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As lunetas do mundo e o território que se revela

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Por Sérgio Carvalho

Campo Grande amanhece sob observação internacional neste terceiro dia oficial de COP15. Não apenas pelas decisões que avançam dentro da Blue Zone (Zona Azul), mas pelo que se revela fora dela, no território real onde política pública, ciência e cultura se encontram.

Neste momento da Conferência das Partes sobre Espécies Migratórias, Mato Grosso do Sul deixa claras mensagens e demonstra na prática que não está apenas sediando o debate global. Está presente para apresentar um modelo, assim como fez na COP30, em novembro de 2025, em Belém do Pará.

Um modelo que parte de uma escolha estratégica: ocupar o território com inteligência ambiental

A COP15 reúne representantes de mais de 130 países e trata de 1.189 espécies migratórias protegidas, entre aves, mamíferos, peixes e répteis. Pelo debate científico, mais 42 espécies devem entrar na lista de migração de espécies da ONU, com presença importante no território sul-mato-grossense da onça-pintada e da ariranha.
Mas, para além dos números, o que ganha força em Campo Grande é a tradução prática desse debate.

E essa tradução tem endereço

No Parque das Nações Indígenas, dois equipamentos públicos ganham desenhos estratégicos que podem servir de exemplos a outros territórios voltados à educação ambiental permanente: o Bioparque Pantanal e a Casa do Homem Pantaneiro.

Ali, o discurso internacional encontra o chão.

O Bioparque Pantanal, consolidado como o maior aquário de água doce do mundo, vai além da contemplação. É um centro de ciência, pesquisa e tecnologia voltado à compreensão da biodiversidade e à tomada de decisões sustentáveis.
Ao integrar educação ambiental, turismo e produção científica, o espaço se posiciona como uma síntese contemporânea do que o século XXI exige: conhecimento aplicado à preservação.

Casa do Homem Pantaneiro
Casa do Homem Pantaneiro

Ao lado dele, a Casa do Homem Pantaneiro surge como um movimento complementar, quase simbólico.

Reaberta após anos e reposicionada durante a COP15, a estrutura assume um papel estratégico como espaço permanente de educação ambiental, com programação aberta, gratuita e conectada aos temas centrais da conferência.
Ali, o debate sai da formalidade diplomática e ganha linguagem acessível, atravessando cinema, exposições, ciência e cultura.

É uma decisão política clara.

Transformar um evento internacional em legado concreto

O governo do Estado sinaliza que o caminho não é tratar o meio ambiente como pauta isolada, mas como eixo estruturante do desenvolvimento. Um território que abriga 65% da área total alagável do Pantanal não pode operar em lógica fragmentada.
Precisa integrar produção, conservação e educação.

E é exatamente isso que começa a se desenhar.

Ao ocupar o Parque das Nações Indígenas com equipamentos de ciência e cultura ambiental, Mato Grosso do Sul constrói uma narrativa silenciosa, porém potente: a de que desenvolvimento e preservação não são opostos, são decisões técnicas e de método.

Enquanto as delegações discutem conectividade ecológica entre continentes, o Estado apresenta sua própria conectividade interna, entre política pública, território e população.

A COP15 segue com seus acordos, resoluções e negociações multilaterais entre nações. Mas, em Campo Grande, algo mais profundo começa a acontecer.

O território deixa de ser cenário e passa a ser argumento.

E talvez seja essa a principal mensagem deste terceiro dia: não basta sediar o mundo.

É preciso mostrar, no próprio chão, como ele pode continuar existindo.

 

Sérgio Carvalho – jornalista, roteirista e analista socioambiental

Fotos: Zilda Vieira

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