Hamnet
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“O Assunto é Cinema analisa “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”

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O programa da FM Educativa 104.7 de MS, “O Assunto é Cinema analisa “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”. Produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach, o quadro vai ao ar todas as quintas, às 20h (horário de MS), pela rádio Educativa 104.7 FM.

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O ASSUNTO É CINEMA analisa “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, filme dirigido por Chloé Zhao. A trama adapta o romance de Maggie O’Farrell, uma ficção histórica que lança luz sobre um período pouco documentado da vida de Shakespeare, seu casamento com Anne Hathaway, na obra retratada como Agnes. Eles tiveram três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet. O roteiro, adaptado pela própria autora em parceria com a diretora Chloé Zhao, acompanha o começo do casal até o distanciamento com o reconhecimento da carreira de William como dramaturgo.

A projeção abre com um aviso que destaca que Hamnet e Hamlet eram grafias de um mesmo nome, um elemento importante para o roteiro. A trama é centrada em torno de Agnes, uma herbalista que entra em cena domando um falcão, em uma mata fechada. O espectador logo vê a câmera centralizando a ação em torno da personagem, alternando planos abertos e closes destacando a emoção representada em cada cena, algo que marca a bela fotografia do filme.

A cinematografia do polonês Łukasz Żal se destaca como elemento narrativo que abre mão de tomadas convencionais ou sequências para tratar várias cenas como se fossem situadas em um palco. A diretora Chloé Zhao coloca os atores no centro de determinadas tomadas se valendo de poucos cortes, mantendo muitas vezes a câmera fixa e enfatizando a capacidade dramática do elenco acima de quaisquer outros elementos cinematográficos. A decisão de priorizar a atuação e a cena acima da ação e do ritmo do cinema valorizam ainda mais o elemento teatral do texto.

A interpretação de Jessie Buckley como Agnes é tocante e intensa, algo que também pode ser dito de Paul Mescal como Shakespeare. O jovem ator foca em retratar o homem comum antes dele se tornar o grande bardo inglês, algo que o filme deixa nas sutilezas, no desenvolvimento do personagem. Ele só é identificado pelo nome perto do final do filme, algo que ajuda na construção da figura que a autora queria retratar. Fosse ele Shakespeare desde o começo, a trama não seria sobre Agnes e é aqui que Jessie Buckley se destaca em seu papel, retratando cada nuance de uma vida distante do marido, com todas as agruras que pouco foram documentadas pela história.

Os poucos registros existentes sobre Shakespeare dão conta de que seu casamento com Anne Hathaway ficou marcado pelo luto pela perda trágica do jovem Hamnet, supostamente por conta da peste. A ficção de Maggie O’Farrell opta por nomear Anne como Agnes, algo que ela extraiu do registro do nome no testamento do pai, único lugar em que Anne foi reconhecida como Agnes. É importante esclarecer que tanto livro quanto filme não pretendem registrar fatos e sim jogar uma luz sobre uma fase ignorada da vida de Shakespeare, enfatizando e elaborando a pouco conhecida esposa e o luto pela perda de Hamnet.

A produção ainda conta com o design de som minimalista de Johnnie Burn que valoriza mais os silêncios e os sons da natureza que a trilha sutil de Max Richter. A música entra suave, discretamente e como elemento potencializador do drama enquanto os sons ao redor de Agnes demonstram sua conexão quase sobrenatural com a natureza. A combinação de enquadramento e som rende belas cenas como a que William e os filhos fazem uma surpresa para Agnes, atuando um texto do pai perante a mãe como plateia. Momentos singelos como esse desmistificam a aura em torno de Shakespeare e reforçam a nova perspectiva que o projeto pretende estimular.

Um dos grandes destaques do elenco fica com o pequeno Hamnet interpretado com graça e talento por Jacobi Jupe. O garoto é natural e expressivo, tem carisma e presença em cada uma de suas cenas. A tragédia em torno de seu destino ganha outra dimensão graças à capacidade de interpretação do jovem ator. Por mais que o filme seja em grande parte em torno de Jessie Buckley e sua Agnes, a atuação de Jacobi merece ser reverenciada. Chloé Zhao percebeu isso a ponto de escalar o irmão do garoto, Noah Jupe, como Hamlet, algo que só intensifica a sutileza do desfecho do filme no palco com a estreia da famosa peça.

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” é um filme que supera o luto pela arte. A concepção de Hamlet a partir da tragédia de Hamnet é uma suposição histórica, uma hipótese como tantas outras em torno de uma figura com um passado repleto de ausências e rico em anedotas. Jogar luz sobre personagens pouco documentados a partir de uma suposição elaborada pode ser pouco concreto do ponto de vista histórico, mas é prova de como a arte pode abstrair o mundano e criar novos significados e sensações na busca por um entendimento maior e mais justo em torno de figuras esquecidas como Agnes e Hamnet. A catarse do desfecho do longa, perante o palco de um teatro, provoca na plateia da ficção e do cinema uma empatia que só a arte pode sublimar.

Confira o trailer:

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