Por Alexandre Gonzaga
A rua da casa da minha avó Zilda era quase sem saída. Ficava no bairro Botafogo, em Campinas, no interior de São Paulo. A casa original já não existe mais, mas a rua continua lá. Na verdade, era uma espécie de ferradura: a rua Francisco Alves se encontrava com a rua Daniel Pedro Müller, formando um “U”. Quem entrava dava uma volta e acabava praticamente no mesmo lugar, entre a entrada e a saída.
As ruas sem saída são simples, mas charmosas. E não são privilégio de moradores humildes. Elas se mostram elegantes para todos os bolsos. Assim eram as vilas industriais do passado, principalmente na capital paulista, e assim são, hoje, muitos condomínios de luxo, onde as vias também têm apenas uma entrada e uma saída.
Estima-se que Campo Grande tenha uma infinidade de ruas sem saída, tranquilas e charmosas. Tenho o privilégio de morar em uma delas.
Em ruas assim, quase sempre há um propósito claro. Quem entra geralmente tem um destino: visitar alguém, ou apenas chegar em casa. E quem entra por engano logo percebe e precisa dar meia-volta para seguir caminho.
Mas o que dizer da paz das ruas sem saída? Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, especialmente em bairros mais abastados, essas vias costumam ter cancelas e guaritas.
Mas, voltando à minha pequena rua sem saída, existe um prazer ainda maior. Os sons naturais ficam mais próximos, como o das crianças brincando de bola e o dos carros que, na grande maioria das vezes, apenas chegam. Ao fundo, permanece o som distante da via de tráfego mais intenso.
Outra sensação agradável, bem do interior e de Campo Grande, é observar e ser observado pelos vizinhos quando você chega ao lar. Aquelas cadeiras de fios à beira da calçada revelam olhares atentos, quase como sentinelas de boas-vindas ao reconhecer o ilustre morador.
A rua sem saída é segurança, simplicidade e charme. Dor de cabeça mesmo só para quem não observa a placa e descobre tarde demais que a pressa não leva a lugar nenhum.
No fim das contas, às vezes penso que moro mesmo “numa casa muito engraçada, na rua dos bobos, número zero”. Talvez não seja exatamente assim. Mas, em dias de cidade barulhenta e mundo apressado, viver numa rua sem saída tem lá seus privilégios. O principal deles é a paz.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
Capa: Imagem gerada por I.A
Foto: Arquivo
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