O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O Assunto é Cinema revisita “Diários de Motocicleta”, filme dirigido por Walter Salles. Muitas vezes, a história começa a ser escrita a partir de uma jornada pessoal de transformação. Ainda mais as jornadas que nascem de um processo de sensibilização humana tão potente que altera o curso da vida. Neste caso, da própria história do mundo. Dessa forma, o longa-metragem “Diários de Motocicleta” pode ser analisado sob a perspectiva de uma obra de formação, com elementos biográficos conduzidos pela narrativa da crônica diarística. Lançado em 2004, o road movie narra a viagem de moto, e depois a pé, do jovem estudante de Medicina Ernesto Guevara de La Serna e do seu amigo, o bioquímico Alberto Granado, pela América do Sul em 1952. No percurso, eles acabam constatando as injustiças sociais que assolam o continente quando se deparam com a pobreza, a falta de acesso à saúde e a exploração de trabalhadores dos povos que encontram pelo caminho. Isso afeta profundamente esses jovens argentinos, principalmente Ernesto, plantando nele as sementes do homem que se tornaria, anos depois, o lendário militante comunista Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana.
O roteiro foi escrito por José Rivera e pelo próprio Alberto Granado com base nos diários que Che Guevara redigiu durante a expedição, publicados mais tarde em forma de livro. A direção foi do cineasta brasileiro Walter Salles, que completou 70 anos no dia 12 de abril de 2026. Nada melhor para celebrar seu aniversário do que abordar um de seus melhores trabalhos, especialmente pelo seu empenho em correlacionar diversas vertentes cinematográficas. Um brasileiro conduzindo uma produção com elementos do cinema sul-americano e um elenco latino de grande identificação regional, sobre o microcosmo de uma história universal como a de Che Guevara. São muitos pontos para conectar e Walter Salles o executa com grande eficiência. Sem perder o foco em Ernesto, o filme consegue manter na órbita do protagonista a essência de uma América assombrada pela miséria, acobertada pela exuberância de suas paisagens. Por isso, a fotografia não abdicou de salientar a natureza. É ao redor dela que Ernesto e Alberto caminham numa integração maravilhosa de se contemplar. É dentro dela que o íntimo do jovem Ernesto vai aos poucos despertando para o sentimento de empatia panamericana com as realidades dos povos. Para o contexto, foi uma tremenda semente revolucionária.
Outro acerto em “Diários de Motocicleta” é a forma como o roteiro equilibrou a narrativa dramática e o relato diarístico. Uma das armadilhas de se adaptar diários é o risco da acomodação em sua estrutura linear. Ou seja, parece tudo mastigado, mas o perigo de uma versão cinematográfica se tornar refém desse formato retilíneo é enorme. Felizmente, o filme apenas lembra em passagens pontuais e estratégicas que sua base é um diário. De resto, as histórias se desenvolvem em um fluxo caudaloso e paciente como um bom road movie, cheio de estradas e a solitude de quem se entrega aos desígnios da aventura. Mas ao mesmo tempo que esse espírito conduz a viagem, as revelações internas e externas ganham vulto. O processo de sensibilização de Ernesto para a realidade cinzenta de frações esquecidas do continente é muito bem construído, auxiliado pela poesia dos textos do diário. Che Guevara também era um ótimo escritor e contador de histórias, e adaptar seu diário para o cinema é uma experiência magnífica. Bastou ter o bom senso de não usá-lo como muleta, no que o filme foi muito feliz. Para isso, a mudança de nuances a partir de um ponto chave da narrativa foi crucial. O longa começa em uma atmosfera hollywoodiana de leveza de dois jovens aventureiros, para depois ganhar um tom próximo do documental. Uma mudança que quase compromete a unidade do filme, porém, compreensível para ideia de perfazer a jornada de transformação de Ernesto.
Quanto às atuações, Gael García Bernal transmite o frescor juvenil de um Ernesto ciente de seu compromisso com a realidade que ele sabe existir. Depois, o abalo gradual das descobertas das mazelas de populações pobres e a empatia que se forma de modo tocante são elaborados com a delicadeza necessária para atribuir densidade psicológica ao personagem. Rodrigo de La Serna, com seu Alberto Granado mais despojado, atua como um coadjuvante orgânico, o sujeito de personalidade distinta que exprime sua lealdade sem abrir mão do papel de guardião do amigo mais novo. Vale mencionar também a trilha sonora original sublime do compositor argentino Gustavo Santaolalla, que funde a modernidade das guitarras a uma textura levemente folclórica, obtida com o uso de instrumentos ligados a gêneros andinos. Um primor musical que ajuda a construir a imagem dos protagonistas e dos contextos em movimento que a viagem proporciona.
“Diários de Motocicleta” é um ótimo filme, digno da filmografia desse grande cineasta chamado Walter Salles. Uma de suas produções internacionais mais prestigiadas é sobre um personagem cuja reputação foi construída sob um misto de verdade, mitologia e controvérsia, mas é inegável seu valor histórico. Então, a obra expõe um Che Guevara em crisálida, maturando suas motivações e sentindo os desconfortos de quem, um dia, se tornaria o revolucionário radical em defesa de povos oprimidos da América do Sul que o mundo conheceu, amou e odiou. Nasceu dessa viagem com o melhor amigo, o homem que afirmou posteriormente que todo verdadeiro revolucionário é guiado por sentimentos de amor. “Al Outro Lado del Rio”, linda canção original do uruguaio Jorge Drexler, vencedora do Oscar, que brota nos créditos finais, resume bem a essência da obra e dessa fase da vida de Che Guevara. O desejo de mudar a realidade foi a travessia de um rio. Do outro lado, a luta, a história e a eternidade. Do outro lado, a luz.
Nota: 9.5
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio revisitando “Diários de Motocicleta”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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