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O Assunto é Cinema – Analisando a cinebiografia Michael

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

Cinebiografias costumam ser arriscadas e esse risco é proporcional à relevância da pessoa cuja vida é retratada. Quando o tema é um artista da música que inscreveu seu nome na eternidade e atravessa gerações com o peso do estrelato, o desafio é ainda maior, assim como a responsabilidade. E ela pode pesar muito na realização de uma obra, positiva e negativamente. Ambos os pesos recaem sobre “Michael”, que entrou em cartaz nos cinemas. Escrito por John Logan e dirigido por Antoine Fuqua, o filme narra a história de vida de Michael Jackson, desde os primeiros ensaios em família com os Jackson Five quando ainda era criança, até o início da turnê do álbum “Bad” no final dos anos 1980. O eixo dessa jornada é a relação do rei do pop com a família, especialmente com o pai Joseph Jackson, um homem controlador, ambicioso e opressivo.

Diferentes de cinebiografias musicais que contam com o suporte de uma biografia literária para fornecer um conteúdo mais robusto e organizado, em “Michael” os realizadores não tinham esse privilégio. O caminho foi reconstituir a trajetória de Michael Jackson a partir de outros registros e principalmente do apoio de parte da família do astro falecido em 2009. Talvez tenha sido aí que as coisas ficam estranhas e isso deságua no filme. Quando uma produção depende de quem administra o espólio, há o perigo de se perder o controle narrativo. O próprio filme dá pistas de como a família de Michael Jackson se comporta diante da grandeza do artista, com pulso firme, o que pode ter sido a causa dos numerosos problemas no roteiro. Ele é apressado, mal costurado e deixa incômodas lacunas graças a saltos de tempo enormes na linha do tempo de Michael. Por exemplo, parece haver uma inadequada pressa em acelerar a transição de Michael Jackson dos Jackson Five para a carreira solo, sem a preocupação com os impactos que sabidamente a mudança trouxe para a pessoa do artista.

Além do roteiro carregado de inconsistências, a direção optou por escolhas, no mínimo, discutíveis. Em quase todo o filme, elas recaem sobre o desenvolvimento da relação entre a intimidade familiar de Michael Jackson com o pai. As cenas apelam a clichês que flertam com a pieguice, mal sustentadas pela pobreza do roteiro e cheias de lugares-comuns. A impressão é que as fontes usadas para sustentar a narrativa sobre a vida do artista não municiaram a produção com nada além do que já se sabe sobre Michael. Embora fique claro que a convivência dele com o pai impactou muito seu modo de conduzir a carreira, o filme a reduz a uma trama superficial digna de um folhetim insosso. É um resultado frustrante, especialmente porque o final revela a existência de uma continuidade da história de Michael Jackson. Então, havia espaço para aprofundamentos dentro do recorte escolhido para este filme, mas, infelizmente, a preferência foi pelo raso. A partir daí, vem a questão: será que os realizadores de “Michael” não tiveram escolha diante de um possível controle draconiano por parte dos familiares que assinam como produtores executivos?

Quanto às atuações, as atenções recaem sobre Jafar Jackson, sobrinho de Michael Jackson e interpretando seu primeiro papel no cinema. A pressão, portanto, era inevitável e ele parece ter sentido. Há dois aspectos em sua performance. No que diz respeito à elaboração da parte artística de Michael Jackson, como música, dança, trejeitos, sotaque, timbre de voz e cacoetes de palco, ele se sai muito bem, obedecendo aos detalhes com desenvoltura. Porém, quando o trabalho interpretativo deixa a esfera artística e entra na vida pessoal do astro, fica nítida a inexperiência de Jafar, somada a uma direção despreocupada e a um estranho trabalho de maquiagem. Não compromete tanto, mas um papel central tão impactante, com tanta expectativa, exigia um ator mais tarimbado. Os demais integrantes do elenco fazem o básico, sem nenhum destaque mais proeminente, nem mesmo Colman Domingo, que deu vida ao pai de Michael. Em alguns momentos, ele beirou a caricatura, mas conseguiu o intuito de refletir a personalidade egocêntrica e autoritária do controverso pai de Michael Jackson.

“Michael” é filme mediano, com roteiro pouco inspirado e preguiçoso, e uma direção acomodada em soluções comuns às inúmeras cinebiografias de artistas da música. O que salva a obra de um desastre são os generosos momentos musicais, maravilhosamente produzidos, contrastando com o restante. A impressão é que os realizadores caminharam sobre um terreno minado e ficaram com medo de uma bomba explodir sob seus pés. Quem plantou essas minas pode muito bem ter sido a família de Michael. Um indicativo é a ausência de Diana Ross, importante figura na vida e carreira do cantor. Outro indício é a forma como o Joseph é retratado. Cheio de suavizações logo no início do filme, essa abordagem chega ao ponto de passar a mensagem de que as surras de cinto que Michael Jackson recebia ajudaram a moldar o artista grandioso que se tornaria. Sabe-se que as consequências foram diferentes e nada positivas. Michael Jackson foi uma criança que teve a infância roubada pelas ambições do pai e que jamais superou a sequela psicológica disso, nem mesmo no auge da carreira. Quanto às polêmicas mais graves, como as acusações de abuso sexual infantil, devem ser trabalhadas na já confirmada sequência, ainda sem data de estreia, mas com algumas cenas gravadas. O jeito é esperar que as falhas sejam solucionadas, uma vez que a responsabilidade promete ser ainda maior. Por enquanto, é possível dizer que “Michael” é muito bom para matar a saudade. E só.

 

Nota 5.

 

Confira o trailer do filme:

 

Ouça o episódio analisando “Michael”,  entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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