Um grupo internacional de pesquisadores lançou um apelo por uma “reinicialização fundamental” da forma como a humanidade entende e busca o desenvolvimento sustentável. O estudo, publicado em 2026 na revista Communications Sustainability, afirma que o modelo tradicional de sustentabilidade, baseado em três pilares separados (natureza, sociedade e economia), não responde aos desafios atuais como mudanças climáticas aceleradas, perda de biodiversidade e desigualdades socioeconômicas.
Os autores, liderados por David Obura, argumentam que o quadro global de sustentabilidade foi construído historicamente sobre a ideia de que meio ambiente, sociedade e economia podem ser tratados isoladamente, cada um com metas e indicadores próprios. Essa abordagem surgiu a partir de consensos internacionais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o relatório Our Common Future, da Comissão Brundtland, dos anos 1980.
Segundo os pesquisadores, separar as três dimensões contribuiu para priorizar o crescimento econômico como solução central e relegar aspectos essenciais da relação humana com a natureza para setores laterais, em vez de integrá-los de forma inseparável. Eles citam o exemplo dos ODS, que mesmo após décadas de esforços globais, apresentaram progresso limitado em seus 169 alvos até 2024, com apenas cerca de 17% das metas no caminho certo.
Integração profunda
O estudo propõe um modelo em que natureza, economia e sociedade sejam entendidos como um único sistema interligado, no qual a natureza forma a base sobre a qual tudo depende. Nesse enquadramento, a economia funciona dentro da sociedade, que por sua vez opera dentro dos limites e capacidades dos sistemas naturais. Isso contrasta com a visão tradicional de “três pilares” isolados que interagem apenas superficialmente.
Os pesquisadores explicam que, ao invés de tratar a sustentabilidade como uma soma de objetivos independentes, o novo modelo incentiva ações que mantenham equilíbrio e interdependência contínua entre os elementos do sistema. Eles sugerem que uma compreensão sistêmica permite melhor identificação dos “pontos de desequilíbrio” e dos impactos reais de decisões humanas sobre o meio ambiente e o bem-estar social.
Especialistas envolvidos no estudo defendem que essa abordagem mais holística reconheça o que chamam de “valores diversos da natureza”, incluindo benefícios não medidos pelo mercado, como tradições culturais, serviços ecossistêmicos que não entram em transações econômicas e saberes indígenas. Isso ajudaria a reorientar políticas públicas e privadas para além do crescimento econômico tradicional em direção a uma visão mais equilibrada.
Os autores sublinham que as crises ambientais e sociais do século XXI são problemas interdependentes, não blocos separados. A perda de biodiversidade, a crise climática e a desigualdade econômica não podem ser resolvidas por políticas que tratam meio ambiente, economia e sociedade como domínios distintos. Isso, segundo eles, tem levado a soluções fragmentadas e muitas vezes contraditórias e incapazes de gerar resiliência real.
O estudo também afirma que a crises atuais são reflexo não apenas de falhas de mercado, como tradicionalmente se coloca, mas de um “fracasso dos valores”, ou seja, a incapacidade dos modelos dominantes de incorporar valores sociais, culturais e ecológicos de forma holística nas decisões políticas e econômicas.
Potencial de impacto e próximos passos
Os autores do novo modelo defendem que um “sistema de sustentabilidade repensado” pode orientar reformas em estruturas globais como os ODS pós-2030, finanças verdes e políticas climáticas nacionais, com foco em equilíbrio entre a integridade ecológica, justiça social e viabilidade econômica. Eles argumentam também pela incorporação de perspectivas diversas, incluindo saberes tradicionais e comunidades locais, para reforçar a legitimidade das políticas de sustentabilidade em diferentes contextos culturais e regionais.
A proposta não busca descartar completamente os marcos existentes, mas sim reformá-los profundamente, para que reflitam a real interdependência dos sistemas naturais e humanos. A adoção de um modelo mais integrado pode afetar desde a formulação de políticas públicas até práticas empresariais e mecanismos de financiamento para desenvolvimento sustentável.
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