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Empatia e Experiência: repensando o valor da idade na sociedade

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Por Alexandre Gonzaga

A empatia, muitas vezes, se fortalece quando conseguimos nos colocar próximos da realidade do outro, ou quando já vivenciamos experiências semelhantes. No etarismo, preconceito baseado na idade, percebemos algo curioso: trata-se de uma experiência que, cedo ou tarde, todos nós viveremos. Na contramão desse prejulgamento, a história, seja no cinema ou na vida real, mostra que, diante de crises financeiras, políticas ou sociais, a sabedoria costuma buscar refúgio nos mais velhos, nos experientes, nos chamados “conselhos de anciãos”.

O etarismo se manifesta nas duas pontas da vida: na juventude e na velhice. Jovens também podem ser subestimados, enquanto idosos são frequentemente ignorados, mesmo quando sua experiência e conhecimento poderiam orientar decisões e caminhos.

Essa constatação nos lembra que cultivar a empatia não é apenas compreender o outro no presente, mas reconhecer que, em algum momento, poderemos ocupar o lugar dele.

É justamente nessa lacuna que a empatia precisa florescer, não apenas como sentimento, mas como ação consciente, capaz de romper estereótipos e abrir espaço para o respeito em todas as idades.

É frequente ouvirmos expressões como “coisa de velho” ou “coisa de moleque”. Elas parecem inofensivas, mas reforçam clichês e delimitam papéis sociais, acentuando o julgamento baseado na idade. Esse tipo de linguagem revela como o etarismo se infiltra no cotidiano, naturalizando atitudes e comportamentos que passam despercebidos.

Reverter ou pôr fim a esse pensamento retrógrado exige uma transformação que começa na infância. Afinal, por que os avós são tão queridos pelas crianças e, mais tarde, os adultos passam a repetir clichês como “coisa de velho”? Talvez porque, com o tempo, desaprendemos a reconhecer o que a infância enxerga com naturalidade: o valor do afeto, da sabedoria e do vínculo entre gerações. Resgatar esse olhar é o primeiro passo para construir uma sociedade verdadeiramente empática e livre dos preconceitos que o tempo insiste em perpetuar.

Na minha percepção, chamar os pais de “meu velho” ou “minha velha” soa como uma forma disfarçada de desconsideração. É um menosprezo, ainda que inconsciente, por quem um dia segurou suas mãos quando você ainda não podia caminhar. Um gesto de descuido com quem dedicou tempo, amor e sacrifício para que você chegasse até aqui.

Cada vez mais, as corporações têm optado por recrutar jovens e idosos como forma de suprir a escassez de mão de obra no mercado. Os recrutadores identificam, nas duas pontas, qualidades e virtudes complementares: nos mais jovens, a disposição para aprender e a ausência de vícios profissionais; nos mais experientes, a paciência, o equilíbrio e o conhecimento acumulado ao longo dos anos. Essa combinação tem se mostrado valiosa para equipes mais diversas, inovadoras e humanas.

Além disso, os cargos de conselheiros em instituições e empresas no Brasil são altamente valorizados, oferecem remunerações atrativas e exigem um conjunto específico de experiência profissional, competências e conhecimentos em governança corporativa.

Segundo órgãos internacionais, o envelhecimento ativo é um elemento-chave de muitas iniciativas voltadas aos idosos. O conceito propõe que continuem contribuindo para a sociedade não apenas no âmbito econômico, mas também em atividades sociais e culturais, assegurando sua permanência ativa e integrada à vida comunitária.

Outra percepção que tenho é a seguinte: os mais velhos em cargos de poder ou posições de autoridade costumam ser respeitados, às vezes até reverenciados, enquanto os demais, os “simples mortais” acima dos 50 anos, são frequentemente ignorados, num ato de pura covardia, como diz o ditado: “têm medo, mas não têm vergonha”.

Neste sentido, o reconhecimento à maturidade parece depender do status e não da trajetória, do cargo e não da contribuição. Esse desequilíbrio revela um dos aspectos mais sutis e cruéis do etarismo: tornar invisíveis justamente aqueles que mais têm a oferecer.

Portanto, da próxima vez que você pensar em se referir a alguém simplesmente como “o velho” ou “a velha”, faça uma pausa e reflita: um dia, se Deus quiser, você também chegará lá, e quando esse momento vier, com sorte, sabedoria e boas histórias para contar, talvez perceba que envelhecer não é sinônimo de decadência, mas de conquista.

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

Imagem gerada por I.A

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