O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema revisita “007 contra Goldfinger”, filme dirigido por Guy Hamilton, lançado em 1964. A trama acompanha James Bond investigando Auric Goldfinger, um magnata obcecado por ouro que levanta suspeitas do MI6 em torno das fontes de sua riqueza. Cabe a 007 descobrir como Goldfinger consegue tanto ouro e o que está por trás de sua operação que envolve contrabando de ouro e diversos empreendimentos na Europa e nos Estados Unidos.
“007 contra Goldfinger” é o filme que finalmente estabelece o tom de toda a franquia nos cinemas. O longa adapta o sétimo romance escrito por Ian Fleming que, infelizmente, faleceu meses antes da estreia. Sean Connery está pleno como James Bond, confiante, sedutor e com um ar de quem sempre tem um ás na manga mesmo nos momentos mais tensos. O diretor Guy Hamilton estreia na franquia com uma adaptação que assume de vez o tom extravagante da série.
A projeção abre com uma cena noturna onde o espectador vê um inocente pato se aproximando da beira de um cais para em seguida revelar James Bond com uma roupa de mergulhador com o pato por sobre a cabeça. O que pareceria cafona em qualquer filme que se levasse minimamente a sério, aqui dá o tom de “alívio cômico funcional” que a franquia passou a adotar em momentos como esse. Não demora para a audiência ainda notar que, por baixo da roupa de mergulho, Bond usa um smoking branco impecável que ele vai ostentar depois de explodir os depósitos de heroína no cais que ele acaba de invadir.
A sequência emenda com a canção tema do filme, interpretada por Shirley Bassey, em uma montagem de Maurice Binder que envolve garotas e cenas do filme projetadas em seus corpos, o tipo de clipe que se consolidou nos créditos iniciais da franquia. É o primeiro longa da série a abrir com uma canção que não o tema composto por Monty Norman. A letra de “Goldfinger” foi escrita por Anthony Newley e Leslie Bricusse com arranjos compostos por John Barry que, finalmente, cuidou de todas as etapas musicais da produção.
Guy Hamilton assumiu a cadeira da direção depois da indisponibilidade de Terence Young para o trabalho. Hamilton era a primeira escolha dos produtores para a direção dos filmes anteriores, mas acabou tendo que recusar o convite. O interessante disso tudo é que ele conviveu com Ian Fleming nos tempos em que ambos trabalharam na inteligência britânica durante a segunda guerra mundial. Richard Maibaum voltou para escrever o roteiro que ainda teve uma revisão mais precisa por Paul Dehn, outro profissional veterano da inteligência na segunda guerra.
“007 contra Goldfinger” tem uma certa fidelidade para com o romance original, mas ainda vai além e corrige um dos maiores furos da trama: como Goldfinger roubaria todo o ouro do Fort Knox? É impossível levar tantas barras de ouro em tão pouco tempo, o ouro é pesado e o volume das barras é gigante – até carregar os caminhões, Goldfinger e seus capangas estariam cercados. O roteiro de Maibaum e Dehn oferece uma solução mais sofisticada: Goldfinger pretende explodir um dispositivo nuclear no forte de modo a irradiar todo o ouro e, com isso, ele passaria a ser dono da maior parte das reservas do mundo. Sofisticado e sinistro, como todo bom vilão da série.
Falando sobre o elenco, Gert Fröbe interpreta Goldfinger como um ardiloso magnata, com uma ambiciosa obsessão por ouro e tudo que ele envolve. Seus trejeitos marcantes como o vilão influenciaram outros inimigos que estavam por vir na série como Karl Stromberg, Hugo Drax ou o Elliot Carver, apenas para lembrar alguns dos mais extravagantes em seus planos. Harold Sakata entrega um capanga formidável com seu sinistro Oddjob, outra figura exagerada que mata com um arremesso de seu sinistro chapéu coco. Das Bond Girls do filme, se destaca Honor Blackman como Pussy Galore, um nome infame pensado pelo próprio Ian Fleming.
Outro elemento clássico que “007 contra Goldfinger” estabelece é o Aston Martin DB5 modificado com bugigangas como um assento ejetor, metralhadoras e um dispositivo que joga óleo na pista sempre que precisar. O carro passa a virar um símbolo da série que se vale da propaganda para levantar recursos para produzir os filmes. O mesmo passa a acontecer com os relógios que Bond utiliza e todas as marcas que aparecem ao longo da franquia. A partir de então, nada mais apareceu por acaso, sempre foi tudo parte de uma estratégia de negócios que influenciou Hollywood em suas produções no posicionamento de marcas nos filmes.
“007 contra Goldfinger” levou o primeiro Oscar da franquia por Edição de Som, estatueta que ficou com Norman Wanstall. Nas demais categorias, John Barry foi indicado ao Grammy pela canção tema e Ken Adam ao Bafta pelos designs de produção. O longa custou três milhões de dólares, a quantia somada da produção dos dois filmes anteriores, e teve um retorno de aproximadamente 125 milhões de dólares nas bilheterias pelo mundo, um sucesso absoluto que estabeleceu todos os clichês da franquia e do cinema de espionagem. “007 contra Goldfinger” está disponível com os demais filmes da franquia na Netflix.
Nota: 11.
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio revisitando “007 contra Goldfinger”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
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