiva. O setor exige obras de grande escala e retorno de longo prazo. O capital investido precisa de previsibilidade regulatória.
A perspectiva para os próximos anos envolve consolidação dos contratos já assinados e expansão para municípios menores. O desafio maior está fora dos grandes centros. Áreas rurais e periferias urbanas ainda aguardam infraestrutura básica.
O saneamento não aparece nas manchetes com frequência. No entanto, ele determina qualidade de vida, preservação ambiental e desenvolvimento econômico. Onde há rede de esgoto e água tratada, há menos doença, mais valorização imobiliária e maior atração de investimentos.
O Brasil avançou nas últimas décadas. O ritmo ainda é desigual. A meta de 2033 exige continuidade política e disciplina técnica. O exemplo de Campo Grande mostra que resultados são possíveis quando planejamento e execução caminham juntos.
Foto: AgênciaBrasil
Deixe um comentário