Segundo levantamento da Organização Internacional do Trabalho, com base na PNAD Contínua do IBGE, a taxa de participação feminina no Brasil ficou em 53,1% no 4º trimestre de 2024, contra 72,7% entre os homens. Em outras palavras, pouco mais da metade das brasileiras em idade de trabalhar estava ocupada ou procurando emprego.
O retrato muda pouco quando a comparação usa a base internacional do Banco Mundial. O portal de dados de gênero da instituição mostra que a taxa de participação feminina no Brasil chegou a 53,4% em 2025, enquanto a masculina ficou em 73,4%. O número confirma que a frase é correta como síntese, ainda que não seja literal ao pé da vírgula. Não é exatamente 50%. É algo pouco acima disso.
O problema não está só na entrada no mercado. Ele continua dentro dele. No 1º trimestre de 2025, a taxa de desocupação foi de 8,7% para as mulheres e de 5,7% para os homens, segundo o IBGE. A desigualdade, portanto, aparece em duas portas: menos mulheres conseguem entrar, e mais mulheres ficam sem trabalho mesmo depois de entrar.
Essa distância não nasce do acaso. A própria OIT, ao analisar os dados brasileiros, destacou um fator central: o cuidado. Entre as mulheres em idade ativa fora do mercado, 31,7% disseram não procurar trabalho porque precisavam cuidar dos afazeres domésticos, dos filhos ou de outros parentes. Entre os homens, esse percentual foi de 3,5%. O mercado de trabalho brasileiro ainda cobra da mulher uma conta que continua a ser montada dentro de casa.
O IBGE ajuda a mostrar o peso concreto dessa rotina. Em 2022, as mulheres sem ocupação dedicaram, em média, 24,5 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens sem ocupação, a média foi de 13,4 horas. Mesmo entre os ocupados, a diferença persiste. As mulheres com trabalho remunerado dedicaram, em média, 6,8 horas semanais a mais do que os homens a essas tarefas. Não se trata apenas de desigualdade de renda. Trata-se de desigualdade de tempo.
A comparação internacional mostra que o Brasil não é um caso isolado, mas também não está entre os melhores exemplos. Segundo o Banco Mundial, a participação feminina na força de trabalho foi de 53,4% no Brasil em 2025. Na Colômbia, ficou em 51,6%. Na África do Sul, em 49,9%. No México, em 47,5%. O Brasil aparece acima desses três países de perfil econômico comparável, mas isso não muda o dado central: em todos eles, o mercado ainda absorve bem menos mulheres do que homens.
Esse quadro fica ainda mais duro quando o assunto é emprego, e não apenas participação. A OIT lembrou, em março de 2025, que no mundo só 46,4% das mulheres em idade ativa estavam empregadas em 2024, contra 69,5% dos homens. O texto da organização afirma que, no ritmo atual, a igualdade nas taxas de emprego levaria quase dois séculos. O Brasil não está fora dessa tendência. Ele apenas a reproduz com traços próprios, marcados por informalidade, cuidado não remunerado e segmentação ocupacional.
A diferença também afeta a forma como as mulheres entram no mercado. Segundo a OIT, 22,4% das mulheres ocupadas no Brasil estão concentradas em educação, saúde humana e serviços sociais. Entre os homens, a presença maior aparece em comércio e indústria. O mercado continua separado por gênero. Isso reduz renda, limita ascensão e mantém a velha ideia de profissões “femininas” e “masculinas” viva demais para 2026.
No mapa do país, os efeitos da desigualdade se misturam às desigualdades regionais. O IBGE mostrou que, no 1º trimestre de 2025, os maiores rendimentos médios ficaram no Centro-Oeste, com R$ 3.848, no Sul, com R$ 3.840, e no Sudeste, com R$ 3.814. Norte e Nordeste ficaram atrás. Em mercados mais frágeis, a dificuldade de acesso das mulheres ao emprego costuma pesar ainda mais. A renda menor se soma à informalidade maior e reduz a margem de escolha.
O dado é real. O contexto é ainda mais duro. Não basta perguntar quantas trabalham ou procuram trabalho. É preciso perguntar por que tantas ficam de fora, por que entram em piores condições e por que continuam carregando, quase sozinhas, o trabalho invisível que sustenta a vida cotidiana. Os números mostram que o problema não está na disposição das mulheres para trabalhar. Está no desenho de um mercado e de uma sociedade que ainda pedem muito delas e devolvem pouco.
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