O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “Emergência Radioativa”, minissérie criada por Gustavo Lipsztein e produzida pelo estúdio Gullane. A trama é uma ficção histórica que retrata o incidente radioativo em Goiânia em 1987, quando dois catadores encontraram uma cápsula de radioterapia em um prédio abandonado. Depois que o dono de um ferro-velho comprou a cápsula, ele decidiu abrir o artefato e, com isso, iniciou uma cadeia de eventos que acabou espalhando o então desconhecido conteúdo pela vizinhança: aproximadamente 19,5g de Césio 137, um elemento radioativo extremamente perigoso, capaz de impregnar tudo ao seu redor com radiação.
Os envolvidos no incidente ganham novos nomes, até mesmo para dar maior liberdade para os elementos ficcionais e dramáticos da recriação. Ao abrir a cápsula, o dono do ferro-velho, Evenildo Quadrado, percebe um pó que emite um curioso brilho azul no escuro, criando um certo deslumbramento por quem entra em contato com o material. Ele acaba mostrando o pó para os familiares, funcionários e amigos próximos que espalham pouco a pouco o material radioativo pela vizinhança. A série é competente em retratar inclusive como os personagens que mais se contaminaram com o Césio interagiram com o material por pura falta de conhecimento, os atores conseguem exprimir o maravilhamento com a substância com muita competência.
A narrativa principal acompanha o físico Márcio, interpretado por Johnny Massaro, um jovem que visita o pai em Goiânia e acaba sendo o primeiro a descobrir a contaminação radioativa causada pelo material. Depois de iniciado o desastre, é por ele que o espectador acompanha os desdobramentos da tragédia e da gestão da crise. A recriação dos acontecimentos é cuidadosa e acompanha uma linha do tempo próxima dos eventos que realmente aconteceram em Goiânia entre setembro e outubro de 1987, quando a contaminação finalmente acometeu suas primeiras vítimas fatais e a gestão conseguiu finalmente isolar as mais de seis mil toneladas de material contaminado pela radiação e descontaminar os moradores que entraram em contato com o Césio.
Assim como outras produções do tipo, “Emergência Radioativa” divide em vários núcleos dramáticos a recriação dos eventos. O ponto de vista das vítimas e dos profissionais que atuam para conter a contaminação é estabelecido de forma competente, equilibrando bem o tom entre o drama das vítimas, com o tom de denúncia pela descaso das autoridades, e o registro da dedicação daqueles que trabalharam para resolver a crise antes que tudo piorasse. O drama das vítimas é intenso, principalmente o núcleo da família Quadrado, a começar pela franqueza com que o ator Bukassa Kabengele entrega no papel do dono do ferro-velho, Evenildo Quadrado.
Entre os demais destaques do elenco, Paulo Gorgulho se sobressai como Dr. Benny Orenstein, o físico enviado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para administrar a crise, Marina Merlino comove como Catarina Quadrado, a primeira da família a ser liberada pelos médicos e que ficou vagando pela cidade por não ter amparo algum do governo, ela se destaca justamente por escancarar o descaso que fica ainda mais triste por ela ser mãe da Celeste, a criança que teve o maior contato com o Césio e acabou morrendo. Ainda no núcleo das vítimas, Ana Costa sensibiliza o espectador como Antônia Quadrado, esposa de Evenildo, justamente a pessoa que percebeu que existia algo errado com aquele pó brilhante e que algo deveria ser feito, pois todos ao redor do material estavam ficando doentes.
Um elemento que ficou pendente foi a resolução da investigação que no final condenou os administradores da clínica de radioterapia, locatários do prédio que foi abandonado e demolido com a cápsula radioativa em seu interior, e o físico responsável pelo equipamento radioativo instalado nessa clínica. Todos foram condenados a três anos de prisão, sentença que não foi cumprida na íntegra por nenhum dos envolvidos. Isso fica sem resolução, ainda que mostre o depoimento do Dr. Orenstein assumindo a responsabilidade, em nome da CNEN, pela falta de supervisão dos dispositivos radioativos espalhados pelo país. Esse é um elemento importante da crise que acabou retratado parcialmente, sem um desfecho satisfatório. Essa tragédia foi responsável por criar uma legislação específica para monitoramento direto por físicos especialistas em energia nuclear para cada equipamento instalado, algo que poderia ser melhor ilustrado.
Os valores de produção são vistos na recriação dos cenários e de muitos dos elementos de cena, ainda que a série não tenha sido filmada em Goiânia. Uma das reclamações dos goianos é que a série optou por simular a capital filmando no interior paulista, algo que ficou um tanto quanto precário, principalmente para quem conhece Goiânia, a cidade toda fica em um grande planalto, praticamente sem nenhuma elevação. O estádio municipal segue no mesmo lugar, poderia ter sido usado como locação, bem como algumas das ruas onde a tragédia transcorreu. Fato é que Goiânia não tem ladeiras como as que aparecem em algumas cenas, entre outros elementos geográficos. No aspecto criativo, não é algo que pese contra, apenas ficaria de bom tom se levasse a produção para a cidade, algo que não ficou bem esclarecido pela produção e incomoda justamente por se tratar de um grande trauma para a cidade.
O maior mérito de “Emergência Radioativa” é conscientizar o espectador de como a tragédia com o Césio 137 em Goiânia foi algo muito mais grave do que o imaginário coletivo acabou assumindo. Na escala criada por especialistas para determinar a gravidade de uma emergência radioativa, que vai de 0 a 7 sendo 7 a mais grave, o incidente em Goiânia ficou no grau 5. Foi o único incidente conhecido fora de uma instalação nuclear e que espalhou o elemento causador da radiação por uma área vasta, contaminando pessoas, materiais e arriscando se ampliar ainda mais se entrasse em algum lençol freático. O produtor Gustavo Lipsztein já tinha adaptado com competência no mesmo formato a tragédia da boate Kiss em “Todo Dia a Mesma Noite” e consegue fazer o mesmo com “Emergência Radioativa”, mérito dele e dos demais roteiristas, diretores e responsáveis pela série. Nas últimas semanas, o sucesso com o público colocou a série como o maior destaque internacional na Netflix, algo a ser celebrado, bem como a aprovação recente do reajuste das pensões das vítimas da tragédia, em virtude da repercussão da produção.
“Emergência Radioativa” está disponível na Netflix.
Nota 8.
Confira o trailer do filme:
Ouça o episódio analisando “Emergência Radioativa”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:
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