NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O ASSUNTO É CINEMA analisa a minissérie brasileira “Ângela Diniz – Assassinada e Condenada”, disponível na HBO Max. Ela conta história da socialite mineira Ângela Diniz, morta pelo namorado Doca Street em 1976. O motivo teria sido a personalidade libertária da vítima transformada em atenuante. Eram os anos 1970 num Brasil contaminado pela hipocrisia moral da ditadura. Logo, de vítima de homicídio, Ângela Diniz foi convertida em mulher perigosa que atentou Doca Street, levando-o ao que o renomado advogado Evandro Lins e Silva chamou no tribunal de “deslize”. Três tiros no rosto e um na nuca de uma mulher desarmada foi só um “deslize”. Entendo que é o trabalho do advogado, mas isso não me impede de considerar o argumento nojento.
Dirigida por Andrucha Waddington, o roteiro foi baseado no podcast “Praia dos Ossos” (2020) de Branca Vianna, veiculado pela Rádio Novelo. “Ângela Diniz – Assassinada e Condenada” é dividida em seis episódios liberados semanalmente, ajudando a construir um clima de novela. Como estratégia para gerar expectativa, funcionou muito bem, em grande parte, por causa dos ótimos ganchos que o roteiro criou para encerrar cada capítulo. Com soluções simples, a série provoca aquela boa expectativa pelo próximo episódio, mesmo sendo uma história famosa.
Desse modo, o que importa é a caminhada até o conhecido desfecho e seus desdobramentos. Sobre esse eixo, a narrativa se desenvolve sem abdicar do apelo ao folhetinesco. Os exageros cinematográficos e uma certa lentidão calculada em momentos variados, nos tensos e nos alívios, funcionam porque cativam do primeiro ao último episódio. É como acompanhar uma novela, no que esse tipo de produto audiovisual tem de melhor.
Colaboram para o êxito de “Ângela Diniz – Assassinada e Condenada” as atuações impecáveis de Marjorie Estiano e Emilio Dantas, assim como do elenco no geral, salvo algumas performances pouco convincentes. A atriz entrega o misto de potência libertária, destemor inconsequente, altivez e fragilidades que caracteriza Ângela Diniz. Marjorie Estiano incorporou tanto a mãe presente e amável, quanto a “pantera de Minas” e a desafiadora namorada do seu algoz.
Já Emilio Dantas traduz com perfeição a personalidade possessiva, violenta e vazia de Doca Street, jogando luz não só na mediocridade do indivíduo, mas descortinando o perfil comum de agressores e feminicidas. O Doca Street de Emilio expõe o covarde que habita a essência dessa estirpe de criminosos. Vale mencionar também a eficiente atuação de Antonio Fagundes como Evandro Lins e Silva. No último episódio, dedicado ao julgamento de Doca, que virou um “julgamento da vítima”, deu raiva do causídico. Sinal de sucesso do seu trabalho.
“Ângela Diniz – Assassinada e Condenada” é uma minissérie muito boa, com direção que mantem a regularidade em todos os episódios. O roteiro é satisfatório, salvo pelo erro de não ter aprofundado mais a criação do movimento Quem Ama Não Mata, que ganhou força após o vergonhoso veredito do primeiro julgamento de Doca Street. Esse movimento feminista reverteu a opinião pública e pressionou por um novo julgamento, conseguindo uma condenação um pouco mais justa para o assassino. Além disso, semeou elementos fundamentais para a abordagem jurídica de crimes contra a mulher. Logo, merecia bem mais minutos.
Mas esse equívoco não subtrai o mérito de reconstruir corretamente a história trágica de Ângela Diniz, sem receios de mostrar qualidades e defeitos, e colocando-a em seu real e único lugar nessa trama: o de vítima de um crime brutal cometido por um homem que não aceitava o direito de uma mulher de ser quem ela é.
Há sim outro culpado além de Doca Street: o machismo. Machismo que criou o bandido Doca Street. O machismo que o transformou em ídolo de parte da população brasileira da época. O machismo que historicamente forma nós, homens, desde a infância para encarar a mulher como sua propriedade. O mesmo que permeou a sustentação jurídica da Evandro Lins e Silva. O mesmo que matou 39 mulheres neste ano só em Mato Grosso do Sul até agora. O mesmo que infelizmente ainda vai criar novas Ângelas em todas as classes sociais.
Confira o trailler:
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