O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “Devoradores de Estrelas”, filme dirigido por Phil Lord e Chris Miller. A trama adapta o romance homônimo de Andy Weir que conta a história de Ryland Grace, um professor especialista em microbiologia que é recrutado por uma organização governamental para estudar uma bactéria alienígena que se alimenta da luz do Sol e vem devorando estrelas próximas ao nosso sistema. O astrofágico devora a luz das estrelas e tende a se multiplicar exponencialmente ao estar próximo de uma, isso implica que a vida na Terra está em perigo.
Depois de uma série de pesquisas em torno do microorganismo, uma missão espacial é preparada de última hora para tentar entender o motivo da estrela Tau Ceti, 11 anos luz distante do nosso sistema, não estar sofrendo as consequências da presença do astrofágico. O professor Grace acorda no meio da viagem para Tau Ceti, sozinho e sem memória de como foi parar ali. Logo ele descobre que seus dois companheiros estão mortos e que cabe a ele cumprir a missão.
Andy Weir é um autor de uma ficção científica pouco em voga nos dias de hoje, a chamada “hard sci-fi”, um estilo que preza a ciência dentro da narrativa. É uma vertente que fez sucesso na chamada “era de ouro” do gênero, época em que autores como Arthur C. Clarke ou Isaac Asimov dividiam a atenção do público com grandes nomes da ciência como Carl Sagan. Andy Weir resgata com muita competência esse estilo em seus romances, tendo inclusive emplacado nos cinemas a adaptação de “Perdido em Marte”, filme de Ridley Scott que se tornou sucesso de público e crítica.
“Devoradores de Estrelas” é um filme que considera a capacidade do público de entender conceitos complexos, bem como Andy Weir faz em seus romances e algo que o roteirista Drew Goddard soube fazer muito bem ao adaptar o texto original. O romance tem ainda mais desdobramentos que o filme, mas mesmo com as diferenças, os 156 minutos da projeção não cansam o espectador em momento algum, mérito dos diretores, do roteirista e do carisma de Ryan Gosling como o professor Grace. Gosling segura muito bem o que poderia logo se tornar um filme enclausurado e maçante, levando o papel para além do didatismo esperado do gênero.
O grande trunfo do longa está no carismático Rocky, um ser com uma formação totalmente diferente da estrutura baseada em carbono que é o padrão da vida na Terra. Sua estrutura é baseada em silício e deriva a partir daí para elementos mais densos, gerando formas exóticas para os nossos padrões. A amizade forjada pela urgência ante a catástrofe une Grace e Rocky num plano ousado para salvar as estrelas do seus respectivos sistemas, Sol e Eridani. James Ortiz dá voz e movimento ao carismático personagem que logo estabelece uma conexão com o espectador do filme, fortalecendo a mensagem de colaboração que o longa sempre reforça.
A personagem que mais sofreu alterações com relação ao livro é a supervisora do projeto, Eva Strautt. No romance, ela é uma líder autoritária, capaz de tomar decisões drásticas a nível mundial enquanto na adaptação ela é firme, mas um tanto mais compreensiva. Vale destacar a cena em que ela canta com a equipe do projeto em um videokê, sequência sugerida por Ryan Gosling e pela atriz Sandra Hüller: ele sugeriu ela cantar e ela escolheu a música. A sequência humaniza a personagem em um momento inesperado para o espectador. Do elenco ainda se destaca Lionel Boyce como o simpático agente Carl que acompanha o professor Grace no projeto.
No aspecto técnico, a fotografia de Greig Frasier valoriza os enquadramentos e extrai beleza mesmo de espaços fechados. Este é um filme para ser admirado nos cinemas, se possível numa tela Imax, dado que a maior parte das cenas foi filmada nesse formato. Os sets foram montados para que tudo parecesse prático e real, fazendo com que o trabalho de Paul Lambert e Mags Sarnowska nos efeitos especiais fosse o mais natural possível. A trilha de Daniel Pemberton adota temas específicos, construindo tensão e emoção a cada cena. As canções escolhidas para o filme vão de Beatles a Mercedes Sosa numa combinação inusitada e que funciona excepcionalmente bem, sem parecer estar tentando agradar todos os públicos.
“Devoradores de Estrelas” é um belo filme que resgata uma vertente da ficção científica que tem tudo para um grande retorno, haja visto o interesse do público nas missões Artemis que pretendem levar astronautas de volta para a Lua. Em tempos de discussões em torno da democracia, conflitos sem sentido e inteligência artificial, o longa deixa a impressão de que temos que voltar a pensar no futuro com um objetivo em comum, abrindo mão de nossas diferenças. “Devoradores de Estrelas” está em cartaz nos cinemas. O romance original é publicado no Brasil pela editora Suma.
Nota 10.
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio analisando “Devoradores de Estrelas”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
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