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O legado de Däniken e os mistérios que a Ciência ainda não explica

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Por Alexandre Gonzaga

A morte do escritor e investigador suíço Erich von Däniken, no último sábado, dia 10 de janeiro, aos 90 anos, reacende o debate por mais transparência e divulgação sobre casos ufológicos e outros fenômenos. A geração dos meus pais — e a minha também — cresceu lendo Eram os Deuses Astronautas?, livro de Däniken que marcou época e mudou a forma de enxergar a história da humanidade. Foi essa obra que me despertou para os grandes mistérios das civilizações antigas e para a pergunta que atravessa gerações: estamos realmente sozinhos no universo?

Däniken questionou fatos difíceis de ignorar, como as Linhas de Nazca, no Peru, visíveis apenas do alto e traçadas há mais de dois mil anos. Questionou também os cortes extremamente precisos em blocos de pedra de centenas de toneladas no Egito e México, além de estruturas como Puma Punku, na Bolívia, cuja engenharia ainda intriga pesquisadores. Há ainda evidências de grandes complexos piramidais na China, o que alimenta a percepção de que nem toda a arqueologia mundial está igualmente aberta à investigação .

Levantar essas questões não diminui as civilizações antigas, pelo contrário. Reconhece que talvez fossem mais avançadas do que normalmente se admite, ou que possuíam conhecimentos hoje perdidos.

Ainda assim, em conversas com diplomatas estrangeiros, sempre percebi certo incômodo quando se sugere que seus povos possam não ter construído tudo sozinhos. A reação costuma vir como se fosse uma afronta à identidade nacional, quando, na verdade, a pergunta é científica e histórica. O desconforto surge justamente diante do que foge ao consenso.

Dentro da minha própria família, escutei relatos ligados a supostos estudos sobre telepatia e telecinese associados a pesquisas militares.

Pouca gente sabe dos Foo Fighters, misteriosos objetos voadores em forma de luzes ou esferas que pilotos de países aliados na Segunda

Guerra Mundial avistavam e que não eram armas alemãs conhecidas, gerando teorias sobre fenômenos elétricos ou extraterrestres.

À época, essas histórias eram tratadas como algo difícil de classificar, mas sempre narradas com a seriedade de quem viveu aquele período.

Hoje, com milhares de documentos desclassificados e investigações conhecidas sobre projetos da Guerra Fria, também fica claro que o interesse por capacidades humanas não convencionais fez parte de estratégias reais de governos. Produções como Stranger Things apenas dramatizam algo que, em essência, foi efetivamente pesquisado.

No Brasil, os mistérios também são numerosos. O Caso Varginha, que completa 30 anos, permanece cercado de contradições e mistérios. As jovens que afirmaram ter visto algo diferente tiveram suas vidas profundamente afetadas e até hoje relatam mal-estar ao relembrar a tarde de 20 de janeiro de 1996. Enquanto a cidade se beneficiou economicamente do episódio, elas seguem levando uma vida simples.

Com o passar dos anos, surgiram versões conflitantes de policiais, bombeiros e militares das Forças Armadas. Alguns afirmaram recentemente ter mentido à época. Outros disseram ter sido induzidos.

O médico-legista Badan Palhares, da Unicamp, que durante décadas negou envolvimento, revelou agora que recebeu uma ligação informando que um material do Caso Varginha chegaria para sua análise. Em documentário lançado este mês, ele declarou não se lembrar de quem o telefonou, mas que também não recebeu o suposto conteúdo de Varginha. Soma-se a isso o depoimento recente de um militar de alta patente, que declarou ter se sentido ofendido pelas perguntas de jornalistas que buscavam a verdade dos fatos, apesar de o próprio Exército ter conduzido inquérito militar para explicar o caso como sendo apenas o avistamento de um homem com deficiência física, conhecido na cidade como “Mudinho”.

As próprias jovens afirmam que conheciam essa pessoa e que não confundiriam o que viram com alguém já conhecido da comunidade em Varginha.

Se não houve nada além disso, permanece a pergunta: por que, então, a presença do Exército no hospital, caminhões militares, restrição de acesso e tanta mobilização, como conta a população de Varginha sobre essa movimentação atípica na cidade?

Em outros casos mais antigos, o próprio Estado brasileiro documentou ocorrências. Na Ilha de Colares, no Pará, durante a Operação Prato, a Força Aérea registrou na década de 1970 ataques luminosos à população, com relatórios e fotografias hoje disponíveis no Arquivo Nacional. Na Ilha da Trindade, registros fotográficos foram analisados oficialmente pela Marinha.

Em 19 de maio de 1986, na chamada Noite dos Discos Voadores, radares e pilotos da FAB acompanharam objetos não identificados em vários estados, levando à decolagem de caças em perseguição aos ovnis. O episódio foi reconhecido publicamente por autoridades militares e se tornou um marco na ufologia brasileira.

Em Mato Grosso do Sul, o avistamento coletivo no estádio Morenão, durante uma partida de futebol em março de 1982, levou o então jovem Ademar José Gevaerd a se mudar para o estado para estudar o fenômeno. Ele se tornaria um dos maiores nomes da ufologia nacional e um dos principais responsáveis por pressionar o governo brasileiro por maior transparência sobre registros oficiais.

O interesse da população por esse tipo de informação também se reflete nos números. No início dos anos 2000, uma das maiores demandas feitas ao Ministério da Defesa por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) esteve relacionada a pedidos de documentos sobre óvnis e fenômenos aéreos não identificados.

No campo cultural, o filme brasileiro Área Q, rodado no Ceará e lançado inicialmente nos Estados Unidos, faz referência a relatos de abduções em cidades como Quixadá e Quixeramobim, mostrando como a ficção frequentemente se alimenta de histórias já presentes na memória coletiva.

Chama atenção também que muitos dos principais pesquisadores e divulgadores do tema estão envelhecendo. Steven Spielberg, diretor de

cinema e criador de grandes obras como ET, Super 8 e Contatos Imediatos, entre outros, já passou dos 80 anos de idade. A jornalista norte-americana, Linda Moulton Howe, se dedica há décadas à investigação de Roswell, mutilações de gado e outros fenômenos como na Antártida. Pode-se questionar conclusões, mas não se pode ignorar a persistência da investigação jornalística.

O próximo filme do cineasta Steven Spielberg, Dia D, com estreia prevista para este ano, traz novamente a ficção científica, com a chegada de OVNIs e seres extraterrestres ao planeta.

E então surge mais uma pergunta que me acompanha há anos: se há documentos, relatórios militares e testemunhos oficiais, por que a grande imprensa ainda trata o tema quase sempre como folclore? Por que raramente entra na agenda do jornalismo investigativo com a mesma seriedade dedicada a outros assuntos sensíveis?

À medida que a ciência e a tecnologia avançam em ritmo cada vez mais acelerado, torna-se mais difícil que governos mantenham a sociedade presa a uma espécie de “era das cavernas” informacional, distraída por entretenimentos banais enquanto questões fundamentais permanecem sem resposta. O acesso a dados, a circulação global de informações e a pressão por transparência tornam inevitável que temas antes tratados como tabu voltem ao centro do debate público.

Minha fé não me autoriza a aceitar qualquer explicação sem critério, mas também não me permite fingir que tudo está resolvido quando claramente não está. A história da humanidade pode ser mais complexa do que as narrativas consolidadas. A ciência avança quando questiona. A fé amadurece quando não teme o mistério.

Talvez o maior legado de Däniken não tenha sido convencer, mas provocar reflexão. Lembrar que perguntas incômodas também fazem parte do caminho do conhecimento. Continuo acreditando. E continuo perguntando. Porque, dentro da minha fé, da minha profissão, o silêncio diante do inexplicado não é virtude? É desistência da busca?

 

Alexandre Gonzaga é jornalista, trabalhou no Ministério da Defesa e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

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