O programa da FM Educativa 104.7 de Mato Grosso do Sul,“O Assunto é Cinema” analisa “O Sobrevivente”. Produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach, o quadro vai ao ar todas as quintas, às 20h (horário de MS), pela rádio Educativa 104.7 FM.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O ASSUNTO É CINEMA analisa “O Sobrevivente”, filme que foi exibido nos cinemas. A trama acompanha Ben Richards, um pai desesperado para juntar dinheiro para o tratamento da filha. Em um futuro não tão distante, corporações controlam a mídia e o governo. A população, cada vez mais alienada e pobre, acaba recorrendo a qualquer tipo de trabalho para sobreviver. Para que a filha não morra de uma simples gripe, Ben se inscreve no reality show “O Sobrevivente”.
A história é uma adaptação do romance “O Concorrente” escrito por Stephen King sob o pseudônimo de Richard Bachman. O texto já havia sido livremente adaptado por Paul Michael Glaser em 1987 em um filme com Arnold Schwarzenegger no papel do protagonista. Essa versão tinha pouco ou quase nada a ver com o romance, trazendo um final otimista, distante do tom melancólico que King trouxe em sua obra. A nova versão, dirigida e escrita por Edgar Wright, pretendia adaptar mais fielmente o romance original. Infelizmente, não foi dessa vez.
A estética dos reality shows que denigrem a dignidade dos participantes por dinheiro é o grande tema do romance e da nova versão. É interessante perceber o quanto o filme de 1987 acertou ao antecipar o tipo de programação da TV de hoje e esse é o ponto em que a nova adaptação direciona sua atenção. O filme de Edgar Wright faz inclusive uma alusão à versão anterior colocando a cara de Arnold Schwarzenegger na nota do “new dolar”, easter egg que dá a entender que a revolução do filme original não deu em absolutamente nada.
O começo da nova versão de “O Sobrevivente” empolga. A caracterização do mundo é muito bem feita, a apresentação do drama de Ben Richards e sua família, sua personalidade impaciente, tudo que molda o protagonista e seus rompantes de violência está em cena. Salvo o fato de que, no romance, o protagonista é um homem comum enquanto o Ben Richards do ator Glen Powell parece mais um sujeito bem apessoado e em forma que um cidadão qualquer.
A impressão que fica é que Edgar Wright cedeu ao estúdio na escalação de Glen Powell como Ben Richards para poder levar adiante o projeto, já que a Paramount planeja substituir Tom Cruise por ele em seus blockbusters. O carisma do ator ajuda na dinâmica do filme, principalmente nos rompantes em que seu personagem parece estar curtindo ser caçado ao vivo na TV. A presença dele salva o filme em vários momentos, principalmente quando o roteiro se perde de vez.
Outro ator que se destaca é Colman Domingo como Bobby “Bobby T” Thompson, o apresentador do reality show. Assim como Richard Dawson parecia natural na adaptação anterior como apresentador (justamente por ter conduzido o programa “Family Feud” por décadas), Colman Domingo parece saber levar muito bem sua plateia. Do resto do elenco, pouco se salva. O antagonista da nova adaptação é um executivo da TV e não mais o apresentador. Josh Brolin até tenta conferir um toque de vilão corporativo para seu Dan Kilian, mas soa caricato e é outro que fica no meio do caminho na adaptação.
“O Sobrevivente” frustra tanto o leitor do romance quanto o fã do diretor Edgar Wright. A ação de longas como “Baby Driver” ou o humor de “Todo Mundo Quase Morto” ficaram de lado na adaptação que não se posiciona nem como ação, nem como drama distópico. O tom do humor se perde e pesa quando a trama passa a se levar a sério demais. É visível a interferência do estúdio na produção quando se percebem as viradas dramáticas forçadas, principalmente mais para o fim do filme. É triste perceber que quando se trata de distopia, Hollywood insiste em arruinar o conceito com um final feliz, o que deixa o projeto ainda mais distante do romance de Stephen King.
Confira o Trailer:
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