O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O Assunto é Cinema analisa “Barba Ensopada de Sangue”, filme dirigido por Aly Muritiba. No rastro de uma vida oculta sob escombros, encontram-se lacunas profundas. Lacunas apenas preenchidas com morte, mentiras e injustiças. Exibido nos cinemas, o filme “Barba Ensopada de Sangue” conta a história de Gabriel, atleta e professor que atende ao último pedido do pai antes de morrer e viaja até a praia da Armação, em Santa Catarina, para investigar o desaparecimento de seu avô Gaudério. Ele se instala na velha casa na beira do mar onde o avô morou. Para sua surpresa, os moradores da comunidade o hostilizam por causa da lenda sobre Gaudério ter matado uma mulher e por isso, ter sido assassinado, embora o corpo nunca tivesse sido encontrado. Ao interagir com a população, bem ou mal, ele vai ligando peças até encontrar um desfecho aterrador.
“Barba Ensopada de Sangue” tem a direção de Aly Muritiba e o roteiro é assinado por ele e Jessica Candal, baseado no romance homônimo do escritor paulistano Daniel Galera. De início fica muito claro que o ritmo do longa-metragem é lento a ponto de se tornar arrastado. E isso não é necessariamente um problema. Como é uma obra introspectiva sobre as profundezas do indivíduo, parece praticamente impossível desenvolvê-la com o frenetismo exigido pela atual era da rapidez de conteúdo. Tempo é combustível narrativo. Por isso, os espaços tem importância crucial. A casa possuída pelo silêncio sinistro do abandono, a praia envolta em uma melancólica atmosfera azulada e o povoado tomado por pessoas de expressões soturnas compõem uma aquarela propícia a uma trama densa. Há pouca leveza no filme, à medida que o roteiro vai plantando mais perguntas que respostas até a conclusão numa espiral agoniante. É filme para consumir com as mãos cerradas de angústia.
O elenco de “Barba Ensopada de Sangue” é um misto muito interessante de representações. Composto majoritariamente por homens, até porque parte da mensagem gravita sobre o eixo da masculinidade, ele entrega atuações convincentes. No geral, os personagens são homens simples e de pouca instrução que se encasulam em suas certezas. São elas que transformam Gabriel em alvo da vingança tardia pelo avô Gaudério, visto como um fantasma maligno de volta na forma de um jovem à procura do passado de um pedaço de sua família. Isso é simbólico de como funcionam até mesmo as engrenagens do fascismo: a partir do passado místico sombrio, cria-se o inimigo externo e empreende-se a luta divina para eliminar o mal. Sob essa tensão, Gabriel enfrenta os próprios temores, numa atuação de Gabriel Leone digna de aplauso, salvo por tentativas de emular um sotaque catarinense que, às vezes, não convence. Seu personagem homônimo é um poço de cólera, trabalhado nas supervalorizadas expressões faciais frígidas, olhares enigmáticos e trejeitos que indicam alerta constante. É como se Gabriel temesse não apenas a desconfiança aguda dos habilitantes, mas a possibilidade herdar os carmas do avô.
Vale destacar também as presenças femininas nesse recorte da existência de Gabriel. Uma delas é Jasmin, guia turística que se envolve com ele, interpretada por Tainá Duarte em ótimo trabalho. É ela quem acolhe o forasteiro e tenta dar uma direção a sua busca até certo ponto da trama, em contraste com os homens locais infensos a Gabriel. Outra presença feminina é a personagem interpretada por Teca Pereira que tem as pistas das respostas que o protagonista busca. Ela aparece no final do filme, mas é fundamental. As demais mulheres têm em comum a mescla de proteção, acolhimento e iluminação, enquanto os homens do filme são tomados por agressividade, medo e repulsa. Um contraste provocativo que explica muito da nossa sociedade sob a perspectiva histórica dos gêneros. Dessa forma, “Barba Ensopada de Sangue” também pode ser lido pela chave arquetípica, onde Armação se converte em microcosmo da nossa mente. Ainda mais quando se tem as baleias como figuras espectrais. Gaudério era caçador desses animais marinhos e a caça de baleias era o principal meio de vida do povoado. A revelação do destino do avô de Gabriel passa por esse detalhe, trabalhado com delicadeza e cargas adequadas de mistério.
“Barba Ensopada de Sangue” é um ótimo filme, profundo, denso, exigente de paciência, mas com roteiro conciso e direção que usa com habilidade as nuances não-verbais da interpretação cênica. Ou seja, é uma obra de personagens, especialmente Gabriel, uma espécie de escafandrista compelido pelo suicídio do pai depressivo a mergulhar no abismo do passado familiar. Nesse percurso, ele encontra violências silenciosas, mentiras convictas e a solidão de quem, ao descobrir a verdade sobre o avô, descobre a própria essência. Essa essência parece se fincar no aspecto que domina a todos nós, mesmo que não saibamos: a natureza. Que o diga Beta, a cadela idosa que acompanha Gabriel. Um lembrete de que o oceano de nossa identidade pode ser escuro e abissal, mas é possível extrairmos dele, alguma luz.
Nota: 9.
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio analisando “Barba Ensopada de Sangue”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
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