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O tempo, a ausência e o que permanece nas palavras de quem fica

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Por Alexandre Gonzaga

Raramente me detive para refletir sobre o tempo. Simplesmente fui seguindo, e ele comigo. Hoje, me arrependo. Lembro de um trecho do CD Per Amore (1997), de Zizi Possi: “Se eu soubesse que as coisas iriam desaparecer tão facilmente, eu teria dedicado mais tempo a me lembrar delas.”

Talvez seja justamente por isso que o tempo passa tão depressa, silencioso e discreto, preenchendo os intervalos entre uma urgência e outra, entre compromissos e promessas adiadas. Quando finalmente voltamos o olhar para ele, o tempo já não pede licença. Apenas revela o que fomos capazes, ou não, de fazer enquanto acreditávamos que ainda haveria depois.

Vamos sentindo a presença, ou o peso, do tempo quando os amigos vão desaparecendo. O tempo tem uma conexão intrínseca, um elo com a vida.

Na minha percepção, somos ligados por gerações que vão partindo como uma corrente, um seguindo após o outro.

O tempo é implacável. Não devolve oportunidades, não reabre caminhos, não corrige ausências. Mas também é generoso à sua maneira. Preserva lembranças, ressignifica dores e, por vezes, nos oferece a chance de compreender aquilo que antes parecia apenas passageiro. Há quem consiga “agarrar o bonde andando”, como se dizia antigamente. Nesses casos, o tempo deixa de ser apenas perda e passa a ser também presença.

Curiosamente, ele se torna mais querido quando vira saudade. As dificuldades perdem o peso, as desavenças se dissolvem, e o que permanece é uma versão mais branda, quase afetuosa, do que foi vivido. Ainda assim, insistimos em associá-lo ao fim, como se existisse apenas para contar a nossa caminhada até o encerramento.

Esquecemos que, antes disso, ele é matéria da própria vida.

Porque, no fundo, nunca partimos de vez. Deixamos com os outros fragmentos do que fomos, das pessoas que cruzaram o nosso caminho, dos lugares onde deixamos afetos e silêncios. Mesmo quando seguimos adiante, ou quando a vida se encerra, algo permanece. Uma lembrança que resiste, um gesto que se repete, uma ausência que continua nos moldando. Partir raramente é romper. É, sobretudo, aprender a conviver com o que ficou.

Agora, para mim, o tempo deixa de ser conceito e se torna presença saudosa. Ele se revela nas lágrimas pela partida recente de um amigo querido, o jornalista e cozinheiro Fernando Kassab, e, diante disso, o que permanece não é apenas a ausência, mas tudo aquilo que o tempo não levou: as histórias, os encontros, os sabores compartilhados e a marca de uma vida que segue ecoando em quem ficou.

Na juventude, fomos vizinhos, no bairro Botafogo, em Campinas. Foi nesse convívio que Fernando e sua família demonstraram uma generosidade que atravessou o tempo. Sempre foram atentos e afetuosos comigo, minhas irmãs, minha mãe Maria Cecília, e com minha avó Zilda.

Fernando, em diferentes momentos, fez questão de homenagear minha avó Zilda com carinho, como quem reconhece a importância das pequenas memórias que se tornam permanentes.

Ele não esquecia dos quitutes que ela preparava, assim como eu não esqueci o sabor da comida libanesa feita por sua mãe, Leila Kassab.

Há lembranças que permanecem vivas justamente por estarem ligadas aos sentidos e ao tempo. Até hoje, carrego comigo a referência do que é uma esfirra verdadeiramente caprichada, dessas que não se explicam apenas pelo paladar, mas pelo afeto que as acompanha.

Fernando era uma daquelas pessoas que tinham no otimismo, na inteligência e no bom humor suas marcas mais evidentes. Era comum vê-lo nas redes sociais, recitando trechos de jornalistas, poetas e escritores que admirava, como quem mantinha viva a palavra e o pensamento.

O que mais me impressionava em Fernando, além da gentileza, do bom humor e da educação, era a agilidade do seu raciocínio, por vezes até difícil de acompanhar.

Já sinto falta de suas reflexões semanais, quase enigmáticas, sempre carregadas de significados — ora sutis, ora diretas — sobre o nosso mundo contemporâneo.

Em seus posts, Fernando fazia questão de exaltar o amor pela família — pelos irmãos, sobrinhos, sobrinhos-netos e pelos pais tão queridos.

Em uma de suas últimas mensagens, ao lembrar o aniversário da mãe, escreveu: “Amor de mãe é aquele que a passagem dos anos torna cada vez mais real, mais nosso. Hoje você completaria 96 anos — e a sinto cada vez mais próxima.”

A curadoria das trilhas sonoras que acompanhavam seus cards também era uma marca singular. Iam da fadista portuguesa Carminho (Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade) a Nat King Cole, Nino Rota, Ella Fitzgerald e Dorival Caymmi, entre tantos outros — muitos deles herdados do apurado gosto musical dos pais, Álvaro e Leila.

Fernando também homenageava artistas e gênios da arte em seu perfil no Instagram. Não cabia em uma única profissão. Era múltiplo: talentoso nas palavras, na cozinha, nos gestos e também em cena.

Há alguns anos, presenteou-me com o livro comemorativo Lisboa–Campinas, de sua autoria — mais uma expressão de sua sensibilidade e repertório.

Charme em forma de livro, em 2009 ele lançou Paris Para Ler, Ver e Comer, obra que reúne turismo, gastronomia e literatura em um roteiro sensível e autoral, pensado para quem deseja descobrir a capital francesa para além dos cartões-postais.

Fernando teve a oportunidade de entrevistar pessoas ilustres e respeitadas. Jovem, serviu o Exército, e me lembro de que seu pai ficou orgulhoso do feito.

Décadas depois, ele escreveu ao então comandante de sua companhia no 28º Batalhão de Infantaria Blindada, em Campinas, o capitão Santos Cruz, hoje general da reserva do Exército brasileiro: “Obrigado por me oferecer os sapatos certos — fossem eles reais ou metafóricos.”

A lembrança remonta a 24 de maio de 1980, em um dia de solenidade, quando Santos Cruz o viu mancando e perguntou o motivo. A resposta foi direta: usava um par de sapatos dois números menores. Diante da situação, o comandante providenciou a troca. Anos mais tarde, Fernando resumiria o episódio com a leveza que lhe era própria: a vida me sorriu.

Kassab construiu boa parte de sua trajetória profissional na EPTV Campinas, afiliada da TV Globo, onde atuou por 21 anos. Na emissora, destacou-se pelos quadros de culinária que apresentou, sempre combinando receitas com informação e conhecimento. Entre eles, o “Prato Fácil” se tornou uma de suas marcas, permanecendo no ar por mais de 15 anos.

Eu contava com sua impressão pessoal, sempre generosa a respeito dos meus textos. Fica, agora, a ausência que não se preenche, mas também a lembrança de alguém que soube permanecer nas palavras, nos gestos e na memória.

Assim é o tempo, ou talvez esse seja o seu verdadeiro sentido: nos lembrar das pessoas e dos gestos que nos marcaram. Não aprendemos a perder, porque o tempo se encarrega de manter vivos aqueles que já não estão, devolvendo-os em forma de lembrança.

O tempo não volta:

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

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